Quais as diferenças entre a Colonização Espanhola e Portuguesa?

Quais as diferenças entre a Colonização Espanhola e Portuguesa? No Sistema da Colonização implementaria uma política de pacto colonial inserida na lógica do mercantilismo. Mas qual era a diferença entre as duas

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Caro Juvenal Santana,

As diferenças entre a colonização espanhola e a colonização portuguesa eram, inicalmente, mínimas, mas ambas as políticas coloniais foram divergindo ao longo dos tempos, e dessas resultou a América do Sul como hoje a conhecemos: Vários estados sul-americanos ex-colónias espanholas, resultantes de uma desintegração da América Espanhola; e o Brasil, a única possessão portuguesa na América do Sul, no entanto, ocupante de 52% do território sul-americano. Isto porque a excelência da diplomacia portuguesa estava presente nos Tratados de Utrecht (1713 e 1715, dois tratados), Madrid (1750) e Santo Ildefonso (1777). Estes tratados delineavam as fronteiras do Brasil com base nos limites naturais da bacia hidrográfica do Amazonas e na Colónia de Sacramento (actual Uruguai, outrora colónia portuguesa e depois espanhola), estabelecendo desde cedo os limites do Império Português na América Latina.

Entre a colonização espanhola e a colonização portuguesa, há que salientar alguns aspectos determinantes para a formação de ambos os Impérios na América. Entre eles encontravam-se as ambições, as relações diplomáticas com os povos indígenas, o objectivo do usufruto dos territórios e as respectivas políticas coloniais no que toca à organização demográfica e social. Organizarei por alíneas, para tornar mais fácil a sua leitura e clarificar melhor o meu raciocínio.

a) Quanto às ambições, sabemos que, desde 1494 (data do Tratado de Tordesilhas), os Reinos de Portugal e Espanha baseavam as suas explorações naquilo a que os ingleses se referiam como os 3 Gs: God, Glory and Gold - Deus, Glória e Ouro. Apesar de, como o senhor disse, um Sistema de Colonização estar directamente relacionado com a lógica mercantilista, tanto no caso espanhol como no caso português, tal não ocorreu. Porquê?

b) O cerne do insucesso mercantilista está nas relações com os povos indígenas. Aquando da tomada de Constantinopla (o último reduto Cristão a Este da Europa) em 1453, tornou-se mais rentável o investimento nas artes náuticas com o intuito de procurar uma rota alternativa para o Oriente, dado que a única (por Constantinopla) tinha sido tomada por Otomanos, e esta era utilizada por Venezianos e Genoveses na busca de mercadorias para comércio na Europa. Escapando à Guerra dos Cem Anos, que assolava a Europa "na companhia" da peste bubónica", Portugal encontrava-se em perfeita posição económica, social e estratégica para procurar uma rota marítima para o Oriente. Portugal atingia o seu apogeu na Época dos Descobrimentos, e Espanha seguia-lhe o exemplo. Como tal, procurou uma rota marítima para a Índia a Oeste, mas em vão. No entanto, o descobrimento do Novo Mundo traria esperanças a Espanha para procurar a riqueza e as conquistas de territórios.
Ao contrário de Espanha, Portugal não procurava a expansão territorial, mas sim o estabelecimento de feitorias (entrepostos comerciais) para comércio com outras nações. No entanto, devido aos posteriores ataques por parte de piratas (a maioria mercenários ao serviço de Genoveses, Venezianos e Otomanos), a expansão territorial tornou-se uma necesidade no intuito de defender o direito de comércio nas terras além-mar. Portanto, conclui-se que Espanha já procurava a expansão territorial (o que significava a ocupação de territórios e guerra às nações indígenas, e consequente agravemento das relações diplomáticas), quando Portugal apenas ambicionava um lugar mais prestigiado no comércio europeu.
Quando Hernando Cortéz e Francisco Pizarro chegaram à América do Sul, estes vinham com o objectivo de exterminar os povos indígenas, no intuito de estabelecer um Império Espanhol de grandes proporções. Tais acções davam uma ideia da Política Colonial Espanhola nos anos vindouros.
Com a chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, os Portugueses procuraram de imediato estabelecer um entreposto comercial. No entanto, ao contrário do que tinha acontecido com os espanhóis aquando da sua chegada aos Impérios Inca, Maia e Azeteca, os índios brasileiros (Tupis e Guaranis) viram a chegada de estrangeiros como uma ameaça, então deram início às hostilidades. Esta versão é largamente discutida no seio da História Brasileira, dado que certos historiadores defendem que foram os Portugueses que iniciaram as hostilidades, no entanto, as suas teses são contraditas por relatos de ataques de nativos brasileiros por parte de Holandeses e Franceses, assim como os óbvios relatos Portugueses. Tais hostilidades viriam a mudar a Política Colonial Portuguesa de forma drástica, conduzindo à escravização de índios e até extreminação, assim como a prevista expansão territorial como um meio de defesa (e não de exploração).

c) Aquando do estabelecimento do Império Colonial Espanhol na América do Sul e Central, estes iniciaram uma exploração selvagem e insustentável dos recursos americanos, entre os quais se encontravam os escravos (que eram encarados como matéria-prima), diamantes, prata e ouro: os materiais cobiçados na Europa.
Portugal seguia uma política bem diferente. A construção de feitorias e o comércio com nativos deu origem às condições propícias para o povoamento e o envio de missionários para a Cristianização dos territórios. Materiais como pau-de-brasil, ouro, prata e diamantes eram enviados para a Europa. A necessidade de proteger estes recursos levou a uma expansão territorial da costa no Brasil, e construção de fortes para a devida protecção da linha costeira. A escravatura no Brasil só foi praticada a partir de 1580, data da União Ibérica. A chegada dos Holandeses ao Brasil permitiu a abolição da escravatura na Bahia, mas apenas temporariamente. Portugal viria a retomar a política eslavagista e a iniciar o comércio de escravos, ironicamente iniciado pelos Holandeses, por intermédio do GWIC (Geoctroyeerde Westindische Compagnie - Companhia das Índias de Oeste).


d) A organização demográfica e social foi consequência da afluência de aristocratas europeus entre outras gentes de diferentes classes sociais para as colónias. Tanto uns como outros procuravam um meio de sustento, eventualmente mais abastados uns que os outros, o que levou a uma organização demográfica e social. A demografia sul-americana foi drástica e deliberadamente reduzida através das incursões espanholas aos povos indígenas, como já referidos. Esta nunca chegou a ser compensada, apesar da afluência europeia, e do comércio de escravos relativamente intenso aquando da chegada de negros escravizados ao Brasil, por intermédio de negreiros (navios de transporte de escravos), dando origem aos mestiços, que são hoje a raça predominante no Brasil.
A construcção de fazendas para criação de gado ou extracção de minérios originou uma urbanização em redor destas, surgindo daí as primeiras vilas e cidades nas colónias. Tornou-se também uma necessidade a estratificação social, e a criação de assembleias, bancos entre outros órgãos sociais, no intuito de se tomarem as medidas necessárias para uma optimização da gestão colonial, apesar de nem sempre serem tomadas as melhores decisões (muitas vezes eram controladas para benifício de determinada classe ou pessoa, o que levou aos movimentos de insurreição pelas colónias, apesar da diplomacia portuguesa e espanhola ser bem diferente, como referido no parágrafo inicial). Tal ocorreu tanto no Brasil como nas restantes colónias espanholas.


No fundo, podem-se observar três etapas:

- Uma etapa inicial, em que ambas as políticas coloniais (Portuguesa e Espanhola) tinham uma visão convergente de gestão;

- Uma segunda etapa de distanciamento (divergência), em que os factores supramencionados acabaram por exercer uma forte influência sobre as decisões das consequentes políticas coloniais;

- Uma terceira etapa, em que houve uma nova convergência na política colonial, podendo-se designar um período de estabilização social, na medida em que tanto Portugal como Espanha levavam a cabo sistemas de colonização semelhantes.



É de salientar também que os métodos de aproximação diplomática entre povos europeus não foi afectada com as tensões maiores ou menores com os povos indígenas, sendo, como já referido, de digna nota a excelência da diplomacia portuguesa face à divisão das fronteiras coloniais que iriam estabelecer as fronteiras de um Brasil presente; e a grande falha da diplomacia espanhola face à manutenção de várias colónias num só território, o que levou à desintegração do Império Espanhol na América, à guerra entre as recém-formadas nações e consequente situação geo-política que hoje encontramos na América do Sul.

Espero que tenha compreendido as diferenças entre os dois sistemas de colonização.



Os meus cumprimentos,



Zé Povinho

Juvenal, o tema talvez seja grande demais para um fórum.

Sugiro a leitura de "Raízes do Brasil", clássico do Sérgio Buarque de Holanda. 

Juvenal: talvez, caso ainda o interesse, seu estudo, pode ser facilitado ao se comparar a administração do Brasil, antes e depois da instauração da chamada "União Ibérica" por Felipe II da Espanha em 1580. Onde mesmo havendo poucas mudanças entre a administração dos Avis portugueses e a dos Habsburgos espanhóis (pois além de Felipe II, também reinaram em Portugal e Espanha, Felipe III e Felipe IV), são interessantes, como a instalação (mesmo que discreta) do Santo Oficio (Inquisição) com os espanhóis.

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