Por que, de todos os líderes comunistas, Joseph Stálin é, de longe, o mais importante e o mais polêmico?

Certamente Stálin não foi o mais simpático ou o mais carismático dos líderes comunistas. Era um homem que inspirava medo. Um líder cujo autoritarismo não contribuía em nada para que as pessoas desenvolvessem o seu potencial intrínseco, fosse na política, nas ciências ou nas artes, uma vez que todo processo está sujeito ao erro. Mas que erro? Ninguém sabe. Ele simplesmente flutuava sobre toda sociedade, podendo cair como uma espada de Dâmocles na cabeça de qualquer um. Simplesmente as pessoas podiam transgredir regras que não estavam muito claras, tendo que pagar por isso com a perda de liberdade ou a própria vida. Em outras palavras, respirava-se uma atmosfera asfixiante onde, tanto podia não acontecer nada quanto ser suprimido da noite para o dia. Mas nada comparável a Alemanha nazista, onde o partido incentivava as próprias crianças a denunciarem seus pais.

Todavia, a História não julga os líderes pela sua maior ou menor bondade ou crueldade. A História vê o  líder de uma perspectiva longínqua, do que ele fez não pelos indivíduos, mas pelo povo, pelo coletivo, pela nação. No interesse da maioria, mesmo com o sacrifício de alguns.

 Stálin é esse líder cuja importância não se esgota no seu tempo, mas se projeta no futuro. Mesmo com a denúncia dos seus crimes pelo próprio PCUS, em seu XX Congresso, em 1956; mesmo com a queda do regime comunista na URSS, em 1991, até hoje os russos, mesmo os não comunistas, veneram o Guia Genial da "Grande Guerra Patriótica" (como os russos se referem à II Grande Guerra), pois sabem que, se não fosse por ele, o país teria sido retalhado pelos alemães, e a maioria da sua população massacrada ou escravizada. Alguns podem odiá-lo em função de toda propaganda anti-stalinista existente hoje, mas sabem também separar as coisas. O que teria sido da URSS se tivesse sido derrotada pela Alemanha nazista? O que teria sido da URSS se não tivesse respondido aos Estados Unidos fabricando sua própria bomba atômica, em 1949? Capacho, como o Brasil.

Portanto, neste fórum, não basta vociferar "Assassino", "Crápula" ou qualquer coisa neste sentido. Milhões de inocentes continuam morrendo no Afeganistão, Líbia, Iraque, Síria, Palestina e outros lugares. Só que não podemos concentrar nosso ódio num só vilão, já que o sangue das vítimas está espalhado por várias mãos. Mas quem se incomoda? Só os vencidos comparecem aos tribunais de guerra.

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Chamar Stalin de "guia genial da grande Guerra Patriótica" reflete falta de informação. Stalin, ao contrário, deixou a União Soviética altamente despreparada e vulnerável à invasão alemão com o "Grande Expurgo" de 1936-38 (que dizimou a liderança do Exército Vermelho) e com o Pacto Ribentropp-Molotov. A vitória soviética na guerra, que viria apenas a um custo em perdas humanas muito acima do razoável, no final só foi possível graças ao apoio  dos aliados ocidentais (especialmente os Estados Unidos) que forneceram armas e equipamento para as forças armadas soviéticas e destruíram o complexo industrial-militar alemão com sua campanha de bombardeios aéreos.

Só mais uma pequena observação. A frase acima do Fernando:

"Todavia, a História não julga os líderes pela sua maior ou menor bondade ou crueldade. A História vê o  líder de uma perspectiva longínqua, do que ele fez não pelos indivíduos, mas pelo povo, pelo coletivo, pela nação. No interesse da maioria, mesmo com o sacrifício de alguns"

ilustra bem a diferença de ponto de vista entre as ideologias totalitárias coletivistas como o nazi-fascismo e o comunismo e a democracia liberal ao estilo anglo-americano. Para os liberais, não existe o "coletivo", cujo suposto interesse é definido arbitrariamente pelo grupo ou facção política dominante que se impõe geralmente pela força. Ao contrário, existem apenas "indivíduos" ou unidades como suas famílias e o bem-estar "coletivo" é maximizado quando esses indivíduos são livres para perseguir de forma independente seus próprios interesses. A vitória desse segundo ponto de vista (individualista) sobre o primeiro (coletivista), em grande parte graças aos Estados Unidos e aos outros povos de língua inglesa (britânicos, canadenses, australianos, etc.) foi o evento histórico mais importante do século XX e, provavelmente, um dos momentos seminais da história humana recente.

Em suma, Stálin prosseguiu na memória do povo pq, como Vargas aqui, fez algo de prático para o povo.

De forma alguma. Morreram 12 milhões de russos e sem a luta decidida dos soviéticos, a Inglaterra não poderia ter lutado em 41. A invasão da URSS salvou a Inglaterra, que tinha perdido tudo em Dunkerke. De um exército de 140 mil, ela salvou só dez por cento.

Se não fosse a persistência da Inglaterra na guerra granjeando o auxílio americano hoje em dia as coisas poderiam ser bem diferentes! Não foi o regime comunista quem ganhou a guerra, foi o povo Russo e esse sim merece todo nosso respeito, afinal de contas ninguém sofreu como eles, a começar pelas atrocidades cometidas pelos seus governantes anos antes com os expurgos em todas as esferas da sociedade e depois   pelos agressores alemães e durante a guerra pelos seus próprios companheiros de armas e irmãos pátrios, os comissários políticos de Stalin e Beria !  

Na  2a. guerra Stalin foi engambelado por Hitler, alem é clarto de ter sido útil para trucidar a Polônia...

Como estrategista foi um fracasso absoluto. Não fosse a genialidade do General Zhukov e outros oficias, Stalin se limitaria a enviar milhares de homens destreinados e mal armados contra as tropas nazistas numa tentativa de vencer  pela superioridade numérica. Não fosse o inverno russo Stalin  teria mostrado ao mundo que não passava dum ditadorzinho.

O autor do diz "O que teria sido da URSS se não tivesse respondido aos Estados Unidos fabricando sua própria bomba atômica, em 1949? Capacho, como o Brasil."

Brasil capacho... Maravilhoso capacho. Não me consta que tenhamos tido periodos de fome, não me constam gulags, não me constam  expurgos, não me constam populações inteiras de paises invadidos serem relocadas. Se fomos e somos capachos dos EUA, nos saímos bem melhor que a Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Ucrânia, Estônia, Mongólia e todos os demais países que tiveram "a sorte" de terem sido invadidos pelo "maravilhoso e magnânimo georgiano alucinado..."

Esta  arenga sem graça de que a URSS liderada por Stalin  protegeu o planeta dos ianques capitalistas é tão distituida de fundamento,  é tão ausente de provas que nem pode ser levada em consideração.

Caros Senhores (as),

Inicialmente, uma explicação. O Sr. Brancaleone possibilitou-me o acesso a um fórum pelo qual tinha interesse. Meu objetivo era desviar a discussão que se travava sobre Stálin no fórum sobre nacionalismo para um mais adequado à temática. Só que o fórum disponibilizado pertence a um grupo sobre Che Guevara, o que não daria a visibilidade pretendida. Daí a minha iniciativa de criar este fórum. Espero que ajude a ampliar a compreensão sobre este homem tão polêmico e vilipendiado.

De cara, o Sr. Marcelo dá início à discussão chamando-me de mal-informado. Meu caro, evidentemente que não sou detentor de todas as informações pertinentes, mas não me furto a debater o assunto com o senhor.

Vejamos: Stálin não fez nada pela expulsão e posterior aniquilamento do exército invasor, que até então só conhecia vitórias. Pelo contrário, só atrapalhou com as perseguições ao Alto Comando do Exército Vermelho, deixando-o fragilizado às vésperas de uma guerra que se avizinhava.

Vamos aos fatos:

Sem dúvida que, desde meados da década de 30, Stálin vinha endurecendo cada vez mais o regime, perseguindo impiedosamente seus opositores. A alta oficialidade do Exército Vermelho era composta, em sua maioria, por generais oriundos do exército imperial czarista. Convinha substituir esses oficiais gradativamente, à medida que novos oficiais (ideologicamente alinhados com o socialismo) fossem formados e ganhassem experiência. Contudo, Stálin não teve essa paciência e decepou a cabeça do exército, comprometendo a defesa do país. Isto é fato.

Os eventos que se desenrolaram na Europa naquela década puseram a URSS na defensiva, já que era o alvo declarado do nazi-fascismo. Todas as tentativas de compor uma aliança com a França e a Inglaterra fracassaram em virtude da abjeção das potências capitalistas, que torciam para que os nazistas varressem o socialismo da face da terra. Ficou bem evidente que não se poderia contar com elas quando, em 1936, arriaram as calças para Hitler, permitindo que anexasse os Sudetos (Thecoslováquia). No mesmo ano, também foi só a URSS o único país a enviar tropas para lutar ao lado dos republicanos, em oposição aos franquistas, que tiveram todo o apoio da máquina de guerra nazista, na Guerra Civil Espanhola.

Ainda em 1936, Alemanha, Itália e Japão assinaram o Pacto Anti-Komimtern contra a URSS.

Tudo isso levou Stálin a procurar ganhar tempo. Ele tinha consciência que o país não estava preparado para entrar em guerra contra a Alemanha. Daí o Pacto Germano-Soviético de Não-Agressão, de 1939, que adiou a entrada da URSS na II Guerra Mundial. Nesse tratado foi decidida a partilha da Polônia entre a URSS e a Alemanha e a colocação dos Estados do Báltico sob a influência soviética. O que eu nunca li aqui no Café História é o reconhecimento de que esses territórios, secularmente, pertenciam ao Império Russo, do qual foram tomados em virtude do Tratado de Paz de Brest-Litóvsky (1918), com o qual a Rússia se retirou da I Grande Guerra. Por esse tratado, a Rússia perdeu a Polônia, Ucrânia, Finlândia, Estônia, Letônia e Lituânia.

Portanto, com o tratado de 1939, a URSS apenas retomou o que era seu de direito. Sem querer me alongar muito, o mesmo vale a para a Alemanha, já que a Polônia cresceu artificialmente com a incorporação de territórios alemães, perdidos com o Tratado de Versalhes (1919).

Caro Marcelo, mais tarde tratarei do papel de Stálin durante a guerra e das suas concepções ideológicas.

Durma em paz.

 

Fernando,

Antes da guerra, Stalin removeu 3 dos 5 marechais da União Soviética; 13 dos 15 generais de 3 e 4 estrelas; 8 dos 9 almirantes; 50 dos 57 comandantes de corpos de exércitos e 154 dos 186 comandantes de divisões. E, ao contrário do que você diz, muitos deles eram "leais comunistas" com origens proletárias. Dos 3 marechais expurgados por exemplo, Yegorov nasceu em uma família de camponeses e Blyukher foi um operário de fábrica antes de ingressar no exército. Não há como negar que os expurgos stalinistas, não só nas forças armadas,  mas no partido em geral e na burocracia estatal enfraqueceram e desorganizaram a União Soviética tornando-a um alvo mais fácil para os nazistas.

Por outro lado, em relação à sua tese de que o pacto germânico-soviético de 1939 teria permitido à URSS "ganhar tempo" para se preparar para a guerra, cabe lembrar que, no ocidente, os revisionistas que buscam reabilitar figuras como o primeiro-ministro  Neville  Chamberlain alegam que o acordo de Munique de 1938 , que você denunciou com tanta ênfase na sua última mensagem, teria tido o mesmo "objetivo" no caso da França e da Inglaterra. Obviamente entretanto, os eventos da 1a metade da 2a Guerra  mostram que nem a França/Inglaterra nem a URSS "ganharam tempo" ou se preparam adequadamente para  o confronto com os nazistas.

Quanto a debater minhas "posições ideológicas", não creio que o Café História seja o fórum apropriado para isso, mas o debate é sempre bem-vindo. Historicamente, entretanto, esse debate dominou boa parte do século XX e, do meu ponto de vista, fico aliviado em saber que a facção coletivista que acredita  que "o interesse da maioria justifica o sacrifício de alguns" foi derrotada.

Stálin é o mais polêmico pq envolve o assunto II Guerra, assunto ainda fundamental em história. Fora que foi o mais bem sucedido. Deixou também livros teóricos importantes, teorizando desde os fundamentos do leninismo até a libertaçaõ da África e Ásia, ou seja, é um dos primeiros multiculturalistas.

Fernando: Stálin e o partido identificaram, julgaram e destrocaram a quinta-coluna de Hitler na URSS, que incluía trotsquistas, zinovievistas e oficiais czaristas como Tukachevsky.  Um dos motivos pelos quais ele ganhou a guerra foi esse. Na França a quinta-coluna fez com que o país perdesse em seis semanas e mesmo na Inglaterra havia os camisas-pretas de Mosley.

Os aliados ocidentais é que partilharam um estado, o estado tcheco, em 38. O pacto de 39 foi para proteger a Polônia! Se o governo polonês quisesse, poderia lutar nas regiões sob a influência da URSS. Mas eles preferiram fugir para a Romênia. Só então a URSS entrou.

O próprio Gorbachev alega q esse pacto de 39 só ocorreu pq os ocidentais quiseram jogar Hitler contra a URSS.

A Mongólia teve sua independência defendida contra o Japão numa aliança com a URSS em 39. O Japão foi derrotado. A mesma aliança foi proposta aos poloneses e recusada. Deu no que deu. Stálin já falava napossibilidade da invasão alemã em um artigo de 1927.

Fernando informa que

"Nesse tratado foi decidida a partilha da Polônia entre a URSS e a Alemanha e a colocação dos Estados do Báltico sob a influência soviética. O que eu nunca li aqui no Café História é o reconhecimento de que esses territórios, secularmente, pertenciam ao Império Russo, do qual foram tomados em virtude do Tratado de Paz de Brest-Litóvsky (1918), com o qual a Rússia se retirou da I Grande Guerra. Por esse tratado, a Rússia perdeu a Polônia, Ucrânia, Finlândia, Estônia, Letônia e Lituânia.

Portanto, com o tratado de 1939, a URSS apenas retomou o que era seu de direito. Sem querer me alongar muito, o mesmo vale a para a Alemanha, já que a Polônia cresceu artificialmente com a incorporação de territórios alemães, perdidos com o Tratado de Versalhes (1919)."

Se formos manter a conversa apenas nos anos stalinistas, sem  dar atenção ao que aconteceu antes é óbvio que a ocupação da Europa Oriental pelos soviéticos parecerá justa, necessária e benéfica. Chegaremos a conclusão que Stalin era uma espécie de justo herdeiro do império Romanoff e que apenas recuperou o que perdeu ao sair da primeira guerra pela porta dos fundos,  o que é uma hipocrisia atroz.

Stalin demonstrou ingenuidade ao achar que Hitler honraria algum pacto já que o nazi sistematicamente os vinha desrespeitando.

Stalin foi um líder. Só isso. Nada alem do normal, sem  heroismos, sem genialidades e tão tirânico quanto achou que precisava ser para manter-se no poder, o que aliás fez muito bem.

O  que salvou a URSS foram alguns sobreviventes aos expurgos alem é claro duma inabalável capacidade de resistência e reação do povo russo que suportou e venceu romanoffs,  stalines, nazistas e agora pena sob domínio de  máfias

Caro Sr. Brancaleone,

O Sr. sempre pareceu muito preocupado com a Polônia, que me parece que tem algum parentesco por lá. Mesmo que não tenha, minha observação será importante da mesma forma.

Afirmei que com o Pacto Germano-Soviético de Não-Agressão, de 1939, a URSS estava apenas retomando territórios que lhe pertenciam por direito. Isto porque em toda a história da humanidade nunca soube de um Estado que, voluntariamente, tenha cedido um território sob o seu controle. Até mesmo o Brasil se recusou a conceder a independência à Província Cisplatina, só a perdendo em função de derrota no campo de batalha. A História está recheada de casos. Veja na atualidade os casos do Reino Unido em relação às Malvinas; do Reino Unido em relação à Irlanda do Norte; da China em relação ao Tibete; da Espanha em relação ao país basco etc.

Como eu defendi, em outro fórum,  que o nacionalismo é não só positivo, como também indispensável, não quero que o Sr. me veja como incoerente. É lógico que, do ponto de vista dos poloneses, reconheço a legitimidade da luta deles pela autodeterminação.  

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