Luta armada, camburão
e um tal de periquito

Estou bastante impressionado com o livro Os carbonários de Alfredo Sirkis. Sempre ouvi falar que o deputado do PV havia sido guerrilheiro, mas não sabia que tinha participado de ações armadas tão importantes. Nesse trecho do livro ele conta como foi um dos seus primeiros conflitos com a polícia e a vontade de entrar para um grupo revolucionário.
O CAMBURÃO
Saímos do colégio às 11 da noite. Chovia uma garoa pegajosa, enquanto Etelvino, Amâncio e eu esperávamos, inutilmente, o Cesinha no ponto final do ônibus da Vila da Penha.
Naquela noite, íamos pichar os muros do Cortume Carioca e adjacências, contra a visita ao Brasil de Nelson Rockfeller, enviado especial de Nixon que já tinha sido recepcionado na Venezuela, Colômbia, Argentina e Uruguai com manifestações e bombas.
Em Montevidéo, os Tupamaros tinham estourado a General Motors. Em Buenos Aires um grupo guerrilehiro incendiara 16 supermercados Minirnax, pertencentes ao Chase Manhattan Bank, de Rocky.
Não sabíamos se as organizações estavam preparando alguma coisa, corria à boca pequena, que o Marighela ia explodir a embaixada americana. A nível estudantil formamos uma coordenação única com a UME e planejamos minuciosamente a “Semana Rockefeller”: passeatas “fechadas”, comícios-relâmpagos, pichações e panfletagens.
Na véspera, em plena Av. Copacabana, fizemos a última passeata daquele período. Os quinhentos derradeiros gatos-pingados do ME, liderados pelo Jean Marc e pelo Muniz, irromperam entre os carros, na hora do rush.
Caminhamos alguns quarteirões coreando FORA ROQUI-FELER e pichando os costados dos ônibus. O grupo de choque do SPM secundarista ia à frente da passeata. Alex, Cesinha e eu, de 32 na cintura, seguidos de Bia e Carlinhos com duas bolsas cheia de cocktéismolotov, cujo fedor de gasolina e ácido era perceptível à distância. Havia outro grupo armado, de universitários, encarregado da proteção dos oradores.
A manifestação durou meia hora e dispersou sem contratempos. Mas a reação das calçadas já não era a mesma de 68. Ninguém aplaudia, nada de papel picado. Alguns olhavam assustados, outros fingiatn que não viam e passavam apressados prá sair das imediações.
No ponto de ônibus da Penha, na noite seguinte, eu trazia dois sprays, duas garrafinhas de acetona pra limpar as mãos e dois revólveres 32. No levantamento tinhamos detectado a presença, nas redondezas, de um guarda noturno. Calculei que dois companheiros armados seriam o suficiente para neutralizá-lo e faturar uma arma e um apito, se aparecesse. O Cesinha devia vir segurar o outro gatilho.
Mas houve uma confusão de pontos de ônibus e o Cesinha Kid não apareceu no local onde o aguardamós até às onze e meia. Etelvino e Amâncio nunca tinham atirado na vida.
Passei uma das armas, dentro do saco plástico, pro Etelvino com instruções de esconder, se houvesse confusãO. Fiquei com o outro 32, mais novo.
Fomos aos muros. Eu na segurança, a mão no cabo do Taurus, Arnâncio do outro lado de olheiro e Etelvino no shik-shik, blém, blérn.
Assim fomos subvertendo as paredes brancas e amareladas das chuvosas ruas da Penha. Pichamos uns dez muros e estávams nos aproximando do Curtume carioca, quando, movido pelo cheirinho sensual da tinta e pela veia artística, peguei o spray com Etelvino prá pintar o sete também. Pegamos uma transversal que ia dar nas imediações da Av. Brasil, uns dez quarteirões mais abaixo.
Chovia mais forte e as lâmpadas das casas da rua arborizada estavam todas apagadas. Apenas um poste na esquina projetava uma luz desfalecida sobre o muro onde as letras iam tormando forma.
Eu pichava perto da esquina, eles de olheiros na transversal. Num certo momento tive a impressão de que passou um veículo qualquer na rua de cima. Amâncio veio todo agitado:
— Po. . .lícia..
Fração de segundo seguinte, descíamos a rua na direção oposta. Amâncio e eu à frente, Etelvino um pouco atrás. Mandei ele esconder o saco plástico atrás de uma árvore. Andávamos rápido e, a um quarteirão dali, senti a tensão começar a relaxar.
— O que que a gente faz? Amâncio tinha a voz desfalecida.
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Tags: Alfredo, COMUNISTAS, Carlos, Minc, Sirkis, armada, brasileiros, carbonários, comunismo, comunistas, Mais...ditadura, guerrilha, luta, militar, socialismo
estou com 38 anos. Eu li este livro duas vezes aos dezessete anos...rs
fantástico. Gostei demais na época apesar de ser apenas uma aluna secundarista. Mas foi um dos propulsores que me levaram a prestar o vestibular para HIstória.
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