Quais foram as causas da consolidação do protestantismo na Europa ?

A expansão e consolidação do protestantismo em partes da Europa nos séculos XVI e XVII,  em contraste com o fracasso de outros movimentos anteriores de reforma da igreja cristã ocidental, se deveu a apoio popular genuíno, ou mais ao fato de que as igrejas protestantes adquiriram caráter oficial e proteção do Estado, geralmente excluindo a antiga igreja católica, nos territórios onde se enraizaram (Inglaterra, Escandinávia, vários principados alemães, Holanda, Escócia, Suíça ,etc.) ?

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Oi, Marcelo. 

Esta não é nem um pouco fácil. 

Acho que podemos começar a reunir algumas referências bibliográficas. O que acha?

Não tenho subsídios para responder a esta pergunta, mas posso propor outra pergunta: será que essas duas forças, o apoio popular e a proteção do Estado são de fato excludentes entre si? Não seria a soma das duas coisas? Gostaria de ver uma bibliografia que trate do assunto. Boa questão.

Prezado Marcelo Caldeira,

Pessoalmente, não tenho dúvida de que os líderes intelectuais da Reforma  eram pessoas que genuinamente  acreditavam que suas ideias correspondiam à  "verdadeira essência do cristianismo"  e que , de acordo, pensavam ser seu  dever moral reorganizar a igreja cristã  de acordo  com esses princípios.  O meu ponto neste fórum , entretanto, era enfatizar  que, nos países europeus onde se estabeleceram no século XVI igrejas protestantes do Estado, notadamente na Inglaterra, Escócia, Dinamarca, Suécia e partes da Alemanha, a Reforma teve um caráter também político e econômico  além de  propriamente religioso, com o rei e a nobreza  interessados em tomar o poder temporal, os impostos e  as terras da igreja e das ordens religiosas e proclamar sua independência em relação ao Papa.  Sem o casamento desses interesses temporais,  principalmente dos monarcas locais,  com o programa dos reformadores, a Reforma provavelmente teria fracassado em muitos países do norte da Europa, como fracassou em última análise na Bélgica, na França e nos Estados católicos do sul. Os Países Baixos setentrionais (notadamente a Holanda) e a Suíça costumam ser apontados como exceções, onde o protestantismo calvinista teria sido um movimento genuinamente popular que se impôs "de baixo para cima", inclusive desafiando o poder real, Entretanto, mesmo nas repúblicas que se estabeleceram nessas regiões, as nova igrejas protestantes logo adquriram também um caráter pelo menos semioficial e a proteção ou posição privilegiada que recebiam do Estado foi essencial para o seu crescimento.

 Muitas vezes, talvez devido ao imaginário da Inquisição na cultura popular, temos uma tendência a ver a história da Reforma sob uma perspectiva binária onde a Igreja Católica Romana seria a "vilâ"  e os  protestantes, as vítimas. Na realidade, porém,  em muitos países onde o protestantismo se  estabeleceu como religião do Estado, a Reforma encontrou na realidade significativa resistência popular e foi imposta à força pelos reis/ príncipes em nome da uniformidade religiosa do reino. Mais ainda,  o protestantismo independente e radical, desvinculado do Estado e do poder temporal, foi na  verdade, tanto quanto o catolicismo, reprimido e violentamente perseguido na Europa não católica (p.ex. na Alemanha e na Inglaterra) em favor das novas igrejas protestantes oficiais,  e  só viria a florescer mais tarde nas colônias que se converteriam depois nos Estados Unidos da América.

Para começar, vale a pena uma leitura ou releitura de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, de Max Weber.

É uma boa sugestão, Sérgio. 

Aki o PDF do Livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo

Anexos

Houve um interesse genuíno de alguns pesquisadores das escrituras de expor o que realmente a Bíblia ensinava.Muitos se tornaram ícones de seu tempo por se sacrificarem para traduzir as Escrituras para seu próprio idioma,que tinha como objetivo a libertação dos dogmas pesados da Igreja que aumentava tanto o sofrimento do povo comum onde poucos tinha o privilégio de ler algum publicação.O protestantismo vez com que as pessoa pensassem para além da ideologia imposta pelo Santo Ofício que era enfático com sua tradições,punindo aqueles que eram contra seus ensinamentos.O protestantismo se fortaleceu com o apoio político de nobres que financiam cada vez mais traduções da Biblía para que as pessoas observassem divergência naquilo que os clérigo ensinavam.Outro fator foi o conhecimento científico que nesse momento era crescente na Europa e esse fato incomodava a cristandade, pois tais pesquisas enfraqueciam a fé dos membros da Igreja tida como correta e incorruptivél.

Valeu, Daniel.

Daniel,

 Eu concordaria com você se não fosse o fato de as igrejas protestantes oficiais, onde se instalaram, poderem ter se tornado tão dogmáticas ou excludentes quanto a igreja católica romana. Basta ver o exemplo do Estado teocrático de Calvino em Genebra, ou a discriminação contra os católicos na Irlanda e na própria Inglaterra, onde, por muito tempo, católicos não podiam herdar propriedades e, até o século XIX, eram proibidos de ingressar no parlamento, nas universidades, no serviço público e em certas profissões liberais como a advocacia. Mesmo na Holanda, tida como exemplo de tolerância religiosa e onde havia uma minoria católica significativa, o acesso a cargos públicos durante o período republicano (1579-1795) implicava a necessidade de estar em comunhão com a igreja reformada (calvinista) e cerimônias públicas católicas como procissões eram proibidas em muitas cidades.

Parece-me que, em geral, prevalecia de fato na Europa o princípio do Cuius regio, eius religio, cunhado na Paz de Augsburg entre o Sacro Imperador alemão (católico) e os príncipes protestantes da Alemanha.  A religião do Estado era basicamente a religião do seu príncipe e, embora existissem graus diferentes de tolerância da prática privada de confissões dissidentes (justiça seja feita, maior realmente nos países protestantes do que nos católicos), tal prática em última análise sempre vinha acompanhada de um certo grau de "penalidades" em termos de restrição de direitos civis ou políticos. O conceito de separação estrita entre Igreja e Estado e plena liberdade de culto sem prejuízo de direitos é uma noção que só emergiu muito tempo depois da Reforma, por exemplo com a independência dos Estados Unidos e constituição americana (1a emenda).

A mentalidade protestante servia ao sistema econômico capitalista.

Mas não seria essa equação muito simples, Cristina?

Indubitavelmente a questão do grande poder representado pela Santa Sé que obrigava e limitava o poder dos monarcas e seus pares encontrou nas reformas uma possibilidade de libertação desse "julgo", vislumbrando-se oportunidade de se formular novos Conceitos Dogmáticos que convergissem para a manutenção do poder, sem a interferência do clero (que representava alto custo político e econômico, pelos privilégios que reclamava) o Exemplo de Calvino em sua Genebra mostra bem isso.
Assim, o crescimento do protestantismo na Europa se dá por manobra política e econômica com vistas a se instaurar nações cujos poderes se mantivessem circunscritos às próprias fronteiras.

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