Os Evangelhos são livros históricos no sentido em que hoje compreendemos a História?

Esta é uma questão que tem sido contornada há quase dois mil anos. Nunca será tarde retomá-la. Os conceitos e as pesquisas progridem dinamizando o estudo da História. A vida é como um rio, as águas passam, mas o leito muda pouco. Assim sendo, novas visões podem apreciar antigos fatos.

Tags: cristianismo, evangelhos, religião

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Os Evangelhos, bem como o livro de Atos dos Apóstolo, o qual é uma continuação do Evangelho segundo Lucas, sem dúvida são excelentes fontes históricas sobre o cotidiano da Palestina no século I da era comum. Nestas fontes, temos uma visão do mundo olhada de baixo para cima e não uma crônica redigida pelos que bajulavam o poder político. O personagem central dessas 4 crônicas é Jesus Cristo cuja personalidade é marcante em todas as biografias com fortíssimas semelhanças. Além disso, há uma ótima relação dos fatos narrados com os períodos históricos que, no caso dos Evangelhos, vão desde o final do reinado de Otávio Augusto até Tibério, durante os 33 anos da vida de Jesus na Terra. A cultura judaica é muito bem retratada em diversos aspectos, seja nas narrativas dos fatos e nas parábolas de Jesus. Até os milagres são cheios de significado e despertam o interesse histórico quanto aos diálogos e acontecimentos relacionados.
Rodrigo,

O curioso dessa história é que ela não se confirma em outras fontes, senão nos textos cristãos. Numa cidadezinha como Jerusalém, de alguns milhares de habitantes, com ruazinhas estreitas, onde a vida privada praticamente inexistia, todos sabiam de tudo e de todos, como poderia um burburinho de tal magnitude ter escapado da pena daqueles que documentavam os costumes e a movimentação política com minúcias, quando fatos mais antigos e de menor importância eram registrados pelos judeus?
Prezado Ivani,

Caso tenha se referido ao enquadramento de Jesus como personagem histórico (não mais aos Evangelhos como fontes de estudo da História), posso fazer menção ao Testimonium Flavianum de Josefo, o qual menciona Jesus, conforme se lê no item 3 do capítulo 3 do livro 18:


"Havia neste tempo Jesus, um homem sábio, se é lícito chama-lo de homem, porque ele foi o autor de coisas admiráveis, um professor tal que fazia os homens receberem a verdade com prazer. Ele fez seguidores tanto entre os judeus como entre os gentios. Ele era o Cristo. E quando Pilatos, seguindo a sugestão dos principais entre nós, condenou-o à cruz, os que o amaram no princípio não o esqueceram; porque ele apareceu a eles vivo novamente no terceiro dia; como os divinos profetas tinham previsto estas e milhares de outras coisas maravilhosas a respeito dele. E a tribo dos cristãos, assim chamados por causa dele, não está extinta até hoje."


Além de Jesus, Josefo citou João Batista, conforme se lê neste outro trecho de sua obra:


"Mas para alguns judeus a destruição do exército de Herodes pareceu ser vingança divina, e certamente uma justa vingança, pelo tratamento dado a João, de sobrenome Batista. Porque Herodes o tinha condenado à morte, mesmo ele tendo sido um homem bom e tendo exortado os judeus a levar uma vida correta, praticar a justiça para com o próximo e a viver piamente diante de Deus, e fazendo isto se batizar.[...] Quando outros também se juntaram à multidão em torno dele, pelo fato de que eles eram agitados ao máximo pelos seus sermões, Herodes ficou alarmado. Eloqüência com tão grande efeito sobre os homens pode levar a alguma forma de sedição. Porque dava a impressão de que eles eram liderados por João em tudo que faziam. Herodes decidiu então que seria melhor atacar antes.[...] De qualquer forma João, por causa da suspeita de Herodes, foi trazido acorrentado à Machaerus, a fortaleza de que falamos antes, e lá executado, contudo o veredito dos Judeus era de que a destruição que visitou o exército de Herodes era vingança de João, que Deus achou por bem infligir este castigo à Herodes"
Caro Rodrigo,

Receio que o Testimonioum Favianum seja uma das fraudes mais conhecidas entre os estudiosos. Constrangido, mas ainda com alguma reserva de condescendência por causa do seu espírito cristão, o historiador Will Durant (1885-1981) se viu obrigado a declarar:

“Pode haver verdade nessas estranhas linhas; mas tão alto louvor dado a Cristo por um autor sempre atento em agradar aos romanos e aos judeus ─ dois povos em guerra contra o cristianismo naquele tempo ─ torna a passagem suspeita; os eruditos cristãos repelem-na como evidente enxerto.” (DURANT, 1971, p. 434)

DURANT, Will. César e Cristo. Rio de Janeiro: Record, 1971.

A questão fundamental está no porquê da necessidade de tantas fraudes. Isso acompanha a história cristã desde sempre. Quanto a João Batista, receio que os Evangelhos tenham tomado carona na história dele.
Se Josefo não fosse cristão, bem como não tivesse reconhecido Jesus como o Messias, e se os católicos fizeram alterações posteriores nas cópias de seus textos, ainda assim o Testimonium Flavianum permaneceria sendo uma fonte comprovadora da existência do principal personagem dos Evangelhos. Acho até possível que Josefo não fosse mesmo cristão, tanto é que Orígenes, no ano 240, não citou o Testimonium Flavianum, quando escreveu sobre a referência do historiador judeu a Tiago.


Assim, Menos polêmica do que o Testimonium poderíamos mencionar a passagem em que Flávio Josefo também cita Jesus, mas sem parecer crer nele como Messias, o que se encontra no final das Antiguidades Judaicas, sobre a situação política da Judéia na década de 60 do século I:


"E agora Cesar, tendo ouvido sobre a morte de Festus, enviou Albinus à Judeia, como procurador. Mas o rei privou José do sumo sacerdócio, e outorgou a sucessão desta dignidade ao filho de Ananus [ou Ananias], que também se chamava Ananus. Agora as notícias dizem que este Ananus mais velho provou ser um homem afortunado; porque ele tinha cinco filhos que tinham todos atuado como sumo sacerdote de Deus, e que tinha ele mesmo tido esta dignidade por muito tempo antes, o que nunca tinha acontecido com nenhum outro dos nossos sumos sacerdotes. Mas este Ananus mais jovem, que, como já dissemos, assumiu o sumo sacerdócio, era um homem temperamental e muito insolente; ele era também da seita dos Saduceus, que são muito rígidos ao julgar ofensores, mais do que todos os outros judeus, como já tinhamos dito anteriormente; quando, portanto, Ananus supôs que tinha agora uma boa oportunidade: Festus estava morto, e Albinus estava viajando; assim ele reuniu o sinédrio dos juízes, e trouxe diante dele o irmão de Jesus, o que era chamado Cristo, cujo nome era Tiago e alguns outros; e quando ele formalizou uma acusação contra eles como infratores da lei; ele os entregou para serem apedrejados; mas para aqueles que pareciam ser os mais equânimes entre os cidadãos, e igualmente mais precisos quanto as leis, eles não gostaram do que foi feito; eles também enviaram ao rei (Herodes Agripa II); pedindo que ele ordenasse a Ananus que não agisse assim novamente, porque isto que ele tinha feito não se justificava; alguns deles foram também ao encontro de Albinus, que estava na estrada retornando de Alexandria, e informaram a ele que era ilegal para Ananus reunir o sinédrio sem o seu consentimento. Albinus concordou com eles e escreveu iradamente a Ananus, e o ameaçou dizendo que ele seria punido pelo que havia feito; por causa disso, o rei Agripa tirou o sumo sacerdócio dele, quando ele o tinha exercido por apenas três meses, e fez Jesus, filho de Damneus, sumo sacerdote."
Caro Rodrigo,

Em Contra Celso, obra do já citado escritor cristão Orígenes, Josefo teria sido criticado por nunca ter citado Jesus, aliás, como Filostrato também o foi. Fosse o interesse de tantos pesquisadores, simplesmente, contestar a existência do Jesus histórico, uma falha coletiva tão antiga e de lavrada incompetência, ou seja, rejeitar-se o Testimonium Flavianum sem se tomar conhecimento do restante do texto, convenhamos, seria uma aberração. Perdão, mas fico com a evidência da fraude.
Em tempo! Respondendo á sua indagação "como poderia um burburinho de tal magnitude ter escapado da pena daqueles que documentavam os costumes e a movimentação política com minúcias", deve-se considerar que para os escribas judeus contemporâneos a Jesus não interessaria registrar os acontecimentos. A vida, a obra e a morte dde Jesus era algo que as autoridades religiosas daquele tempo tentaram a todo custo apagar. No Evangelho segundo Mateus, há informações de que os guardas romanos foram subornadospara divulgarem que o corpo de Jesus teria sido roubado pelos discípulos enquanto dormiam (cap. 28, versos 11 15). Já no livro de Atos, o autor informa que membros do Sinédrio judaico teriam ameaçado aos apóstolos para que não mais pregassem no nome de Jesus. Tudo isso confirma o interesse dos sacerdotes judeus em impor uma versão histórica e tentarem fazer o povo esquecer os acontecimentos.
Olá, amigos...

Só tenho a acrescentar, que à época que "deu-se o evento Jesus" , a história, a política e a religião, estavam intrinsecamente ligadas, de forma que quase não era possível separá-las, umas das outras, como o fazemos nos tempos modernos...

Ademais, também naquele tempo, e até muito depois, não se entendia a História da maneira como hoje entendemos... não havia um conceito sobre História... nem mesmo essa percepção...

Assim sendo, através dos Evangelhos podemos, não só perceber a narrativa histórica dos fatos, como também a articulação política de uma época e vários aspectos da vida social, incluindo-se o fator religião...
Caro Rodrigo,

O problema é que não dispomos de fontes não-cristãs sobre o assunto. Fica inviável o cruzamento das informações. Aí, meu caro, só a fé mesmo.
Mesmo que só existam fontes cristãs sobre Jesus, isto é, os Evangelhos bíblicos, as epístolas de Paulo e os questionáveis apócrifos, tenho grande respeito pelos estudos de Augusto Cury a respeito das 4 biografias que assim poderemos considerá-las. No livro Análise da Inteligência de Cristo, Cury faz uma uma abordagem do lado psicológico e comportamental de Jesus em O Mestre dos Mestres, concluindo que a personalidade de Cristo por ser complexa, misteriosa e de difícil compreensão comprova que ele jamais poderia ter sido um personagem inventado pelos apóstolos. O próprio autor afirma que antes teria sido um ateu convicto e acreditava que Jesus nunca existiu.


"(...) Eu analisei a inteligência de Cristo criticando, duvidando e investigando as quatro biografias de Jesus, os evangelhos, em várias versões. Estudei as intensões conscientes e inconscientes dos autores das suas quatro biografias. (...) O primeiro resultado é que descobri que o homem que dividiu a história não poderia ser fruto de uma ficção humana. Ele não cabe no imaginário humano. Ele andou e respirou nesta terra. (...)" - O Mestre Inesquecível. 31ª ed. São Paulo: Academia da Inteligência, 2003, págs. 249 e 250
Caro Rodrigo,

Esta obra não li. No entanto, já tive a oportunidade de conhecer outra semelhante. Estes casos dessas alegadas conversões não me impressionam. Quanto à inteligência desses autores, também não vejo nenhum embaraço. Já disse em outro fórum o seguinte:

Existe um grave erro no trato com as pessoas religiosas: o menosprezo à capacidade de assimilação do conhecimento e ao potencial da inteligência delas. Basta olhar o mundo ocidental, a inteligência religiosa triunfa. Daí a dificuldade de se mostrar um ângulo diferente sobre os mesmos fatos. Conhecimento e maturidade emocional são indissociáveis num bom debate.

Acabaram fazendo disso uma falácia, ou seja, inverteram o sentido da minha declaração como se eu desprezasse a inteligência religiosa. A falta de ética campeia. Mas, essa é uma outra história.
Caro Rodrigo,

Gostaria de saber qual o problema de se aceitar fontes cristãs? Elas não são confiáveis?

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