As Invasões Bárbaras e O Declínio do Império Americano, de Denys Arcand, oferecem o maior painel crítico de nossa época. O enorme leque de questões ali suscitadas apontam a necessidade de uma reflexão urgente: Civilização ou Barbárie?
Local: Rio de Janeiro
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Última atividade: 2 Jun
Percebo "As Invasões Bárbaras" (2003) e "O Declínio do Império Americano" (1986), como cara e coroa da mesma moeda. Enquanto "O Declínio" representa a razão, "As Invasões" é a emoção dimensionada com uma delicadeza rara de ser vista no cinema. Tudo isso sem esquecer que o primeiro é premonitório. Em 86, Arcand foi o primeiro a empregar o termo "Império Americano", traçando o perfil de um momento muito rico da História recente e de seus desdobramentos. Filme profético, denso, brilhantemente inteligente, diálogos deslumbrantes (para platéias cultas). Uma análise rigorosa e vigorosa que sacudiu as abordagens cinematográficas superficiais e insípidas que inspiravam a reflexão sobre os anos 60 e 70 do século XX.
Na abertura de "O Declínio", enquanto os créditos se sucedem, a câmera aproxima-se lentamente de duas mulheres sentadas no final de um espaço imenso. São duas professoras universitárias, doutoras em História. Uma entrevista a outra a propósito do lançamento de seu livro. Aquele diálogo, aliás riquíssimo e de uma profundidade impressionante, oferece todos os instrumentos necessários para a crítica e a compreensão de nosso tempo. Eis a chave de tudo que virá depois. Assisti "O Declínio" dezenas de vezes no cinema. Outras tantas em vídeo. De uma ironia ferina, beirando o cinismo, Arcand promove discussões brilhantes sobre a realidade social e histórica, permitindo-se, ainda, fazê-lo do ponto de vista feminino e da ótica masculina. Um verdadeiro achado.
"As Invasões" é um filme comovente. Resgata valores fundamentais, cultivados por aquela geração que tanto amou a Revolução. Transformar o mundo era a sua missão. Isto parecia tão real e possível quanto transitar por todos aqueles ismos: Existencialismo, Marxismo, Anti-Colonialismo, Feminismo, Revolução Sexual, Desconstrucionismo, etc.
Exceto o Cretinismo. Que, aliás, caracteriza o atual momento histórico. Estamos cercados de indigentes mentais. Tudo está à venda. Tudo se compra. Até visitas a um paciente terminal, de acordo com o mesmo filme. No almoço de despedida a Rémy, um daqueles professores universitários sublinha que a inteligência desapareceu. Talvez por muito tempo.
Mergulhamos na barbárie. A indiferença, a estupidez arrogante e boçal, a valorização do ter e do parecer, a banalização da vida, entre outras pérolas, sustentam um mundo que esqueceu os valores humanísticos construídos ao longo de séculos e que serviram de arcabouço para o advento da civilização e nortearam a luta por uma sociedade mais justa.
Não sou um nostálgico romântico. Que falta nos faz (a todos) o exercício da amizade, da solidariedade - inclusive entre os povos - da capacidade de doação afetiva inteiramente desinteressada, etc.
Ser, simplesmente. O que é isto? Ninguém sabe. Importa ter. Importa parecer.
Francamente, nosso cineasta canadense, que também é doutor em História, acertou na mosca. O abismo que separa o ser do ter talvez encontre sua redenção através do afeto. Lembram-se do único diálogo entre o intelectual Rémy e seu filho, profissional sofisticado do mercado financeiro, que nunca leu um livro e só se relaciona com o mundo através do computador e do celular? Pouco antes de praticar a eutanásia, eles se aproximam através do afeto.
Talvez esta seja a saída ou uma delas para o reencontro do homem consigo próprio. Conseqüentemente, com seu semelhante. Isso porque aquele que ontem era nosso semelhante agora é percebido como inimigo. E, como tal, precisa ser aniquilado. O horror às diferenças, a intolerância, a xenofobia e o neo-nazismo são o desdobramento lógico de um mundo sem referências que se desumanizou e marcha inexoravelmente para a Barbárie, tal como assistimos de camarote.
Ainda.
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Comentário de Marcello de Albuquerque Maranhão em 23 dezembro 2012 às 13:25 Entrando de sola na discussão...
Dennys Arcand teve uma excelente idéia na década de 80, fazendo um filme sobre diálogos que se passavam entre historiadores, mais em sua vivência social do que em sala, em pesquisa de campo, etc. e mostrando ao mesmo tempo uma série de reflexões interessantes sobre a sociedade de seu tempo e um pouquinho sobre História.
Mas 25 anos depois, a continuação mostrou-se infeliz. O título aproveitava o paralelo do 1o filme, mas nada mais interessou e o filme é cheio de clichês. Nem mesmo a narrativa é tão densa e gostosa de acompanhar quanto a do 1o filme.
Resta sinalizar que L`Amitié, a canção-tema de As Invasões Bárbaras, poderá ser vista e ouvida em duas interpretações diferentes com Françoise Hardy. Basta clicar em Páginas, logo abaixo das fotos dos membros do grupo.
E mais. A Era da Inocência {2007}, do mesmo diretor, o canadense Denys Arcand, poderá ser encontrado em DVD na Livraria Saraiva e encomendado pela Internet por apenas R$21,00, considerando o frete.
Os interessados acessem www.livrariasaraiva.com.br
Escrevi o texto do grupo As Invasões Bárbaras em 2003 e publiquei-o noutro espaço.
A Era da inocência ainda não existia.
Considero o texto concluído, o que não exclui discussões em torno de outros filmes de Denys Arcand.
Comentário de Mariana Figueiró Klafke em 9 outubro 2012 às 17:25 Pergunta: por que não está incluso A Era da Inocência (2007)? Não seria também significativo de alguma forma, já que faz parte da trilogia? (Não consegui assistir A Era da Inocência, não achei. Por isso pergunto.)
Meu caro
As locadoras aí estão para alugar ambos em DVDs.
Faça um esforço, encontre-os e os assista. Em ordem cronológica. Primeiro "O Declínio". Depois, "As Invasões!
Além do prazer que desfrutarás, tua percepção jamais será a mesma.
Comentário de Antonio Luiz Souza de Oliveira em 6 abril 2012 às 1:28 Não conheço os dois filmes e lamentavelmente não posso contribuir com minha opinião sobre eles. Mas vejo que reforçam sua visão correta sobre do mundo atual em marcha para a Barbárie.
Creio que é necessário um verdadeiro renascimento das referências culturais, políticas, ideológicas, que possibilitem o progresso da civilização. A onda reacinária é mesmo avassaladora e só uma virada história pode quebrar essa tendência de desumanização. Até lá tudo que podemos fazer é agir no limite de nossas forças, ainda que reclusos em nossos camarotes.
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