Os dados de hoje são unânimes em apontar o Flamengo como clube detentor da maior torcida do mundo. O que na História do clube pode explicar isso?

Muitos se referem a grande fase atravessada pelo futebol na década de 1980, mas parece que antes mesmo disso o time já era popular. Tenho informações de que o time, em seu primórdios, ao contrário dos outros times, treinava na rua, o que trouxe desde cedo o público popular para próximo dele. Será que isso procede?

Tags: esporte, flamengo

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Excelente idéia: eis um bom tópico de pesquisa. A paixão pelo clube pode não estar relacionada com o futebol. Eu escolhi torcer pelo Flamengo aos 7 anos de vida quando não sabia o que era futebol, não conhecia as cores do time, nem a dos adversários. A minha escolha deveu-se ao próprio nome: Flamengo.
Interessante o ponto de vista, Domitila. Mas eu diria que a adesão ao clube é mesmo um fator de paixão. O que explica como se deu as condições desta paixão, aí sim entram estas questões, como a aproximação dos populares desde o início.

Futebol, mais até do que qualquer outro esporte, é extremamente passional.

Algumas outras variáveis que podemos considerar: marketing, a "geração Zico" ,o Rio de Janeiro como cidade irradiadora de cultura e projeto político do clube, dentre outros.

Você pensa em mais alguns?
Só narrei minha escolha individual porque não me ocorre nenhuma outra. Vale a pesquisa, acho tuas idéias muito boas. Você conhece o curso oferecido pelo professor Bernardo Buarque na UFRJ "História Social do Futebol"?
Não conheço. Mas pode ser um ótimo contato. Vou tentar entrar em contato com ele e convidá-lo para o Café História.

Conheço o Núcelo de Sociologia do Futebol que existe na UERJ.
bruno,

o Flamengo, logo após a fundação do departamento futebol em 1912 (departamento de esportes terrestres, senão me engano), treinava na praia do Russel (onde hoje é o aterro da Glória) aproximando a torcida ou mesmo apenas os simpatizantes, que mediante aquele contato acabavam sendo 'convertidos' ao flamengo, dos jogadores e assim do clube. Dado como filhote do departamento de futebol do Fluminense, o Flamengo tornou-se a alternativa popular ao clube fechado da zona sul que era o FFC, atraindo os apaixonados por futebol, que na situação de não sócios do clube das laranjeiras não sentiam-se tão ligados assim ao clube.

Por exemplo, assim como o Bangu cresceu muito em sua fundação por estar localizado próximo a Fábrica de Tecidos Bangu, angariando trabalhadores e moradores a torcida do alvi-rubro suburbano. Mas após a falência da indústria, viu reduzida a sua área de influência.
sobre o nascimento da paixão rubro negra, é referência a minha primeira lembrança de futebol. Flamengo 3, Botafogo 0. Na final do brasileiro de 92. resumindo, sou um flamenguista mal-acostumado.

o curso do Prof. Bernardo é muito bom mesmo, já tive oportunidade de assistir algumas aulas e recomendo.
Bruno, aí vai a contribuição de uma mãe sobrecarregada que trabalha e estuda mas, mesmo sem entender as regras do futebol, aprecia uma bela partida. Sobre a geração gloriosa dos anos 1980, registro a paixão do meu filho pelo time: nascido em 1986 só encontrou sofrimento durante anos, sem jamais ter abandonado a "nação". Essa portanto é uma explicação insuficiente. Quanto ao texto que se segue: bon appétit!

O descobrimento do futebol, de Bernardo Buarque de Hollanda.
Editora Biblioteca Nacional, 319 páginas. R$ 20

por Joel Macedo

Em sua estréia, o historiador Bernardo Buarque de Hollanda persegue a trilha que transformou o futebol em esporte popular e paixão nacional, concluindo que a adesão dos intelectuais modernistas de São Paulo e dos regionalistas radicados no Rio, nas décadas de 30 e 40, foi decisiva para a metamorfose. O livro reúne o mais dionisíaco da cultura brasileira: modernismo, música popular e futebol. Personagens da vida carioca como Pixinguinha, Noel Rosa, Graciliano Ramos e Ary Barroso aparecem na pesquisa que, em linguagem acadêmica leve, como convém ao tema, se concentra no projeto modernista de construção de símbolos nacionais que colocava o futebol no terreno da cultura popular, via Mário e Oswald de Andrade, de um lado, e Gilberto Freyre e José Lins do Rego, do outro.
Para estes autores, imbuídos do espírito de brasilidade, crescia a idéia de que, através do futebol, o país podia ser inscrito naquilo que Mário de Andrade chamava de o concerto das nações. O descobrimento do futebol pelos modernistas acontece com o advento do profissionalismo no esporte, nos anos 30, que introduziu os jogadores negros. Com o trio Leônidas da Silva (o inventor da bicicleta), Domingos da Guia e Fausto, a Maravilha Negra, ídolo máximo de Noel (todos da seleção e do Flamengo), o elemento da ginga e da dança é enxergado como componente, identificando-se no futebol o homo ludens, autêntico e espontâneo, já reconhecido no samba e no folclore. Da Guia chegou a admitir que o fato de ser “bom de baile” ajudava nos seus dribles em campo.
Como demonstra o autor, esta visão adquiriu agressividade por intermédio de Lins do Rego em suas crônicas no “Jornal dos Sports” e também nos ensaios de Freyre, curiosamente, autor da expressão futebol-arte, e prefaciador de um livro-chave, “O negro no futebol brasileiro”, de Mário Filho, seleção de textos publicados no GLOBO a partir de 1942. O marco zero da obra polêmica deste dublê de jornalista e animador da cultura popular emergente foi a Copa de 1938, na França, a primeira a ser irradiada e na qual nossa seleção chegou em terceiro, tendo Leônidas como artilheiro.

PARADIGMA LANÇADO POR MÁRIO FILHO É QUESTIONADO

Bernardo discute a obra de Mário Filho, segundo a qual a migração do futebol da elite para o povo teria ocorrido de forma linear e harmoniosa, promovendo democraticamente a ascensão dos negros no esporte e na sociedade. A oposição vem de acadêmicos paulistas, como Leonardo Pereira, autor de “Footballmania”, pelo fato de o irmão de Nelson Rodrigues ter se tornado um paradigma na historiografia do futebol brasileiro, encarnando a versão oficial da História. A academia que tem dedicado cada vez mais atenção a esta mania nacional descobriu que, bem antes, Olavo Bilac, João do Rio, Coelho Neto e Lima Barreto, entre outros, debateram, com antagonismos, as dimensões assumidas pelo futebol na capital. O confronto é apresentado no livro com clareza.
O argumento central da obra é que a incorporação do futebol ao projeto de construção do Brasil moderno pode ser identificada de forma especial nos ensaios e crônicas esportivas de Lins do Rego. No escritor paraibano, cuja paixão pelo Flamengo foi mais que um dado excêntrico de sua personalidade, assumindo a dimensão de busca de nacionalidade, de um suposto caráter nacional-popular, o projeto modernista envolvendo o futebol se apresenta de maneira sistemática e cristalina.
Ao abordar as crônicas do autor de “Menino de engenho” na imprensa, nos anos 40 e 50, Bernardo descobre a importância do Diamante Negro Leônidas para a adesão do romancista tanto ao futebol quanto ao Flamengo. O centroavante em campo exerceu efeito quase hipnótico sobre sua existência, vivida entre a máquina de escrever e o frenesi dos estádios: “Quando me jogo numa arquibancada, nos apertos de um estádio cheio, ponho-me a observar... vejo e escuto o povo em plena criação”. O fato de ser do Flamengo, nesse romancista que absorveu e introduziu na crônica esportiva a linguagem do povo, ocupa a parte final da pesquisa quando Bernardo examina os clubes como “comunidades imaginadas”.
O livro discute a construção da idéia de Flamengo como time-nação (a nação rubro-negra) feita por Zé Lins — “Amo o Flamengo como se fosse um pedaço da terra onde nasci” —-, até ele assumir a chefia da delegação na excursão à Europa em 1951 (dez jogos, dez vitórias), abrindo as portas para o prestígio mundial do nosso futebol e corroborando a frase de Oswald nos anos 20: “E a Europa curvou-se ante o Brasil”. Lamentável, apenas, que uma editora do Ministério da Cultura tenha omitido o crédito do autor da linda pintura modernista que ilustra a capa: Cândido Portinari.
O casamento dos intelectuais com o futebol, se foi bom para este, também proporcionou aos pensadores o resgate da masculinidade bruta, relegada ao ostracismo pela vida urbana, quando muito chamada à existência na hora de matar uma barata ou trocar um pneu. “Aí está minha paixão incontida, o meu maior arrebatamento de homem, confundido na multidão”, desnudou-se Zé Lins em declaração de amor ao futebol e a seu Flamengo de tantas glórias.

JOEL MACEDO é jornalista e psicólogo social.
Publicado em 02/04/2005 com o título INTELECTUAIS SE RENDEM À BOLA em http://oglobo.globo.com/jornal/Suplementos/ProsaeVerso/167494561.asp

Source: www.ceme.eefd.ufrj.br/ive/boletim/bive200504/imprensa%255Co_globo%2...">http://209.85.215.104/search?q=cache:ISM35h53KvwJ:www.ceme.eefd.ufrj.br/ive/boletim/bive200504/imprensa%255Co_globo%2...|lang_fr|lang_en|lang_it|lang_pt
Extraído e editado em 10 05 08 por Domitila Madureira.
Domitila,

Você pode até não saber muito bem como se a formação de uma linha de impedimento, mas isso não a impede de contribuir de forma exepcional para o nosso tema em questão. =)

O trecho em que relaciona os clubes do futebol e comunidades imaginadas é relamente muito bom. O pulo do gato. Aliás, acho que é um ótimo fórum? O que acha?

Vou tentar ler este livro, que parece super pertinente.

Vou inaugurar aqui no grupo...

abs!
Realmente, como se tornou tão grande eu não sei. Mas, muitos dizem que o fato das rádios nordestinas transmitirem os jogos do rio, fez com que a torcida crescesse no nordeste onde a torcida do Flamengo é enorme. Bom, se a hipótese de treinar na rua estiver certa, ela só valeria p/o rio e, deixaria uma lacuna enorme, já que o Flamengo exibe uma torcida que está presente em todos os Estados, ñ acham?
A década de 1980 foi, sem dúvida, a mais benéfica para o Flamengo, que ao ganhar tudo, justo no momento da popularização da televisão, viu sua torcida crescer exponencialmente. Se bem que, o clube já detinha um número maciço de torcedores no Rio de Janeiro e parcelas significativas pelo Brasil. Acho que esse link pode nos ajudar um pouco...

http://www.flaestatistica.com/

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Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.

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