A memória pode construir memória? Se eu narro para alguém um episódio da minha vida, inventando fatos que não aconteceram - acreditando que aconteceram ou não - para construir uma narrativa plausível, é a minha memória construindo memória ou no caso já estou produzindo história, portanto, história construindo memória?

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Prezado Guilherme,

como já escrevi a respeito destas temáticas (História e Memória) não sei se vou ajudá-lo muito nessa sua inquietação histórica, mas através de algumas observações que tenho a respeito do assunto, posso contribuir ou até mesmo quem sabe deixá-lo ainda mais inquieto.

 

Maurice Halbwachs em seu livro "A memória coletiva", argumenta que a reconstrução da memória é um elemento fundamental para a vida social, tanto no que diz respeito a sua permanência e continuidade quanto para a sua transformação. O que a memória realiza é a reinvenção de um passado comum que disponibiliza elementos para que os homens interpretem o presente, o preservem ou modifiquem, e até mesmo projetem o futuro. Esse processo é desenvolvido num campo sociopolítico historicamente datado, conferindo especificidade e provisoriedade à rememoração das representações e dos fatos ocorridos (1990, p. 35).

Muito tem se discutido sobre as fronteiras que ligam a História à Memória. A problemática da memória tem sido a atenção privilegiada tanto das ciências biológicas, quanto das ciências humanas nos últimos anos. Nesta trajetória, os limites entre um campo e outro apresentaram transformações. A história, num processo acelerado de massificação e de mundialização, passaria a se distanciar e a se opor ao campo da memória.

Memória e história, ambas definem competências, lugares dos discursos que produzem significados. A história enquanto estudo, análise, produção de um conhecimento a cerca do passado, recupera marcas e significados através das mais diversas fontes; estejam estas depositadas em objetos, utensílios, obras de artes, monumentos, documentos escritos e orais.

A história pode ser vista também como memória. Separar a memória da história significa destituí-la de toda historicidade e tirar dela o caráter de testemunho. Assim, memória e história possibilitam-nos um tipo de conhecimento, distintos entre si, mas complementares.

Neste processo de oposição, encontramos o historiador francês Pierre Nora que salienta a diferença entre um e outro campo, quando afirma que (1981, p. 65),

se a memória pode ser representada pela vida pois é carregada por grupos vivos, a história se apresenta, portanto, como uma representação problemática e incompleta do que não existe mais. A memória, por outro lado, em constante evolução, um objeto vulnerável, está aberta a dialética da lembrança e do esquecimento. A história, enquanto representação do passado, se liga a continuidades temporais, às evoluções e às relações das coisas, é pois uma operação intelectual que demanda análise e discurso crítico. A memória, é afetiva e mágica, emerge de um grupo que ela une, é múltipla, acelerada, coletiva, plural e individualizada.

Pensando a memória enquanto prática de representação social, vale discutirmos algumas questões tanto de natureza do objeto quanto da produção do conhecimento histórico. Nesta perspectiva, em que a memória se apresenta em crise, focamos atenção para a política de preservação da imagem da cidade relativo aos lugares de memória, como aponta Pierre Nora; além dos problemas documentais que a sociedade de informação vem produzindo no mundo capitalista hoje.

Os lugares de memória segundo Nora são lugares, com efeito, nos três sentidos da palavra, material, simbólico e funcional. Eles nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea. Mesmo um lugar de aparência puramente material, como um depósito de arquivos, só é lugar de memória se a imaginação o investe de uma aura simbólica.

Sendo assim, o lugar de memória é um lugar duplo; um lugar de excesso, fechado sobre sua identidade, e recolhido sobre seu nome, mas constantemente aberto sobre a extensão de suas significações.

Há que se reconhecer que a memória adquire diferentes características históricas e sociais nos diversos períodos como também nas várias culturas. Da mesma maneira, a história adquire funções e características completamente distintas ao longo do tempo, como também para as diversas sociedades.

Para uma última análise Nora propõe que, memória e história estão longe de serem sinônimos, tomando consciência de que tudo opõe a outra. Desta maneira, a memória é sempre suspeita para a história, cuja verdadeira missão é destruí-la e a repelir. Tudo o que chamamos hoje de memória não é, portanto, memória, mas já história. A história é desligitimação do passado vivido.

Contudo, segundo as colocações de Pierre Nora, na memória, existe a possibilidade de imaginar e criar, na história, o compromisso com o discurso crítico é um limite à poesia e um imperativo de interpretação. Por fim, essas reflexões, são um extremo desafio para todos que se propõem em trabalhar a memória e a história como fonte histórica.

 

Referências

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.

MENESES, Ulpiano T. Bezerra. A crise da Memória, História e Documento: reflexões para um tempo de transformações. In: SILVA, Zélia Lopes. Arquivos, patrimônio e memória: trajetórias e perspectivas. São Paulo: Editora UNESP, 1999.

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da PUC – SP. São Paulo: Ed. da PUC, 1981.

 

 

Querida Rúbia,

o seu texto, além de ser de uma clareza elementar, mostra o quanto você domina os assuntos do campo da memória. Esclareceu algumas coisas sim, principalmente porque seu discurso trata especificamente dos campos em separado. Porém, onde começa um e termina o outro? Particularizando o assunto e trazendo para o microcosmo do indivíduo, se lembro e fico em silêncio estou embebido de memória mas, se narro para outrem, já estaria contando uma história, certo? Já estaria selecionando um conjunto de memórias e, usando de uma crítica toda particular minha, construindo imaginários. Quem construiu aí a memória coletiva minha e do meu interlocutor? A minha própria memória, ou o fato de eu ter narrado para outrem já configura campo da História?

Desculpa a minha confusão se não me faço ser claro... rsrs...

Aguardo

Querido Guilherme,

acho que a inquietude histórica pegou-me neste momento. Vou para mais algumas pontuações. Não sei se vou conseguir me fazer entender, mas não custa nada tentar e cutucar você mais um pouco.

"Porém, onde começa um e termina o outro?"  - Não sei bem onde começa um e possa terminar o outro, pois, ambos (História e Memória) possibilitam um tipo de conhecimento, distintos entre si, como havia colocado, mas complementares. Ambos os campos estabelecem o lugar dos discursos e produzem significados.

"se lembro e fico em silêncio estou embebido de memória mas, se narro para outrem, já estaria contando uma história, certo?"  -  Certo, pois, ao contar uma história fazemos apelo a nossa memória seja ela individual ou coletiva e neste ato entendemos que a memória é uma construção sobre o passado, atualizada e renovada no tempo presente. Pierre Nora também fala que a memória é um processo vivido (passado), conduzido por grupos vivos, portanto, em evolução permanente. Em linhas gerais,

“A memória é vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, susceptível de longas latências e de repentinas revitalizações” (Nora, 1993:09).

 

Acho que "quem" constrói a memória coletiva sua ou do seu interlocutor, são as lembranças e o que Halbwachs denomina de "quadros sociais da memória". Para ele a memória aparentemente mais particular remete a um
grupo. O indivíduo carrega em si a lembrança, mas está sempre interagindo
com a sociedade, seus grupos e instituições. É no contexto destas relações que
construímos as nossas lembranças. A rememoração individual se faz na
tessitura das memórias dos diferentes grupos com que nos relacionamos. Ela
está impregnada das memórias dos que nos cercam, de maneira que, ainda
que não estejamos em presença destes, o nosso lembrar e as maneiras como
percebemos e vemos o que nos cerca se constituem a partir desse
emaranhado de experiências, que percebemos qual uma amálgama, uma
unidade que parece ser só nossa. As lembranças se alimentam das diversas
memórias oferecidas pelo grupo, a que o autor denomina 'comunidade afetiva'.
E dificilmente nos lembramos fora deste quadro de referências. Tanto nos
processos de produção da memória como na rememoração, o outro tem um
papel fundamental.

 

Espero ter cutucado você ainda mais.

Um grande abraço.

Rúbia.

 

Cutucou sim minha querida Rúbia... ficou mais claro para mim. Quando levantei esta polêmica em sala de aula, numa aula de contemporânea, afirmava que a memória não construía memória e sim a história é que o fazia quando se propunha à narrativa, discordando do meu professor. Mas acho agora, depois da sua explanação, que ambas constroem e o movimento é conjunto, sendo mesmo muito tênue a linha que as separa, sendo a memória um substrato, por tanto viva, como disse Pierre Nora, segundo a sua referência, capaz de plena mutação por estar justamente no campo do subjetivo. Se a memória entra no campo objetivo, é porque aí já está atuando sobre ela uma metodologia crítica que a investiga com intenção do entendimento sobre o vivido, para a elaboração de algum tipo de discurso que também pretende construir e fixar memórias sobre algum tipo de imaginário, e que poderíamos chamar de História...

 

Falei falei e não disse nada, né professora...rsrs

 

Ps.: Eu e meu amigo Marcos Coimbra montamos um blog chamado www.revistadiscurso.blogspot.com, eu tenho dois ensaios lá. Se você quiser nos visitar para lermos e debatermos, está convidadíssima, inclusive para postar ensaios ou artigos!

 

Forte abraço

Guilherme

Querido Guilherme,

 

falou, falou e dissestes tudo. Entendestes sim, perfeitamente a problemática da Memória e da História. O viés de ambas é justamente esse. Vou visitar o blog de vocês sim e se quiser continuar nossas cutucações adicione o meu msn: rubiahistoria@hotmail.com

Abraço-te.

Rúbia. 

Uma ótima discussão, parabéns ao postulador. 

 

Quero o novo, vamos descobrir o novo? 

 

Eu não sei o que é história e memória, mas vou descobrir, podemos tentar descobrir juntos? 

 

Primeiro, vamos deixar o passado no passado, Jacques Le Goff e todos os outros bem enterrados. 

 

Memória é algo que pertence ao passado, ela está no tempo, portanto memória é uma parte do meu ego, da minha consciência. Podem concordar com isso? Como resgato memórias? Através do pensamento revivemos constantemente nossas memórias, conhecimentos e experiências. Podem concordar também com isso? 

 

Toda vez que utilizo o pensamento, dou vida às memórias, e esta está relacionada com a minha sobrevivência, minha busca por conforto,com o  prazer, com a minha vida cotidiana, minhas inter-relações, etc.. Faz sentido para vocês? Pensamento é tempo, ele pode projetar o futuro, mas está no passado. O ciclo se repete porque não abandonamos o pensamento. Construo a realidade, as coisas inventadas por nós, pelo organismo humano, com uso do pensamento. Não por acaso há diferentes ou diversas perspectivas, cosmovisões, a realidade é totalmente diferente da verdade, pois  não há divisão ou dualismo na verdade.

 

Memória é o passado que vive constantemente no presente.   História é tempo, história é qualquer ação do pensamento, ela é tudo. Podem concordar com isso? Lembrem, esqueçam  as bibliografias, esqueçam os personagens mortos ou do passado, vamos descobrir juntos e por nós mesmos o que é a memória e a história. 

Temos que observar que o pensamento traz à tona o conhecimento, a experiência e a memória, os três fatores que somados constituem o meu "eu", meu ego, consciência, psique, espírito, alma, seja como queiram denominar.  Os três estão no passado, são do passado, pois não há experiência imediata, nem se quer posso acumular conhecimento ou informações fora do tempo, logo está ou é do passado, e a memória parece-nos mais óbvia como algo do passado. Portanto, o meu ego é condicionado. Podem  concordam? 

 

Ciclo, foi mencionado esse termo anteriormente. Com ele estou me referindo principalmente com o ciclo da felicidade e da tristeza em cada organismo, a dor ou sofrimento que todos compartilham. 

 

Caro Taylan, não sei de que área você é, mas com certeza a psicologia contribui e contribui muito para o nosso debate e também para os estudos sobre a ciência História. Sim, meu caro, concordei e fez sentido para mim as suas reflexões sobre a memória enquanto fenômeno ou potência do ego, consciência, psique, espírito, alma...rs... no meu caso particular entendo como espírito. A memória só pode mesmo estar no passado, a experiência só se torna experiência (também concordo que ela não pode ser imediata) quando o ciclo (este que você significa no seu texto) se renova e a minha memória é acionada para me informar se reconheço determinada impressão sobre o imediato. Por ser subjetiva ou sugestiva, e por estar o meu ego em constante interação e mútua influência com a matéria ao meu redor (e acho mesmo que o seu texto expande a discussão sobre memória para o campo do materialismo dialético), a memória pode e sofre mesmo mutação no quadro de imagens dos fatos vividos. Portanto, a memória constrói memória. Porém, o ato de historicizar recortes do tempo também constrói memória. É exatamente o que a História enquanto ciência humana faz, utilizando-se de método crítico sobre fontes (que são vestígios da memória de um determinado grupo no tempo e no espaço) para construir intencionalmente um determinado discurso (para mais ou para menos no grau de parcialidade) que contribua para este ou aquele imaginário coletivo. Cabe outra pergunta? A memória é o vivido ou apenas o formaliza? No caso dos historiadores, a pretensão de querer resgatar o vivido tal como se passou é uma ilusão. A memória contida nas fontes já foi resignificada pelos seus próprios produtores (únicos que tiveram a experiência - lembrança do vivido - de fato), que dirá o quanto ela não deve ter sido nas historiografias (que obedecem o discurso do seu tempo, como referi acima). Portanto, e esta é outra questão, a história não estuda o passado para aprendermos as experiências dos outros, mas sim, e aí aproveitando o gancho da psicologia que você trouxe para o debate, para termos uma referência de como determinado povo que já passou pelo tempo reagiu aos seus ciclos de felicidade e tristeza, ...
afim de que possamos no presente ter um número maior de reações à infinidade de circunstâncias que o cotidiano nos apresenta constantemente.
A conclusão que eu e a Rúbia chegamos é que ambas constroem memórias e estão ligadas por fronteiras muito estreitas, sendo que a História cria memória por intensão de um determinado discurso que se queira no presente. Mas, no caso da memória Taylan, podemos dizer que a memória constrói memória quando o ego age diretamente sobre ela para algum interesse objetivo no presente?

Caro Guilherme, 

 

Você separa o indivíduo da memória? A memória é um ser em si? 

 

Não concorda que somos condicionados, desta forma, ou aderimos a um grupo, ou a outro e outro, semelhantes ou antagônicos? 

Se o historiador estuda o passado, ele não acaba analisando com métodos ou sem métodos o condicionamento das pessoas, dos grupos, comunidades? 

 

Sou um estudante de História e Letras. Talvez o meu objeto esteja na epistemologia ou na teoria da História. Ainda não sei por qual caminho seguir. Pretendo fazer filosofia, talvez eu possa concluir melhor. 

Prezado Taylan,

acho que o indivíduo existe (falo enquanto ser pensante) justamente pelo fato de ter memória e ele (o indivíduo) apega-se aos seus quadros da memória para dar continuidade as suas lembranças, sejam elas boas ou ruins.

 

Rúbia.

Olá Rúbia,

O indivíduo existe, o eu, o ego, a consciência, posso aceitar isso tranquilamente. Ele existe justamente pela memória, é isso que estou falando, ok. Posso concordar novamente quanto ao apego às memórias. Somos condicionados, logo somos fascinados pelo passado.

Nós queremos ser algo, ser rico, doutor, médico, engenheiro, professor, empresário, estamos sempre em busca do que deveria ser ou deveríamos ser. Apenas posso projetar o futuro se estou no tempo, mergulhado no passado, utilizando o pensamento, resgatando memórias, conhecimentos ou experiências. Fazemos escolhas de acordo com o condicionamento, algo que varia no tempo e no espaço. Podem concordar com tudo isso? Lembrem, eu não sei, estamos a descobrir. O método dialógico é a melhor forma de aprender, só posso aprender quando estou em silêncio( silêncio psicológico - fora do tempo - não pensando), apenas observando. Se julgo ou interpreto, deixo de aprender, pois passo a reproduzir. Podem aceitar isso?

Entretanto, ainda não sei se vocês encaram a memória com um ser vivo, um ser em si, de existência própria, concreta.

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