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Respostas a este tópico

Amigos : Primeiramente ficaria complicado para um pesquisador tão inciante como eu avaliar o legado de Stuart Hall. Ainda mais tratando-se do seu legado sociológico . Mas, poderíamos "incitar" o debate com algumas provocações : 

O tema "multiculturalismo"  hoje é quase um tabu. Citar nos trabalhos , abordar as perspectivas das fronteiras culturais ( e todas  as que a acompanham, inclusive as geográficas !!! )  é um trabalho árduo, passivo das mais divergentes e conflitantes  leituras. Já ouvi muita  gente boa (  boa mesmo !!! ) defender que as posições do pesquisador jamaicano são a essência do discurso neoliberal e pacificador das minorias subjulgadas . Consorte , já ouvi também que o fenômeno do hibridismo cultural, do discurso pós colonial tem ligações com as ideias de Hall . Fica então a reflexão bem humorada  a  la "velho guerreiro " : Stuart Hall veio então para complicar , não para comunicar ??? 

Brincadeiras a parte , o legado de Stuart Hall é incontestável , fato por si só justificável pela própria controvérsia que as suas reflexões ( oportunas e atuais , diga-se de passagem ) geraram ( e geram ) na inteligentsia  acadêmica ...

Uma perda lastimável para um debate ainda inacabado ... 

Anderson: muito bem apontado, e é mesmo uma pena continuarmos nesse nível tão tosco de debate: ao invés de se criticar as ideias do Fulano, atribuem-se alguns rótulos (neoliberal, reacionário, comunista, o que for) e a conversa acaba aí. Infelizmente, muitos padecem desse mal, e o Stuart Hall está longe de ser a única vítima.

Da minha parte, acho que o hibridismo cultural é mesmo uma ideia que veio "para complicar", seguindo tuas palavras. Não tem a ver com pacificar ninguém, mas mostrar que as minorias subjugadas continuam sendo agentes históricos [i]apesar de[/i] sua situação de desvantagem. Mostrar que elas não são unicamente vítimas, e possuem outras dimensões - resistência, criatividade. Isso leva a uma percepção mais complexa da sua humanidade, mas alguém sempre pode reclamar que, ao mostrar qualquer coisa além da vitimização, estamos nos afastando da luta, ou algo assim.

Obrigado pela contribuição, Emannuel. 

Valeu pela contribuição, Anderson.
É difícil mesmo. Aos poucos vamos desvendando um pouco mais esse desafio.

Concordo Emanuel .... Negar a historicidade as minorias é fazer uma História que não se faz mais ... Abs

Como antropologa e hitoriadora, avalio que a principal contribuicao de Stuart Hall refere-se a sua "visao de dentro" da sociedade britanica: como africano e scholar ingles, Hall fala de Identidades e Mediacoes Culturais (titulo de livro publicado em 2006 pela Editora UFMG) e expressa o "mundo de cabeca para baixo" de que fala Trotsky e que estamos vivendo no mundo dos rolezinhos e das manifestacoes de ruas no BRasil.

Assim, para Hall (apud Trotsky) estariamos vivendo um momento de "transvalorizacao cultural" em que "a classe que nao tem nada a perder senao seus grilhoes" derruba a "classe que monopoliza os meios de vida material e mental"(Hall, 2006, p. 206) . Sera entao possivel pensar, com Hall, que o Brasil estaria vivendo um "momento revolucionario", apesar do proprio Hall afirmar que esta visao simplista das metaforas classicas de transformacao terem sido ha muito superada pela teoria cultural?

A questao para o caso brasileiro, proposta por Hall, e a seguinte: que metaforas alternativas temos para imaginar uma politica cultural? Para ele, somente na poetica da trangressao e nas "forcas carnavalescas" suprimidas pelas elites burguesas em sua retirada da cultura popular haveria a possibilidade de entrar em contacto com dominios sociais "baixos" ou "repulsivos", com a emergencia de uma concepcao distinta daquela asseptica do eu (ver, a respeito, o livro citado por Hal, in op cit, p. 207 A politica e a poetica da transgressao de Peter Stallybrass e Allon White).

Hall (id ibidem p. 211) cita o "carnavalesco" de Bakhtin enquanto metafora da tranformacao cultural e simbolica que nao e simplesmente uma metafora da inversao: a pureza da inversao do "alto" e do "baixo e aqui transgredida, com o baixo invadindo o alto, ofuscando a imposicao da ordem hierarquica com o "grotesco" e indicando de forma inequivoca a natureza mista e ambivalente de toda vida cultural.

A invasao dos rolezinhos em shoppings e provocador por romper o isolamento racio-social que as elites impuseram aos negros e mesticos das classes menos abastadas: ao inves de circular tranquilamente, com um comportamento "branco", em shoppings de classes abastadas, a identidade periferica de milhares de "jovens em movimento" como produtores de uma nova forma de politica cultural, sem ideologia aparente a nao ser aquela de um consumo conspicuo. Tal identidade se afirma com a mesma forca que os "pancadoes" de rua ou da expressao cultural do funk, rompendo com a contradicao logica dos shopping centers: os rolezinhos poem por terra a aparente circulacao livre e o espaco aberto que os shoppings dizem proporcionar ao acionarem a policia que revela o inferno do preconceito racial e a violencia punitiva dirigida aos "perdedores" da sociedade consumista brasileira (ver, a respeito, o artigo de Renato Souza de Almeida "O "rolezinho" da juventude nas ruas do consumo e do protesto) em Le Monde Diplomatique Brasil de fereiro de 2014).

Nao sera esta a maior contribuicao de Hall? Nao rompeu ele a logica determinista de um negro "excluido" e se afirmou como scholar africano que fala "de igual para igual" com o branco legitimado pelo ex-imperio britanico ainda existente no inconsciente coletivo ingles e sua ultrapassada monarquia em pleno seculo XXI?

Termino com David Harvey (in Os Espacos da Utopia, p. 227-8) falando sobre o fracasso do shopping center como "utopia degenerada" e citando Tafuri (1976): no processo de realizacao das utopias espaciais, o processo social toma as redeas da forma espacial com que se pretende controla-lo. Qual e, entao, o questionamento critico que a sociedade brasileira deve se fazer, em um momento de comocao social, com os Sem Terra ameacando invadir o anterior espaco inexpugnavel do Supremo Tribunal Federal de Brasilia e com um jovem "miseravel" (nas palavras do delegado que o prendeu) de Nilopolis tendo sido preso por haver matado um jornalista em um movimento de rua recente do Rio de Janeiro?

Vida longa a Hall e as discussoes sobre multi (e hoje trans) culturalidade! Que a heranca dos Estudos Culturais se multiplique e frutifique em terras tupiniquins!

Dinah, super obrigado pela valiosa contribuição.

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