Por que os conhecimentos adquiridos nas pesquisas da pós-graduação não vão para o ensino fundamental e médio?

É interessante como as pesquisas mudam a história dita tradicional e oficial que há muito está nos Parãmetros Curriculares Nacionais. O Professor recebe o conteúdo programático e embora eu não ensine, parece que ainda praticamos a História Política positivista. O que são feito dos conhecimentos pesquisados nas teses de doutorado e mestrado de História? Para onde esse conhecimento está escorregando que não chega aos bancos escolares das escolas fundamental e médio?

Tags: Educação, currículos, pós-graduação

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Falando como o Capitão Nascimento: é o sistema. Existe um conteúdo "oficial" que alavanca as editoras que por sua vez estão associadas aos donos de colégios, que exigem a compra de tal livro, autor tal, edição tal e assim vai. Alguns pioram a situação sintetizando o conhecimento no formato de apostilas que são resumos de aulas. As escolas públicas dão livros gratuitos que serão repassados para os alunos no ano seguinte. Sobra algum espaço para o professor? Somente o da criatividade. Acho que todo professor formado em licenciaturas específicas (História, Geografia, Letras, etc...) deveria também fazer Pedagogia. Só assim poderiam unir o conhecimento pedagógico à sua licenciatura. Mas como meu Deus, podemos acumular tanta responsabilidade? Temos que ter conhecimentos psicológicos, pedagógicos e conhecer da metodologia de ensino de História...enfim sermos uma espécie de cantor-ator-bailarino de sala de aula...ufa..
vEJO ESTA SITUAÇÃO COM UM ABISMO CULTURAL E TORN-SE URGENTE O REPENSAR DESSA PRÁTICA, POIS VEJO UMA NECESSIDADE DE UM DIÁLOGO MAIS PRÓXIMO ENTRE OS NIVEIS DE ENSINO, PARA DESTA FORMA FAZER COM O ALUNO DO ENSINO MEDIO OU FUNDAMENTAL POSSA PRODUZIR TAMBÉM CONHECIMENTO ATRAVÉS DE PESQUISA HISTÓRICA E NÃO APENAS REPRODUZA, POIS DESTA FORMA O ALUNO SENTIRÁ COMO SUJEITO ATIVO DA HISTÓRIA DENTRO DA SOCIEDADE DE ONDE ESTAR INSERIDO

Flávio,

Colocar o aluno do ensino básico como produtor de conhecimento e sujeito histórico autoconsciente é uma ótima ideia. Boa mesmo. Mas tem um obstáculo antes: muitos dos professores não estão nessa situação. O que a Silvaniza disse sobre os professores que ficam reféns dos livros didáticos ou das apostilas tem tudo a ver com isso: como o professor vai ajudar os alunos a refletir sobre a construção da própria realidade se ele não consegue escapar da sua situação de subordinação a outros interesses? Se não consegue fugir ao conteúdo do livro didático?

Emannuel

No estado de São Paulo a Secretaria de Educação obriga os professores a seguirem apostilas fornecidas pelo estado aos alunos, mas elas são feitas por pessoas que nunca pisaram numa sala de aula, portanto, para seguir o programa, tornam-se inviáveis. 

Carlos,

Um exemplo triste de todos esses problemas levantados na discussão. Pena que SP não tenha só muito do que o Brasil faz de melhor, mas também muito do pior. Quando uma escola faz isso já é ruim, mas ainda existem outras por perto que quem sabe são melhores. Mas quando um estado inteiro adota apostilas de quinta categoria... o que fazer? Rezar para que as escolas municipais sejam menos insanas?

Daí, como um professor paulista vai implementar a ideia do Flávio, de tornar os alunos produtores de conhecimento, se ele mesmo é obrigado a se tornar um simples reprodutor de apostilas?

Emannuel:

É verdade. Fora a figura do professor que atua em atribuição de aulas: não é concursado, trabalha para o estado, ganha por aula ministrada (R$ 7.01) para o ensino médio, (R$ 6.90 para o ensino fundamental). O fim da picada. E não tem garantia nenhuma, nem plano de saúde. Só atua se a escola chamá-lo para trabalhar naquele dia, porque o professor "x", chamado "titular" (concursado) faltou (muitas vezes sem dar explicações na direção da escola).

 Existe uma mafiazinha de livros didáticos. Alterar conteúdos encarece o produto final e quase sempre quem monta estes livros (não são escritos, mas "copiados e colados" de outros livros) não tem lá muito interesse de inserir  pesquisas e repartir créditos ou pagar direitos.

Brancaleone

As editoras atuam agressivamente nesse sentido. É verdade.

Os livros são uma colcha de retalhos na maior parte e as editoras lucram violentamente ao vender centenas de milhares de exemplares com preços astronômicos todos os anos.

Acho que já sugeri isso antes - um jeito de resolver ao menos esse problema era fazer livros didáticos online, que pudessem ser baixados de graça e fossem fáceis de atualizar sempre que preciso. Daria para achar alguma maneira de tornar o livro economicamente viável se fosse o caso - talvez vendendo cópias impressas para quem quisesse um produto com acabamento melhor. Ou poderia ser voluntário mesmo, como uma wikipédia.

Daí só faltaria contratar guarda-costas para impedir os assassinos contratados pelas editoras para salvar sua boquinha...

Sei que o estado do Paraná lançou online um livro didático há alguns anos atrás. Temos algum paranaense por aqui para compartilhar experiências?

Por mais incrível que possa parecer, a imensa maioria  dos livros didáticos literalmente apodrecem em seus fardos, empilhados em salinhas e porões de escolas. Alunos raramente os recebem - pelo menos aqui na minha cidade. Estranhamente os professores daqui não usam livros padrão. Cada um ensina mais ou menos o que sabe dentro dos conteúdos necessários (tudo bem que temos um contador dando aulas de biologia...)

Mas certamente os professores daqui são geniais, inteligentes e sabem de cor e salteado tudo o que consta nos livros e podem dispensá-los...

Brancaleone,

Pelo jeito os professores geniais decidiram que os alunos também são geniais e não precisam dos livros didáticos nem como material de referência.

E o contador-biólogo obviamente é a encarnação do homem renascentista, um gênio em mais de um campo!

O que os anos 60, 70 deixou de resíduo para os dias contemporâneos? Educação Moral e Cívica, OSPB (Organização, Social e Política Brasileira), EPB (Estudos dos Problemas Brasileiros) tudo isso eu tive que estudar na minha formação educacional. Alguém sabe o que é isso? Currículo imposto pelos militares para controlar a subversividade da juventude. Acabar com a autonomia e liberdade dos movimentos estudantis que eram muito atuantes nos meados dos anos 60 e enrijeceram nos anos de chumbo. Muita coisa ainda resta dessa filosofia de ensino. Os livros didáticos deveriam passar pelo crivo do professor que vai utilizá-lo. O planejamento escolar deve passar por esse juízo,por que devemos confiar no que vem nesses livros? E se eu tiver um estudo que mostre uma afirmação contraditória com o que está nesses livros, mesmo assim eu tenho que repassá-la aos alunos?

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