As teses de Ciro Flamarion Cardoso, professor da UFF, que fala em "modo de produção" na antiguidade continuam válidas entre a historiografia?

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Olha soh galera!
Acho que o Ciro Flamarion, quem eu admiro pela vastissima obra e em diversas areas diferentes, continua atual, assim como sua tese.
Não há como estudar Egito Antigo ou qualquer sociedade antiga sem conhecer a discussão sobre o modo de produção asiático, o que nos leva a Marx e o conceito de modo de Produção, a Gorender e a aplicabilidade ou não desse conceito no brasil.
Enfim, acho que elas ainda são válidas, no mínimo, como ponto de passagem obrigatória.
Não estudo História Antiga, apesar de adora-la, mas é minha opinião.
abraços
Acredito que, como qualquer corrente metodológica, o marxismo teve sua importãncia e deu sua contribuição ao estudo histórico. Pode-se dizer que alguns ainda o utilizam como veio central de suas pesquisas e de seus estudos. Entretanto, acredito, e isto é uma opinião pessoal, que sua abordagem já se mostrou limitada. Para abordagem de civilizações antigas, como os egípcios por exemplo, a tendência atual é não mais hipervalorizar o foco econômico como determinante de toda a estrutura restante. Muitas vezes, e o Egito Antigo está incluído nesta premissa particular, outros aspectos, como cultura e religião, dentre outros, são tão determinantes quanto, ou ainda mais determinantes que a economia e sua abordagem de modo de produção. Particularmente, tenho muitas reservas quanto à aplicação de Ciro Flamarion hoje em dia no estudo da civilização egípcia, mas no entanto, reconheço sua importância para a historiografia.
Antes, preliminares. Nunca fui e não sou marxista. Defino-me como tributário da grande corrente alimentada pelo impulso dos Annales (Bloch, Febvre), em especial na figura e na obra daquele que considero a sua síntese, Fernand Braudel. Em História Antiga, essa corrente tem na Escola de Paris (Vernant, Vidal-Naquet, Detienne) os seus mais destacados representantes, mas penso que ainda pode ser dela aproximado o trabalho de Moses Finley. Isso sem desmerecer a contribuição das gerações que lhe sucederam, as quais têm em Chartier seu êmulo maior.

Por isso sinto-me bastante à vontade para argumentar em prol da validade e da atualidade do marxismo. É claro, devemos distinguir Marx dos seus seguidores. Marx é um clássico e por essa dimensão assume, nas palavras de Wright Mills, um papel fundamenal na "imaginação sociológica" (nome de um de seus livros mais conhecidos) dos pesquisadores. Ao lado dele, entre os autores desse porte, Mills acrescentava Weber. Eu incluo Elias e Mauss. Autores a serem sempre revisitados em busca de inspiração para nossas teorias.

Há depois os marxismos, no plural. No Brasil, a sua hegemonia historiográfica se estende, nos grandes centros universitários, não até os anos 70, mas até a década seguinte. Iniciei meu curso de História, na UFRJ, em 1980, com a volta dos cassados, anistiados um ano antes. Para mim, estudante atraído pelos ideais de esquerda, mas afastado do chamado "socialismo científico" por ojeriza teórica ao economicismo marxista, o ambiente acadêmico revelava-se simultaneamente opressivo e desafiador.

A única explicação vista como cabível para a sociedade vista como fundamentalmente conflitiva era a marxista (a qual era colocada em oposição as que negavam tal caráter, ditas como funcionalistas). Descobri então marxismos e marxistas. Não só separados pela ortodoxia e da busca de uma pureza de pensamento que envolvia todo o debate de então. Basta lembrar a exaustiva polêmica sobre a transição "por dentro" ou "por fora" do feudalismo para o capitalismo. Mas também separados pelo relação firmada com o interlocutor não-marxista. Se a maioria buscava estigmatizá-lo, havia quem o respeitasse e, saindo da mera querela ideológica, promovia um debate científico sério.

E é este último, perdida a hegemonia acadêmica (prolongada até os anos 90 nos centros universitários periféricos), o marxismo que ainda sobrevive, o habilitado ao debate plural. O nome a despontar nesse horizonte, à margem dos modismos, é o de Ciro Flamarion Cardoso.

Assim não sendo marxista e tendo a honra de, lecionando na UFF História Antiga, ter o Ciro, o qual nunca abriu mão de suas convicções marxistas, como mestre, colega e amigo, não posso deixar de reconhecer que a explicação marxista é um sistema globalizante vigoroso e, nele, a idéia do determinismo econômico recebe, nos estudos de seus adeptos, entonações diversificadas. Dizer que esse ou aquele aspecto da sociedade (econômico, político, religioso etc) é mais importante em determinado fenômeno, apesar de nossas preferências pessoais, não se resolve a priori, mas tem de ser demonstrado a cada pesquisa.

Não há para o Oriente Próximo Antigo (Egito incluído) nenhuma interpretação abrangente com a eficácia da marxista. Se conhecerem outra, por favor, a apontem. A ressalva a se fazer é que ela se tormou mais sofisticada e a terminologia "modo de produção asiático" acabou por ser abandonada (assim como a "hipótese causal hidráulica" que lhe sustentava mas era também adotada por autores não-marxistas). A razão do abandono do termo se acha no fato de os pesquisadores identificarem tal sistema social em outras regiões do planeta além da Ásia.

Vários termos foram propostos e, entre eles, prefiro o de "palatino-aldeão". A este respeito, remeto-vos ao livro do Ciro Sociedades do Antigo Oriente Próximo, editora Ática (série Princípios).
Perfeito, Rolph. Atualmente tenho me dedicado a aprofundar a relação história e espaços, e voltando-me para o estudo da antiguidade oriental recorri aos conceitos marxistas de "modo de produção" e "modo de produção asiático". Reli o Ciro para tal tarefa. Não se deve insistir no uso de um conceito tão desgastado na historiografia, é verdade; mas o que acontece é ele tem sido útil em certa perspectiva dos meus estudos. Não precisa ser o "modo de produção asiático", mas a problematização de um novo olhar sobre a produção dos espaços sociais a partir da experiência dos antigos com a natureza. Quando você se propõe a analisar o desenvolvimento da vida material, as tendências marxistas devem surgir, no mínimo, como ponto de discussão historiográfica importante. Aliás, ele (o marxismo) ainda existe como uma determinada forma de se olhar para o passado.
Atual ou não , é uma referencia quando pensamos no caso da história antiga, em Egito o modo de "produção asiático" que nos remete como o amigo no primeiro comentário tinha dito ao "marxismo". E essa interpretação ajuda muito na discussão em sala de aula, nos possibilitando causar também um debate entre os alunos confrontando esse olhar com outras vertentes da historiografia, levando os alunos a raciocinar e ter uma visão critica a cerca da História. Com certeza Ciro Flamarion é de bom proveito,principalmente em sala de aula.

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