ISSN 1981-1225
Dossiê Religião
N.4 – abril 2007/julho 2007
Organização: Karina K. Bellotti e Mairon Escorsi Valério
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História
Sobre esse assunto pensei inicialmente em dois autores: Ginzburg e Momigliano.
Em Ginzburg (2002) você terá como discussão central “que, no passado, a prova era considerada parte integrante da retórica”(p. 13), e “que essa evidência, hoje esquecida, implica uma concepção do modo de proceder dos historiadores ...”(p. 13). e no capítulo “Sobre Aristóteles e a historia, mais uma vez” ele vai distinguir a retórica aristotélica contida na Poética que será usada em Cícero e propagada em nossa civilização, daquela contida na Retórica “(...) um modelo racional: a prova, ou melhor: as provas”(p. 49).
“Aristóteles distingue três tipos de retórica: a deliberativa, a epidíctica (ou seja: dirigida à censura ou ao aplauso) e a judiciária. A cada um deles corresponde uma dimensão temporal diversa: o futuro, o presente e o passado (1358b). As provas utilizadas se dividem em “técnicas” e “não técnicas”.
Como sinaliza a leitura de Ênio Vieira parafraseando Ginzburg:
As primeiras são mais usadas nas oratórias deliberativas (futuro) e nas judiciárias (passado), que se manifestam em exemplos (paradeigma) e entinemas (indução e silogismos). Se preferir a prova não-técnica, o orador pode recorrer a testemunhos, confissões sob tortura e documentos escritos. Como já se nota, os historiadores estão próximos do trabalho dos juízes por trabalhar com o passado e principalmente com provas.
Já Momigliano, busca por distinguir os tipos de histórias que os antigos gregos escreveram e que nos foi transmitido, traçando as oposições e semelhanças existentes entre o pensamento de Heródoto e Tucídides, dois grandes fundadores da pesquisa histórica, além das releituras que estes autores receberam ao longo dos séculos, marcadamente a forma como um ou outro foi resgatado por perspectivas históricas distintas entre os séculos XVI ao XIX.
Momigliano divide o capítulo em cinco partes, a primeira apresenta as raízes do pensamento de Heródoto, pondo em evidência os estudos de Hecateu. Antes, o autor justifica quanto a primazia dos estudos gregos que:
“A conservação da memória do passado, o quadro cronológico e uma interpretação dos acontecimentos são elementos de historiografia que são encontrados em muitas civilizações. (...) O que me parece ser tipicamente grego é a atitude crítica com relação aos registros de acontecimentos, isto é, o desenvolvimento de métodos críticos que nos permitem distinguir entre fatos e fantasias.” (p. 55) [grifo nosso]
Hecateu é um destes críticos que através de comparação entre as histórias gregas e estrangeiras encontrou “um critério objetivo de escolha entre fatos e fantasias.” (p. 57) Entendido dentro de certos limites movediços, pois Momigliano não se sente seguro em afirmar se Hecateu estaria disposto a negar os deuses gregos, porém entende uma tendência das críticas de Hecateu a “atribuir aos homens o que a tradição atribuía aos deuses”. (p. 59)
A segunda parte deste capítulo é centrada em Heródoto na perspectiva de quem amplia o tipo de análise de Hecateu, exercendo a crítica tanto nas histórias muito antigas, quanto das histórias recentes. O homem que nos é apresentado é um Heródoto temente a seu credo apesar de assumir com reservas uma tomada de posição. Suas reações “são imprevisíveis, não sistemáticas e parcialmente contraditórias.” (p. 61) Sua grande distinção em relação a Hecateu está na presença de dois princípios: sua prioridade em registrar e não em criticar; sua distinção entre aquilo que viu com seus próprios olhos e aquilo que apenas ouviu, além de nos dar a indicação do grau de confiabilidade de seus informantes.
“Juntos [Heródoto e Hecateu] comportavam uma nova abordagem metodológica em que a confiabilidade da documentação era mais importante do que a justificativa racional de uma teoria.” (p. 63)
Entre os problemas enfrentados por Heródoto estavam a formação de uma cronologia que abarcasse os acontecimentos gregos e estrangeiros e a própria questão do acesso as documentações.
A terceira parte trata da reviravolta nos estudos históricos dada por Tucídides que enfatiza a vida política entendendo a história em termos de história política e a compreendendo a partir de seu ponto de chegada, o presente. “(...) a pesquisa histórica deveria começar com o presente e poderia penetrar no passado apenas na medida em que a documentação assim o permitisse.” (p. 68) Tucídides parte do princípio da imutabilidade da natureza humana, onde as diferenças entre as épocas se baseiam mais quantitativamente do que qualitativamente e somado a isso os fatos só serão significativos se atrelados a política, pois os homens anseiam pelo poder e este se encontra no seio do Estado.
Além da perspectiva de uma história política que difere do cosmopolitanismo de Heródoto, Tucídides mantinha ainda outras duas distinções:
“Antes de tudo, ele nunca se contentava em simplesmente registrar algo sem assumir responsabilidade pelo que registrava. (...) [Segundo,] ele rara vez indicava com detalhes as fontes de suas informações. Ele queria ser digno de confiança.” (p.70)
Em seu método de pesquisa, ao lidar com o passado remoto se arma com documentações diferentes, desde “dados arqueológicos, a etnografia comparativa e a interpretação histórica de textos literários” (p. 71), porém é o presente que o interessa, numa perspectiva de desenvolvimento linear.
A quarta parte trata dos sucessores mais próximos de Tucídides que apesar de não compartilharem de todas as suas idéias, como a da imutabilidade da natureza humana, criam que a história era a história política. Entre os sucessores, Políbio é apontado como o que “teve um papel decisivo em convencer os romanos que a história é basicamente política.” (p. 76)
Na quinta e última parte cruza-se as influências de Heródoto e Tucídides analisadas já distantes de sua época, saímos da Antiguidade para a Renascença. Notadamente, “até o final do século 17, Políbio permaneceu o mestre do saber político, diplomático e militar.”(78), para o autor é na segunda metade do século XVIII que Tucídides passa a ser utilizado com freqüência por historiadores profissionais.
“Em seguida, o movimento romântico elevou Tucídides à posição que ainda ocupa e o tornou o modelo do historiador filósofo, que combina o exame acurado de detalhes com uma compreensão imaginativa aprofundada da maneira como a mente humana trabalha. (...) Todos eles colocavam Tucídides em oposição a Políbio, como o artístico contra o não artístico; o filósofo contra o utilitário.” (p. 79)
Momigliano nos apresenta que é através de Heródoto que Tucídides passa a ser resgatado no século XIX. Na verdade, desde o século XVI que Heródoto passa a ser um autor muito respeitado. A alteridade que o levou a observar o estrangeiro e em dada medida compará-lo ao mundo grego encontrava semelhança nas descobertas além-mar da América. “Além disso, nenhum outro autor a não ser Heródoto era capaz de preencher o vazio com relação à história oriental para ajudar na compreensão da história bíblica.” (80) E nos espaços que Heródoto apresentava fragilidade de análise, Tucídides podia ser empregado “tanto no tocante ao realismo quanto à precisão.” (81) Porém, marcadamente no século XVIII vemos o predomínio de uma história cosmopolita, uma história da civilização, enquanto o século XIX nos é apresentado num fortalecimento da história política, respectivamente as influências de Heródoto e Tucídides.
GINZBURG, Carlos. Relações de força: História, retórica, prova. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
MOMIGLIANO, Arnaldo. A tradição Herodoteana e Tucidideana In As raízes clássicas da historiografia moderna. Bauru: EDUSC, 2004. p. 53 – 83.
Caso esteja mais interessado em questões de mímeses e mito recomendo, para um início de conversa, os dois primeiros capítulos de:
AUERBACH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo:Editora Perspectiva, 1976. p.01- 42
Eu também escrevi algo juntamente com meus interlocutores, neste fragmento usamos o Veyne, Arendt e o Bloch, fora os historiadores antigos. Mas esta é apenas a finalização do trab.
Podemos interpretar que a forma antiga e moderna de se fazer história não são antagônica, mas se completam apartir das primeiras inquietações e pelas investigações, o que podemos afirmar que o mudou foi a forma da narrativa, novos inquietações, e principalmente as fundamentações.
O Mito, História e retórica. Conceitos que são intercambiados para o historiador moderno, mas que não se encontram na óptica dos iniciadores da história, salvo a retórica que para com Cícero é ferramenta fundamental do discurso, para ele a finalidade da eloqüência é agir sobre a mente dos ouvintes, para aclamá-la ou como-vela. E em vez de se confundir com a disciplina particular, a retórica se torna um componente para todas. E também para a história.
Com a evolução nos métodos, com a tecnologia moderna como trata Hannah Arendt a construção historiográfica desde a antiguidade sofre transições, questionamentos referentes a própria maneira de agir da sociedade. Evolução das formas de escrever a história mudam de acordo com as sociedades que a estudam. Desta forma podemos interpretar que a contribuição da historiografia antiga marca as primeiras manifestações de evolução no pensamento, o que contribuiu para as revoluções tecnológicas nos métodos de escrever o passado. E que podemos fazer uma referência a Heródoto, escrevemos a história para que os feitos humanos não caiam no esquecimento, só que de maneira diferente dos antigos. Buscamos formas e sentidos além dele, os historiadores modernos, buscam entender não apenas os feitos humanos. Mas como agiram, pensaram e, porque não, como contribuíram para produção da história hoje, que sentido ela de fato possue, assim concluídos com Veyne que a história é filha da memória , e esta foi uma preocupação latente para os “pais da História”, para que as palavras não caia, no esquecimento.
lá Eliethe, respondendo sua perguinta, somos todos eternos estudantes, mas sim, sou da área de história, atualmente estudo sobre o cotidiano da violência na década de 50 e ando em voltas numa discussão sobre o período da Quarta República (1946-1964) ter sido o de Redemocratização (discurso geral), o da primeira grande experiência democrática (José Murilo de Carvalho) ou de apenas um Estado de Direito, mas não um Estado Democrático de Direito.
Voltando para nossa discussão aqui, em seu texto percebo a idéia de uma herança na forma do fazer história que remete a Herodoto e Tucídides, porém, que a construção de novos métodos e técnicas (e penso também novas teorias) nos distingue.
O parágrafo que você dedica ao Mito, História e retórica é o momento em que insiro minhas sugestões de Momigliano e Ginzburg, respectivamente para História e retórica. O autor assinala que “a obra na qual Aristóteles tratou mais amplamente da historiografia (ou pelo menos, do seu núcleo fundamental), no sentido que nos é familiar, não é a Poética mas sim a Retórica”. (p. 47) pois a retórica em Aristóteles não se resumiria a “arte de convencer por meio da ação dos afetos”(p. 49) como defendida pelos Sofistas e por Platão, na retórica aristotélica encontra-se “(...) um modelo racional: a prova, ou melhor: as provas”(p. 49). [Essa arte de convencimento que associo ao seu texto de Cícero que por sua vez bebe em Aristóteles, porém na Poética e não na Retórica, que considero que considero que precisa ser contraposta aos estudos de Ginzburg]
Você foi bem precavida a não associar o USO do conceito de Mito a Heródoto e Tucídides, por essa razão que eu vou cobrar de você uma releitura de "evolução dos métodos", me parece que o conceito de evolução e de progresso são distintos e isso poderia fazer uma certa diferença em sua produção.
Carlos Ginzburg mostrou que um bom relato histórico pode ser uma narrativa tão poderosa quanto uma ficção.
A arte de inventar o passado
Luís César Castrillon Mendes
UNEMAT
Correio eletrônico: luiscesarcastrillon@yahoo.com.br
ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. História: a arte de inventar o passado. Ensaios de teoria da História. 2007. Bauru, Edusc.
Durval Muniz de Albuquerque Júnior, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, reúne alguns de seus artigos nesta obra, fruto de uma trajetória de mais de dez anos, como ele próprio nos diz, trabalhando no campo da teoria da História. Buscando sempre o diálogo com a Literatura, analisa pensamentos de vários autores, como Michel Foucault, que segundo ele, há muito tempo inspira seu trabalho como historiador. Vários outros pensadores não apenas no terreno da História, mas também no da Literatura são contemplados nesta obra, tais como: Carlo Ginzburg, Clarice Lispector, Gustave Flaubert, Franz Kafka, Manoel de Barros, Edward P. Thompson, Gilles Deleuze, Graciliano Ramos, dentre outros.
Na apresentação, o autor aborda o uso do termo invenção, que tem aparecido com freqüência em publicações de historiadores e faz uma reflexão sobre as mudanças paradigmáticas ocorridas no saber histórico nos últimos anos.
O livro, dividido em três partes, traz na primeira discussões acerca do envolvimento entre a História e a Literatura; de um possível, e eu diria necessário, caráter artístico e poético para a História, pensada com a Literatura e não contra ela, argumenta o autor. Na segunda parte, são privilegiadas as contribuições e polêmicas que as idéias inquietantes de Michel Foucault trouxeram para o campo historiográfico, além de compará-las aos pensamentos de outros autores como Ginzburg e Thompson.
A terceira parte aborda aspectos variados do trabalho do historiador; as práticas, desafios, autores diversos e questões centrais no debate da historiografia contemporânea.
O texto introdutório enfoca o crescente uso do termo invenção pelos historiadores. Longe de haver consenso entre eles quanto à definição do termo, este indica uma ruptura, nos leva a uma cisão, a um descortinar de um novo possível paradigma, pois inventar, segundo Durval, nos remete a descontinuidades, ao heterogêneo, a singularidades e a afirmação do caráter subjetivista da produção histórica, afastando-se, assim, da postura historicista do evento histórico. Dessa forma, os acontecimentos são ou pelo menos deveriam ser tratados como indícios, pelos quais se tenta identificar o momento da invenção. Com isso, surgiriam os agentes dessa invenção, os interesses, conflitos e contradições inerentes ao processo de emergência dos eventos. Pois, de acordo com o autor, o fato histórico é um misto de matéria e memória, de ação e representação, fruto de uma pragmática que articula a natureza, a sociedade e o discurso.
Ao fazer uso da metáfora das margens – que representariam os paradigmas rivais na História - que supostamente limitam e contém o rio, Durval Muniz, pensando com Guimarães Rosa, busca uma terceira margem como possibilidade de análise. Uma outra margem, onde as duas anteriores se encontrariam fruto de atividades de purificação, de racionalização, de construção humana e social de objetos e sujeitos que vêm se misturar no fluxo, no turbilhão das ações e práticas humanas. Significa pensar que a História não se passa apenas no lugar da natureza, da realidade, do evento, nem tampouco do lado da representação, da cultura, da subjetividade, da idéia ou da narrativa. Passa entre elas, no indiscernimento das divisões, na mistura dos variados elementos, conectadas e articuladas pela linguagem. Ela se passa nessa terceira margem, a do devir, do fluxo; a História como o rio heraclitiano que produz as suas margens.
Na primeira parte, distribuídas em quatro capítulos, são analisadas possíveis e necessárias interlocuções entre Literatura e História, sejam nas discussões de gênero, não apenas gênero discursivo, mas também como o que na moderna cultura ocidental se define como masculino e feminino. A História enquanto discurso enfatizando a razão, o poder, a conquista e o domínio, cabendo às Letras as paixões, as dimensões poéticas da existência e o intuitivo.
Pensando a História como a Arte de Inventar o passado, Durval utiliza-se das personagens Bouvard e Pécuchet, que surpreendidos por um acontecimento inusitado, lançam-se à pesquisa histórica, deparando-se com as inquietações que essa atividade causa a quem pretende efetuá-la. Discutindo o estatuto do saber histórico na modernidade, analisa a configuração histórica da sociedade tecno-científica pela ótica dos dois protagonistas de Flaubert. Depois dessa “viagem no tempo”, Bouvard e Pécuchet atestam que as previsões das filosofias da História do século XIX não se concretizaram. Quais rupturas e descontinuidades foram responsáveis pela mudança paradigmática da Ciência Histórica? A não realização das previsões coloca os personagens diante do questionamento da própria racionalidade da História, dos mitos das fundações, ou seja, da existência da determinação em última instância pela História.
Com Franz Kafka, o autor procura enfatizar o acontecimento, que rompe com a rotina, que singulariza situações, anuncia diferenças e põe a História em movimento. Segundo Durval, Foucault, assim como Kafka, busca sujeitos sem fama, sujeitos que se constituem e se desmancham, metamorfoseiam-se no próprio processo histórico. Podemos aprender com Kafka, a história de nossos medos, como eles atuam impelindo ou bloqueando ações, desejos e pensamentos. Nem em seu próprio quarto, em sua própria cama o indivíduo não está sozinho. Na sociedade moderna burguesa, no interior das casas, não é garantia de proteção contra as forças externas. A História pode ser produzida nos lugares impróprios; a História do “insuportável”: o medo, o governo, a opressão, a exploração, o preconceito, a culpa, a vilania, a animalidade, a violência, a miséria, a dor.
Ao dialogar com Manoel de Barros, Durval aborda a relação entre História, memória e linguagem nestes tempos pós-modernos. A partir dos escritos do poeta, localiza tratamentos metodológicos em comum, como o caráter fragmentário das experiências, a multiplicidade de temporalidades, a necessidade de sair do olhar grandioso em busca do menor, do cisco. O saber é visto como transubstanciação, encontro erótico com as coisas e pessoas. O mundo, assim como o Pantanal, fluido, onde seres e formas se comunicam e metamorfoseiam-se em outros.
Uma nova forma de ver as coisas, uma nova proposta metodológica. Uma micro-história, distinta da escola italiana, irredutível à grades conceituais e fora do social, sem ser parte de unidades ou identidades. Palavras e conceitos que poderiam muito bem inspirar a produção de narrativas que descortinassem o véu que cobre o ínfimo, o traste, o abandonado, o infame, o chão.
A segunda parte do livro, dedicada a Michel Foucault, analisa o pensamento do filósofo francês, contrapondo-o com os ideários de outros autores renomados, como no brilhante texto Menocchio e Rivière: criminosos da palavra, poetas do silêncio. Durval Muniz analisa pontos em comum e de divergência metodológicas entre Ginzburg e Foucault, que embora partindo de um mesmo paradigma, o indiciário, surgido no final do século XIX, trataram diferenciadamente as suas personagens. Discurso, crime, a necessidade ou não de se enquadrar a palavra num esquema mais geral de classe, contexto histórico, razão universal, dentre outros conceitos, são analisados pelo autor, evidenciando formas de se conduzir a pesquisa e a narrativa histórica. Se ambas as personagens foram silenciadas, de acordo com Durval, Ginzburg tomou a palavra para superar o não dito; enquanto que Foucault toma a palavra para evidenciá-lo.
Outra comparação metodológica interessante se faz entre E. P. Thompson e Michel Foucault, através do conceito de experiência, central nos trabalhos historiográficos desses autores, apesar de possuírem formações teóricas bem divergentes. Para Thompson, fazendo uma nova leitura da tradição marxista, a história tem como pressupostos idéias de totalidade, de razão, de verdade, continuidade, essência e semelhança. Já para Foucault, ela busca dispersar as totalidades, inclusive a da razão. A História, segundo Thompson é realista, um discurso sobre o real. Na perspectiva de Foucault, ela é nominalista, ou seja, uma prática discursiva, que emerge das lutas políticas, de embates de poder presidido por estratégias e táticas.
Durval Muniz compara os textos Senhores e caçadores e A vida dos homens infames, de Thompson e Foucault, respectivamente, observando, através das experiências, o porquê da emergência delas, ou seja, por que umas foram “vistas” e outras não? Por que algumas determinadas experiências provocaram fissuras no silêncio?
O objeto em História é tratado por Durval como uma espécie de convocação estratégica do passado, armado por uma tática, visando demandas do nosso tempo. Dessa forma, a História não implica apenas lembrar, mas também produzir esquecimentos. É interessante partir desta questão: como foi possível a emergência deste ou daquele objeto histórico?
Para o autor, a disciplina histórica, como sugere Foucault, pode ser pensada como um jogo, repleta de incertezas e imprevisibilidades. É observar sempre as forças que entram em campo num dado evento, sujeito a regras e mediada por estratégias e táticas. É abordar uma História aberta a incertezas e afastada de qualquer previsibilidade. Estratégias e táticas a serviço da criatividade ou da reação, podendo levar a vitórias ou derrotas. Assim como uma partida de futebol, que seguem as mesmas regras, mas o resultado do jogo é sempre incerto, as jogadas e os lances jamais se repetem. Cada partida é singular e irrepetível, assim como os eventos históricos.
Segundo Durval Muniz, Foucault, ao fazer uso nos seus textos de figuras de linguagem como a ironia, sorri para e da seriedade das disciplinas, sempre levadas tão a sério. O seu sorriso como arma de ataque e defesa contra o aprisionamento exercido pela ordem do discurso e pelas instituições; contra o poder. O riso satírico como combate, aquele que se trava para se desmontar os textos, revelando suas regras de produção, suas condições históricas de possibilidade, através de sua construção paródica. O riso seria o anti-sistema, é o derrisório, é a ausência de lógica, é o deslocamento constante dos sentidos (p. 186). Uma espécie de História satírica, contrária ao dogmatismo e ao simplismo, que afirma o caráter complexo e problemático das experiências humanas e da relação com a temporalidade e verdade, buscando surpreender a verdade onde ela não é procurada, uma verdade produzida tanto por reflexão como por intuição. A ironia como rebeldia da e na linguagem (p. 189).
A terceira parte traz diversos ensaios contemplando temáticas como as Memórias violadas pela gestação da História, o que torna, nas palavras do autor, a tarefa do historiador um parto difícil. Durval lembra-se de Ecléa Bosi: lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. Ele observa que nem sempre as conceituações de Memória e História estão claramente definidas e dos cuidados metodológicos necessários ao se trabalhar com fontes orais.
Dialogando com Graciliano Ramos, Gilles Deleuze e Michel Foucault, Durval Muniz mostra uma construção histórica das masculinidades. A família sendo o lugar de origem, local de construção de um eu fechado e centrado em torno da figura do pai, de sua fala e de seu falo. Pai este que causa um desprestígio aos olhos de seus descendentes, seja pela relação conflituosa, seja pela perda do poder ou perda de consistência ao caos, à desterritorialização. É a invasão do terreno sagrado da família pela História. O nome do pai, aquele que representava a lei, a primeira experiência de justiça, vê-se impotente ao descobrir que não emanava poder, vinha de fora dele, dominava-o, passava por ele. Um ser diminuto de um mundo vasto e ameaçador (p. 222).
O autor aborda também conceitos e práticas como amizade, sugerindo um método de trabalho historiográfico. Amigo do saber, orientador, operador de diferenças, experimentador, que fala, corrige, retifica, que ajuda a rever certezas e relativizar verdades.
Durval Muniz nos adverte da (im)possibilidade de se fazer História oral numa sociedade pautada pela escriturística e alerta para os cuidados metodológicos ao se realizar entrevistas, no sentido de não interferir na fala do entrevistado, já que essa fala surge num momento de interação entre entrevistador e entrevistado. A História oral, segundo o autor, contribui para o surgimento de novas falas, novos personagens, a fala dos vencidos, dos despossuídos, dos marginalizados, dos dominados; e adverte: a História a partir de fontes orais, ainda indefinida entre uma técnica, um método ou uma postura teórica no campo da historiografia.
Recebido em abril/2007.
Aprovado em junho/2007.
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