Estou fazendo estágio numa escola do Estado de São Paulo, em Barão Geraldo, acompanhando as aulas de uma das professores de história. Ao longo de minha experiencia até o momento tenho percebido algumas coisas: a professora precisa andar o tempo inteiro na corda bamba, os alunos tem aulas específicas para dias específicos, inclusive em quantidade de aulas dedicados à cada assunto.
As preocupações com as provas e avaliações do Estado são uma constante na escola. Um clima de permamente vigilancia paira sobre o trabalho, curiosamente, tanto dos professores quanto dos alunos.
No livro de história, a velha narração de sempre - a história da humanidade em pequenos quadros, narrados por um narrador onisciente universal, sem nome, lugar e data - o "ente-ahistórico". Pretende-se moderninho ao tirar o conteúdo da optica cronologica, mas permanece preso à uma história profundamente conteudística de "causa e efeito".
O Caderno do Estado também pretende-se bem moderninho, e possui sim algumas coisas bem legais, mas acho chegar, chega com fita métrica e balança, não é uma "sugestão" é um intento organizado de padronização do ensino, esforço do Estado de São Paulo que engloba todas as areas do ensino escolar.
Com os limites de reprovação, o limite de quantos podem reprovar(sim, isso existe) do Estado, e as regras para a continuação nas séries mesmo "sem passar".
O ensino profundamente funcional, voltado a responder perguntas mecanicamente em provas dadas a cada dois meses, formam alunos capazes de articular letras e formar palavras, mas que não sabem escrever - não tem liberdade criativa para escreverem textos e possui uma dificuldade enorme em expressar suas idéias e palavras. Não se trata apenas de uma dificuldade prática, técnica, mas de uma dificuldade de ordem significativa: pessoas que muitas vezes sentem que "não servem para escrever", que evitam expor suas palavras para não ve-las sendo reprovadas.
Essas restrições da escrita são acompanhados por toda a falta de sentido dos conteúdos: fazer uma prova é desarmar uma bomba, uma vez desarmada, tanto faz como é que você fez pra fazer isso. O esquecimento é recorrente, pouca coisa fica, e raramente "conteúdo", muitos "valores", mas "conteúdo" pouco - eles não lembram o que lhes foi "passado", mas lembram-se bem das ordens de autoridade da escola, de quem manda, de como se ocmportarem, de como burlarem essas regras, para ganhar tempo e espaço, ou talvez, simplesmente, deixar extravasar a revolta, diante de tanta violência.
E por isso, a professora precisa andar na corda bamba...
Voltando aos livros, ao ensino de história, a parte das discussões academicas sobre os métodos da história, apesar da noção de "verdade relativa", de nossas discussões em torno do próprio objeto "história" enquanto algo histórico, os livros que continuam escritos, narram os fatos "tal como eles foram" e com o perdão da palavra, as alterações estéticas e o uso de fontes imagéticas, ou mesmo textos, é cosmética.
No seu cerne o estudo é direto, a "ciência histórica", para conhecer o trajeto da humanidade, da "pré-história" aos "dias de hoje". Nosso circuito é obvio: Pre-história, Antiguidade Clássica, Idade Média (Europeia), "modernidade" (europeia), e por aí vai, na pretensão desse material didatico de nos tratar como um apendice do "fenomeno Europa". Uma história masculina, político-militar, dos fatos contados, uma história sem carater de disputa, um passado definido que "foi assim", contado aos alunos.
E aí uma das minhas principais questões:
Ao longo de nosso processo de formação, na vida mesmo, e também na escola, esbarramos com "espectros" de uma "história do mundo", ou "memória do mundo" (não é uma "memoria coletiva), tá mais pra uma coleção de retalhos, coisas que escolhemos lembrar "do mundo", nesses encontros com esses "espectros" e sua relação com nossa experiencia individual, com a formação de nossa memória enquanto individuos. O nosso pensar de "nós mesmos e do mundo".
A partir disso, quais são as relações que essas pessoas estabelecem da sua formaçao individual e as apropriações desse ensino de história escolar que se pretende uma "história geral"?
Como a forma como tratamos a memória, como tratamos a história, influencia na construção das memórias dos alunos? Que tipos de perspectivas, ansiedades, impressões causa?
Por que, não raro, os debates sobre temas polêmicos nas aulas de história, descamba para uma defesa apaixonada de pontos de vista sobre a natureza humana?
Como as pessoas se pensam, a partir de suas experiencias, e das "memorias do mundo", que lhes são apresentadas ao longo de sua vida através da TV, do ensino formal, da educação familiar, etc... ?
Enfim, é desse ponto onde gostaria de começar. Queria ouvir opiniões sobre as coisas que disse aqui, perspectivas de mudanças, outras análises, outras realidades.
De minha parte, ainda sem muitas respostas formuladas, acredito que seja necessário uma postura melhor por parte da academia em relação ao ensino de história fora dela. O desinteresse do departamento de história da Unicamp (e sim, meus queridos professores que lerem essa critica), é lamentavel: não se vai à escola, não se conhece alunos, sequer se incentiva que os graduandos o façam, para pensar como é que aquilo que escrevem está sendo apropriado por aqueles para quem deveriam escrever.
Até quando continuaremos escrevendo "Cadernos do Estado", livros didaticos, milhoes de teses e etceteras sobre o "ensino de história", sem pisar uma vez numa sala de aula de escola publica do fundamental e médio, sem uma vez dirigir a palavra aos "meros mortais" fora da academia, sem trocentos titulos, apenas adultos, adolescentes e crianças, cheios de ansiedades e expectativas, professores, alunos, pessoas?
Tags: Estado, de, didaticos, educação, ensino, historia, livros, memória
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