(continuação)

O bolchevique favorito de Lênin, o benjamim do aartido, Nikolai Bukharin, acreditava na segunda hipótese, tanto assim que se aliou a Stalin para destruir a facção radical de Trotski (enriquecida depois de 1926 por Zinoviev e Kamenev) e caiu em 1929, defendendo os princípios da NEP. Nunca saberemos o que Lênin pensava realmente, pois morreu em 1924, sem deixar explicação, ao menos que tenha vindo a público.

Deixou, porém, o famoso testamento. Se, de um lado, propõe a retirada de Stalin do todo-poderoso cargo de secretário-geral do Partido, prevendo o futuro tirano por implicação, de outro, embora reconhecendo a superioridade de Trotski sobre os demais, critica-o pela “excessiva atração” (sic) por “métodos administrativos” (sic), essa última expressão um eufemismo de imposições de programas ao povo a chicote, o que seria a especialidade do stalinismo. 


Fora da URSS, Trotski, sem nunca rejeitar a tese do partido único e exclusivista, tornou-se um apóstolo do comunismo libertário, mas não era obviamente essa a posição dele nos tempos de Lênin, o que o testamento do líder especifica.

A violência com que Stalin industrializou a URSS na década de 1930 é provavelmente responsável pela vitória da URSS sobre a Alemanha nazista e por sua conversão numa superpotência que só rivaliza com os EUA. 


O custo humano dessas realizações, porém, faz estremecer a mente. Cinco ou dez milhões (os dez milhões são de Stalin, ditos a Churchill) de camponeses assassinados na coletivização entre 1929 e 1932, o assassinato de 1 milhão de comunistas nos expurgos de 1934-1939. sem falar de suas respectivas famílias e amigos, elevando o total a 20 milhões de vítimas. 

Era para exterminar os kulaks como classe, mas...

A destruição da fina flor da cultura russa, de Mandelstam a Babel, e o estabelecimento de uma aridez burocrática na vida cultural do país, que permanece até hoje. Uma tirania policial que antes de sua morte, em 1953, superava a de Adolf Hitler. 

E, finalmente, para manter paridade em armas com os EUA, a submissão do povo a indizíveis sacrifícios em nível de vida que, hoje, 24 anos depois da morte do tirano, continua mais baixo do que o da Bélgica, que a URSS, militar, incineraria em meia hora. 

Muito se discutiu na polêmica Stalin-Trotski sobre a posição do primeiro em favor de socialismo num só país e a visão internacionalista de Trotski. Há exagero de parte a parte. Stalin nunca desistiu da revolução mundial, nem Trotski rejeitou a possibilidade de desenvolvimento autônomo da URSS. Trotski não pôde provar o que faria, porque derrubado e assassinado. Stalin, porém, forçado a fixar-se na URSS graças ao renascimento do capitalismo europeu reabastecido pelos EUA, transformou a política externa soviética num modelo de cinismo e oportunismo que desmoralizou o comunismo tanto quanto o corrupto papado na era de Lutero. 

Em 1927, sob os protestos de Trotski, inaudíveis fora do país, Stalin forçou os comunistas chineses a se aliarem a Chiang Kai-shek, pois temia que uma revolução comunista na China atraísse o ódio capitalista contra a URSS. Chiang massacrou os comunistas. Daí nasceu a revolta de Mao Tsé-tung à tutela soviética. No fim da Guerra de 1945, para aplacar os EUA, Stálin continuou traindo Mao e apoiando Chiang. 


Na Iugoslávia, pelos mesmos motivos, na 2ª Guerra, queria que Tito partilhasse o poder com a monarquia. 

Mao Tsé-tung cansou de ser traído por Stalin 

Em 1938, na Guerra Civil Espanhola, à parte mandar assassinar implacavelmente todos os grupos esquerdistas não comunistas que lutavam contra Franco, iniciou a redução do auxílio ao governo republicano porque já planejava o Pacto de Não Agressão, vis-à-vis Hitler, de agosto de 1939. 


Na Alemanha de 1933, insistiu em que o PC considerasse os sociais-democratas os “verdadeiros fascistas”, cindindo a classe operária, o que facilitou a ascensão de Hitler. 


Também no fim da 2ª Guerra fez os comunistas franceses e italianos baixarem armas em face dos EUA, porque queria preservar a esfera de influência que reservara para a URSS no Leste Europeu (apesar disso, essa esfera lhe foi negada pelos EUA até que a URSS desenvolvesse armas nucleares). 


É difícil imaginar política mais sórdida e estúpida. Sem a cisão da classe operária alemã, Hitler só chegaria ao poder mediante uma guerra civil e é quase certo que, em 1933, se o Exército derrotasse socialistas e comunistas, teria posto no poder uma alternativa menos perigosa e agressiva do que Hitler. 


Da mesma forma, o Pacto de Não Agressão nazicomunista de 1939 é julgado obra de gênio de Stalin, pois desviou as fúrias de Hitler para o Ocidente europeu, o qual tentava persuadir direta e indiretamente ao Führer que a URSS seria o alvo ideal de conquista alemã. 


Esse raciocínio tem algum mérito até a invasão da Polônia por Hitler. Nesse período, a Inglaterra já se comprometera a defender a Polônia.

Pacto entre Hitler e Stalin: uma abominação!

Se Stalin, em vez de acumpliciar-se com Hitler, abocanhando metade da Polônia, lhe tivesse dado combate, haveria sido mais fácil derrotar Hitler então, pois, sabemos hoje, a máquina de guerra alemã era mais mistificação tática do que realidade. 

Já em 1941, quando Hitler atacou a URSS, dominava completamente a Europa, seus recursos e tropas. Colocou 144 divisões de elite vis-à-vis Stalin e 3 milhões de homens. 

Stalin obteve, apesar de tudo, a maior vitória militar do século, mas ao preço de 20 milhões de soviéticos e de devastações no país maiores que as da guerra civil de 1918-1922. 

Milhões de pessoas, no entanto, se sacrificaram por Stalin, idealistas, muitas das quais morreram fuziladas nos campos de extermínio da URSS, bradando triunfalmente o nome do carrasco, no momento em que este as executava, o que prova que o comunismo é a religião secular do nosso tempo.

Resta da URSS de Stalin a superpotência. Seus efeitos benéficos são indiretos. Inexistisse a URSS, os EUA, no seu período de expansão imperialista, que terminou com a Guerra do Vietnã, teria transformado o resto do mundo numa coleção de Cingapuras. Todo movimento insurrecto, ou meramente nacionalista, lançou olhos esperançosos na direção de Moscou, talvez porque o único breque à superpotência americana, e não, certamente, porque Moscou fosse a meca do internacionalismo revolucionário.

É difícil imaginar um único movimento comunista fora da esfera de influência soviética no Leste Europeu que aceite e admire o modelo soviético. E mesmo nessa esfera a indocilidade e ânsias de libertação são sensíveis, não em loucos santos do tipo Soljenítsin, mas em novas gerações de reformistas comunistas, que anseiam por apagar a onerosa herança do stalinismo que lhes foi imposta. 

Múmia do Lênin: "ruborizado, com toda a razão".

E dentro da própria URSS, tensões nacionalistas, a inexistência de um padrão de vida civilizado, das mínimas liberdades individuais, provocam agonias de que temos meros relances. 

O stalinismo é um monumental leviatã militar e policial. Espiritualmente, é um cadáver. Seus decrépitos líderes não sabem sequer o que fazer. É uma ditadura caduca que se sustenta pela força da inércia e na ponta de mísseis nucleares e nos tentáculos da KGB. 

Não era esse o sonho de Lênin e Trotski e, talvez, nem do próprio Stalin, no início de sua carreira. Mas foi a nação e o movimento que os três construíram e que cabe a gerações futuras reformular, eliminando deformidades e, principalmente, para purgar a alma de um grande povo, contar-lhe a verdade sobre sua história nesses tumultuosos sessenta anos.

Diversas circunstâncias históricas, principalmente a destruição do mundo burguês capitalista em 1914, deram margem à Revolução Soviética. Disso não resta dúvida. A mim, porém, me parece igualmente certo que, se não fosse o gênio de Lênin, Trotski e Stalin, essa revolução teria seguido um rumo muito diferente. A paternidade da URSS moderna é inequivocamente deles. E o que restou, no país que erigiram do feudalismo de 85% de camponeses, o que restou de cada um?

Lênin, homem simples, materialista convicto, está hoje transformado em ícone, ridiculamente mumificado na praça Vermelha, onde me pareceu ruborizado. Tem toda a razão. Deve estar em rotação permanente na cova. 

Trotski não existe na URSS ou é rotineiramente atacado pelos escribas dos burocratas gagás que administram o patrimônio de Stalin. Um crime histórico que dispensa comentários.

Por Paulo Francis

E o próprio Stalin virou assunto que não se discute em casa de famíliaDepois da superficial revisão do período Kruschev, colocaram de novo a mortalha sobre o governo desse novo misto de Genghis Khan e Pedro, o Grande, que reformulou completamente a história do nosso tempo. 

Dizia-se que a revolução devora seus filhos. A soviética repete a máxima em farsa: fez deles objeto de ridículo para os desinformados, que permanecem 99% da humanidade.

EPÍLOGO

Profundo, brilhante e até profético, este texto do Paulo Francis não poderia ficar ausente das discussões que o centenário da Revolução Soviética suscitará ao longo deste ano, daí a minha decisão de resgatá-lo do injusto esquecimento.

E são muitas e muitas as lições que podemos extrair, a partir de tal pano de fundo. Destacarei duas:

  • a cisão do Partido Operário Social Democrata Russo, em 1903, se deu porque os fantasmas da destruição da frouxa Comuna de Paris tiravam o sono de Lênin, daí ele considerar imperativa a construção de um partido duro, de revolucionários profissionais submetidos a direção e disciplina rígidas, enquanto Trotski via nisto um ovo da serpente (primeiramente, o partido substituirá a classe operária, depois o Comitê Central substituirá o partido e, afinal, um tirano substituirá o Comitê Central). De certa forma, ambos estavam certos. Só um partido tipo jacobino, como o Bolchevique, conseguiria ter tomado o poder em 1917 e o sustentado nos anos seguintes contra a formidável coalizão de inimigos interno e externos. Mas, seu centralismo quase militar era mesmo terreno fértil para a tirania, como Stalin provaria.

  • Na inflamada discussão interna sobre se os bolcheviques deveriam ou não tomar o poder num país que nem de longe estava pronto para o socialismo, prevaleceu a tese de que a revolução soviética seria o estopim de uma sucessão de outras, começando pela alemã, cujo apoio permitiria construir o novo regime na Rússia em condições menos draconianas. Mas, abortada a sonhada sequência, a URSS contou apenas consigo mesma para superar seu acentuado atraso econômico, acabando por fazê-lo a ferro e fogo. Com isto, o chamado socialismo real soviético se tornou tão odioso e execrável que serviu como exemplo negativo para a máquina de propaganda burguesa dele afastar o proletariado das nações mais avançadas. E, embora a construção do socialismo em nações isoladas esteja completando um século de fracassos, até hoje a esquerda a continua tentando, em vão. Não seria o caso de voltar a apostar suas principais fichas na revolução mundial? Não é paradoxal a economia estar globalizada e os movimentos revolucionários terem praticamente abandonado o internacionalismo de outrora?

Por último, é impressionante como, em novembro de 1977, Paulo Francis já antevia (e ousava colocá-lo no papel!) o colapso do regime soviético. Quase ninguém o fazia na esquerda brasileira, que, depois da primavera de 1968, regredira ao mais tacanho maniqueísmo, com o consequente embotamento do espírito crítico.

Seria pedir demais que Paulo Francis, além disto, antecipasse que o leviatã sucumbiria principalmente por não conseguir incorporar os avanços tecnológicos da 3ª revolução industrial e começar a perder de goleada no front econômico, o que o forçou a optar entre a decadência irreversível ou a volta ao capitalismo. (por Celso Lungaretti)

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