Os Evangelhos são livros históricos no sentido em que hoje compreendemos a História?

Esta é uma questão que tem sido contornada há quase dois mil anos. Nunca será tarde retomá-la. Os conceitos e as pesquisas progridem dinamizando o estudo da História. A vida é como um rio, as águas passam, mas o leito muda pouco. Assim sendo, novas visões podem apreciar antigos fatos.

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Minha opinião, que mais uma vez repito, é no sentido de não se poder argumentar em favor dos livros sagrados do cristianismo com base no que se contém neles próprios, pois isso constituiria uma "petitio principii".

A primeira menção a cristãos, em documento não escrito por cristãos, parece ser (corrijam-me, se estiver errado) a do livro 15 dos Anais de Tácito, que é de 116, aproximadamente. No entanto, a cópia mais antiga dessa obra nos chegou através do trabalho de monges copistas do século XI, de modo que sua autenticidade, na passagem que fala dos cristãos mortos por Nero, é sumamente contestável.

Para começar, ao falar de Cristo, a cópia em questão diz que ele "foi levado ao suplício pelo procurador Pontius Pilatum, quando Tibério era imperador" (traduzi livremente), e já aí a referência contém um erro que a denuncia como interpolada. É que Tácito fez carreira na administração romana, foi cônsul e procônsul, sabia perfeitamente a diferença entre um procurador e um prefeito, jamais chamaria Pilatus de procurador, quando ele era prefeito. Pior, os procuradores só passaram a administrar a Judéia no império de Claudio, muito depois de Tibério. Mas o monge copista que fez essa interpolação não sabia...

Tem mais: no mesmo local, a cópia de que se dispõe dos Anais de Tácito diz que Nero culpou e inflingiu extraordinárias torturas em uma classe de odiadas pessoas chamadas de "Christianos". No entanto, a palavra "CHRISTIANOS", mesmo na cópia do monge, aparece rasurada, tudo levando a crer que antes da rasura estivesse escrito "CHRESTIANOS". Recentemente, uma análise com luz ultravioleta efetivamente determinou que era um "e" a letra rasurada. Ora, "chrestos" em grego significa bom, caridoso, não cristão.

Esta minha postagem se reporta à página da Wikipedia intitulada "Tacitus on Christ", onde muito mais pode ser lido, em inglês. E qual poderia ser a intenção do monge que fez essas interpolações senão cobrir um silêncio de grande significado a respeito de Cristo e seus discípulos no primeiro século? Silêncio só coberto pelos Atos dos Apóstolos, inaceitáveis como prova?

Aliás, a norma sempre foi - e não pode deixar de ser - a de que a prova deve ser feita por quem alega o fato, não por quem o nega. Quem alega, portanto, a existência histórica de Cristo e do cristianismo no primeiro século que a prove. Mas não com os próprios livros sagrados do cristianismo, nem com peças copiadas, interpoladas e rasuradas.
Os livros considerados como sagrados não deixam de ser documentos e não foram escritos todos por um mesmo autor. Eu penso que até chegam a divergir entre si em alguns pontos e, se incluirmos os apócrifos, mais divergências teríamos.


Outrossim, argumentar com base numa crítica textual desses livros é totalmente válido. E se estamos a falar de provas, menciono que, num julgamento judicial, pode-se promover o depoimento pessoal da parte, o que, no caso da história, seria uma investigação do próprio texto sob vários pontos de vista, conforme cheguei a mencionar numa mensagem bem anterior neste debate. E será que encontraremos contradições nesses livros e que sejam capazes de comprometê-los? Tenho certeza que não!


Sendo assim, considero recomendável a análise profunda de todos os textos bíblicos do Novo Testamento, o que mais se justifica pela escassez de outras fontes.


Sobre os Anais de Tácito, em que pese a suspeita de rasura e o fato do documento ter ficado por séculos nas mãos dos monges, não podemos descartá-lo como uma fonte histórica válida.


Penso que o fato de Pilatos ter sido referido como procurador da Judeia e não como prefeito não pode ser considerado como suspeita relevante quanto ao documento. Pois se os Anais de Tácito foram escritos no século II, é possível que o autor tenha cometido um equívoco quanto ao cargo, deixando de prestar a atenção sobre mudanças a respeito da administração da província. Não que o autor desconhecesse a diferença entre um prefeito e um procurador, mas pelo fato de não ter prestado a atenção a respeito da divisão administrativa.


Para tanto, pense, Marcos, no seguinte exemplo. Suponha que, no ano 2100, um historiador resolva escrever sobre a biografia de Carlos Lacerda e que até lá a divisão administrativa brasileira permaneça tal como é hoje, exceto pelo aumento de municípios e de estado. Continuando, suponha que ao invés de dizer que Lacerda tomou posse como governador do Estado da Guanabara, ele acabe dizendo que o velho udenista foi eleito prefeito do Rio de Janeiro, ou simplesmente ignore que só em 1974 houve a fusão dos dois entes federativos.


Claro que para muitos de nós que pessoalmente, ou por nossos pais, vivenciamos estes fatos históricos (ainda existem pessoas portando cédulas de identidade do antigo Instituto Pereira Faustino) aparenta ser um grande erro de pesquisa. Porém, seria perdoável se for cometido por motivos de praticidade para melhor ensinar as pessoas sobre os nomes das autoridades que governaram a cidade do Rio de Janeiro. Algo que se fosse contado para alunos de 1º e 2º graus deve ser passado de maneira simples, com omissões de fatos históricos.


Assim, é possível que Tácito tenha contado a história com os olhos de quem vivia em pleno século II, assim como uma provável organização das memórias dos apóstolos em sua época pode ter sido desatenta quanto a alguns fatos peculiares às primeiras décadas do século I. Inclusive, os Evangelhos, segundo nossas traduções em português, também mencionam Pilatos como governador da Judeia, não como prefeito.
Concordo em que se podem usar os Atos dos Apóstolos como objeto de análise, para determinar quem os escreveu, se judeu ou grego; se viveu no primeiro ou no segundo século e que facção perfilhava na disputa cultural que predominava na época. Mas tomar livros sagrados – sejam quais forem - como prova histórica do que dizem é demais para mim. Seria o mesmo que aceitar o Bhagavad Gîtâ como prova da existência histórica de Krishna, Arjuna, etc.

A toda evidência, e sem querer ferir a susceptibilidade religiosa de ninguém, os textos sagrados que falam em Krishna, do mesmo modo que os que tratam de Cristo, não podem ser admitidos como prova de que um ou outro existiram. Nem vale o argumento de que a doutrina cristã, tão adiantada, voltada para o próximo, não pudesse ter sido criada por gente simples, como os primeiros seguidores de Cristo, pois a idéia da alteridade já fora prenunciada, séculos antes, pela religião do deus egípcio Aton, por exemplo.

Suponhamos que surgisse amanhã uma prova irrefutável de que Cristo não morreu na cruz sob Pôncio Pilatos, de que não era descendente de Davi. O cristianismo, como religião, deveria desaparecer? Só homens de pouca fé pensariam assim. Homens como o monge copista do século XI que interpolou as passagens que estamos discutindo nos Anais de Tácito. Achou que ninguém acreditaria em Cristo se não houvesse um documento que o provasse e saiu "canetando"... Depois, provavelmente, destruiu o original.

Mas a mentira tem pernas curtas. Além das discrepâncias já apontadas em minha postagem anterior, existe mais: entre o segundo século, quando Tácito os escreveu, e o décimo primeiro, quando o monge copista fez seu trabalho, vários autores cristãos, repito, cristãos, fizeram referência aos Anais. Entre eles, os insuspeitíssimos Tertuliano, Lactâncio, Sulpício Severo, Eusébio e – esse é imbatível – Agostinho, bispo de Hipona. Fez algum deles qualquer referência ao trecho que fala do suplício de Jesus por Pilatos, ou do martírio dos cristãos por Nero? Não, definitivamente não. Digam-me: como compreender esse silêncio se eles eram cristãos, se tudo o que desejavam é que houvesse um escrito não cristão demonstrando cabalmente a existência histórica de Cristo?

A explicação, de per si evidente, é uma só: aqueles notáveis cristãos, que escreveram depois de Tácito e que mencionaram os seus Anais não se referiram ao texto em questão porque ele ainda não estava lá, porque ele é realmente uma interpolação posterior.
Marcos,
Nessa história anatoliana Jesus Cristo só cabe como o reaproveitamento de um mito e de uma doutrina pré-existente. A possibilidade como possibilidade é uma coisa, mas esta possibilidade nesta estória, até hoje não se confirmou. Não foi gente simples que a difundiu pelo mundo criando uma nova cultura. Tampouco, essa gente simples se mostrou, em momento algum, além da literatura cristã. Chamei a atenção para dois momentos na história, em que os anatolianos escravizados e os seus descendentes tinham todos os motivos para se lembrarem tanto do mito quanto da doutrina.
Marcos!


O ideal de amor ao próximo pregado por Jesus (Mateus 22.34-40) já se encontrava no próprio judaísmo, inclusive na Torah, como um mandamento dado por Deus através de Moisés:


"Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amará o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR." (Levítico 19.18) - destacou-se


Se entre os egípcios, na religião de Aton (monoteístas?) seguiam princípios semelhantes, devem tê-lo aprendido com os hebreus. Inclusive já ouvi falar que a religião de Aton pode ter sido de adoradores do mesmo Deus dos hebreus dentro de uma concepção egípcia e não do sol, o que, todavia, carece de provas. Mas é provável que os egípcios teriam sido influenciados pelos hebreus e, no período de 4 séculos de escravidão, foi o povo dominante quem registrou a história. E a conservação dde toda a história dos hebreus neste período deve ter sido feita oralmente até Moisés e penso que este assunto daria um novo tópico (no fórum sobre Idade Antiga, se não me engano, estão discutindo algo sobre monoteísmo no Egito).


Entendi o que escreveu a respeito da ausência de provas da existência de Krishna, comparando-o com as fontes que temos sobre Jesus. O Bagavadguitá, datado se não me engano do século IV a.C., ainda não cheguei a examinar para poder comentá-lo, mas a interessante comparação de Krishna com Jesus Cristo indicia que os povos podem ter tido uma fonte comum no passado. A vinda de um Messias parece fazer parte da expectativa de diversos povos, tal como o dilúvio e a criação do universo. Em Gênesis, logo após a queda do homem, foi prometido o Messias que seria o descendente da mulher, quando Deus fala à serpente:


"Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar" (Gn 3.15)


Assim, os povos esperaram um prometido que, conforme consta nos Evangelhos, baseando-se na profecia de Isaías, trata-se do nascimento virginal do Messias Jesus. A história de Krishna, contudo, é vista como a encarnação de Vishnu, mais um avatar do deus hindu, retornando depois como o buda Sidarta Gautama, sendo que eles ainda esperam a vinda de Kalki montado em um cavalo branco e desembainhando uma espada flamejante, com a finalidade de restaurar o Darma e dando início a uma nova era Satya Yuga (onde o mal não existe). Claro que isto não é assunto principal deste debate, mas achei interessante compartilhar tais ideias.


Prosseguindo no debate, comentarei este trecho:


"Suponhamos que surgisse amanhã uma prova irrefutável de que Cristo não morreu na cruz sob Pôncio Pilatos, de que não era descendente de Davi. O cristianismo, como religião, deveria desaparecer? Só homens de pouca fé pensariam assim."


Posso dizer que a ausência de outras provas históricas não cristãs sobre Jesus não ocasionaria o desaparecimento do cristianismo, mas todo o sentido da fé cristã baseia-se no sacrifício expiatório de Jesus por ele ter morrido pelos pecados da humanidade e ressuscitado ao terceiro dia, tornando-se a primícia dentre os mortos. E, fundamentando-me na 1ª Epístola de Paulo aos Coríntios, se Jesus não ressuscitou, nós cristãos também não ressuscitaríamos de modo que o melhor a fazer seria comer e beber porque amanhã vamos morrer, o que seria viver o existencialismo de Salomão expresso em Eclesiastes tendo em vista a brevidade da vida.


Mas o episódio do monge pode trazer várias outras interpretações levando-nos a diversas indagações. Qual o por quê da rasura? Um erro de grafia do copista? Será que antes escrevia-se de um jeito e depois houve uma mudança? Ou seja, não é prova cabal de que o cristianismo seja uma fraude.


Penso que Eusébio e Agostinho não tiveram nenhuma preocupação quanto a questionamentos a respeito da existência de Jesus. Pois todo questionamento neste sentido pelo que sei parece ser algo recente e, deste modo, não podemos achar que os homens do passado tinham as mesmas preocupações do que alguns pesquisadores de nossa época. Logo, pra que Eusébio e Agostinho iriam fazer referências aos Anais de Tácito?
Considero essa discussão pertinente. Gostaria de saber de alguém aqui já leu "História do Judaismo Antigo" do Cyro de Moraes Campos?
Ainda não li esta obra. O autor chega a abordar o período da era cristã ou se restringe a uma fase anterior?


Mas já que estamos falando de livros, sugiro a leitura de "O que Jesus Disse? O que Jesus Não Disse?", de Bart D. Ehrman. Eis a descrição da obra no Submarino:


"O livro mostra a história que está por trás das alterações que eclesiásticos políticos e copistas ignaros fizeram no Novo Testamento, causando um impacto enorme na compreensão e interpretação da Bíblia que temos hoje. Aqui, pela primeira vez é revelado onde e por que essas mudanças foram feitas, para que os pesquisadores podem avançar na reconstituição mais fiel possível dos termos originais do Novo Testamento. Um livro para leigos, teólogos, historiadores... "
O autor avança até os primordios do cristianismo.
Obrigado, Hugo, pela sugestão de leitura. Sempre é válido conhecermos outros pontos de vista quanto à História.
Olá Hugo, não li este livro, mas gostaria, qual a editora e sabe dizer qual a formação do autor: Cyro de Moraes Campos? Abraço, Itamir, Brasília.
Prezado Ivani,


Fiz atentamente a leitura de seu e-book, observando, inclusive, as referências ali citadas. O conteúdo histórico pesquisado é de ótima qualidade, muito embora eu discorde das conclusões (não de todas). Procurei ser objetivo e focar na questão principal suscitada que seria a influência do helenismo sobre o Cristianismo como sendo tal a sua origem e não o judaísmo. Sendo assim, paço a fazer meus comentários à sua obra e peço que leia com paciência.


Antes de adentrar no assunto principal, devo fazer uma breve observação quando escreveu na introdução que o islamismo também seria uma cultura heleno-judaica, o que careceu de um indispensável aprofundamento. Vale lembrar que, quando surge o islamismo, o helenismo já havia dado lugar ao cristianismo de modo que Maomé entrou em contato com as culturas cristãs, judaica e pagã, quando criou o Islã. Logo, mesmo que se admita por hipótese que o cristianismo seja heleno-judaico, seria o islamismo uma cultura cristã-judaica.


No capítulo I, eu não teria muito o que debater e o que me chamou a atenção foi ter mencionado sobre influências indianas sobre o cristianismo, conforme se lê nas páginas 11 e 12:


“O hábito cristão de rezar com as mãos postas junto ao peito e o batismo (imersão) são hábitos religiosos de origem hindu”.


No entanto, o baptisma, como bem mencionou, trata-se de uma imersão, sendo que já era uma cerimônia bem conhecida e utilizada por prosélitos que se convertiam ao judaísmo e como sinal de arrependimento (Lv 15:13; Nm 19; Is 1:16; 44:3; Jr 4:14; Ez 36:25; Zc 13:1). A diferença é que no judaísmo era praticada a auto-imersão enquanto que no cristianismo e também para João Batista era necessário um ministrador. Talvez até fosse uma prática comum em várias religiões que davam aos rios um status de coisa sagrada.


Prosseguindo, concordo com a citação de Paul Johnson na página 15, no sentido de que as revoltas judias contra Roma nos bases nos conflitos com a cultura helênica, mas creio que existissem outros fatores como a pesada carga tributária. Acredito que houve períodos de bom relacionamento entre os ashmoneanos e Roma, sendo que no livro deuterocanônico de Macabeus I, presente na Septuaginta e no AT católico, fala na aproximação com Roma durante a resistência ao helenismo na Judeia.


Na página 17 de seu texto, tem-se ali uma polêmica citação de Richard Hosley dizendo que até meados do século III ainda não existiam sinagogas na Galileia. Primeiramente, não foi demonstrado por que razão inexistiriam sinagogas na Galileia nos séculos I e II. Mesmo que não existam fontes históricas além dos Evangelhos sobre a existência de sinagogas na Galileia, também não há provas da inexistência.


Como se sabe, a reunião entre judeus no exílio babilônico careceu de um local para que pelo menos algumas atividades religiosas de oração, adoração, ensino das crianças e vida comunitária pudessem ocorrer no século VI a.C, já que não existia mais o Templo salomônico que fora destruído por Nabucodonosor. Como o retorno dos judeus à Palestina não foi total e muitas famílias judias espalharam-se pelos domínios persa, grego e romano, foi mantido o hábito de reunião nas sinagogas, mesmo com a construção do Segundo Templo.


Mesmo na Palestina, as sinagogas foram construídas porque não era possível que nas cidades situadas em regiões mais distantes de Jerusalém as pessoas pudessem dirigir-se ao templo com frequência, de modo que, certamente, os galileus se reuniam em algum local nas suas cidades, conforme é descrito nos Evangelhos. E, segundo o Talmud, na própria Jerusalém chegaram a existir 394 sinagogas em funcionamento, o que indica um enfraquecimento do poder centralizador dos sacerdotes e o crescimento das facções religiosas.


Registre-se ainda que, embora o judaísmo não exija um local específico para as orações pessoais, certas rezas requerem a presença de um minian, o quorum mínimo de 10 homens. Deste modo, as comunidades judaicas certamente precisavam se encontrar num local para realizarem suas orações coletivas, seja construindo uma casa ou adaptando um cômodo, bastando que houvesse um rolo da Tora, o que serve como indício suficiente para confirmar que nos séculos I e II existissem sinagogas na Galileia.


Interessante é que os Evangelhos também confirmam o preconceito que havia contra os galileus na Judeia. Pode-se dizer que os galileus eram tidos como se fossem “caipiras”, mas foram ferrenhos opositores aos costumes greco-romanos no século I. Aliás, é no ano 6 que se estabelecem os zelotes, liderados por Judas, o Galileu, numa revolta contra Roma, inspirando-se nos Macabeus. Em seu ministério, Jesus teve um discípulo conhecido por Simão, o Zelote, segundo Lucas. Sendo assim, não vejo fundamentos para afirmar que o surgimento dos zelotes tenha ocorrido durante o governo de Félix, conforme consta na página 17 do seu livro eletrônico.


É bem provável que Félix tenha tomado medidas severas contra os judeus, muito embora fosse casado com Drusila, neta de Herodes, o Grande. Porém, não seria demasiado supor que os funcionários de origem grega do alto escalão do Império Romano tivessem uma constante preocupação em destruir o judaísmo? Pois penso que deveriam ter outros objetivos em mente, sendo que para Roma importava pacificar a Palestina, receber seus tributos e controlar as ameaças de invasão na fronteira leste do império.


Continuando, na página 21, considerei confusa esta conclusão:


“Apesar de tanto, o envolvimento cultural faz pouco caso da inteligência e não deixa ver o quanto é estranho o acatamento do Antigo Testamento. Não faz sentido se adotar o livro sagrado de um povo sob tamanha inclemência crítica e seguir orientado por suas tradições. Se a luz da História ainda não ilumina aí, é porque ainda não iluminou a si mesma”.


Apesar de não ter compreendido satisfatoriamente o que colocou, bato na tecla de que o AT na Bíblia cristã é fundamental para a compreensão do NT, o qual é firmado num passado do povo israelita. Além disso, os escritores do NT costumavam recorrer à autoridade das Escrituras hebraicas, existindo cerca de 250 citações diretas do AT no NT e, aproximadamente, 1000 alusões claras, conforme se lê no artigo “O Antigo Testamento no Novo Testamento” de Dick France:


“[...] Os primeiros cristãos estavam tão familiarizados com o AT que a linguagem deste lhes vinha como que ao natural. Veja dois exemplos: Nas bem-aventuranças (MT 5.3-10), o AT não chega a ser citado, mas os vs. 3-4 se baseiam claramente em Is 61.1-3, e o v. 5, em Sl 37.11. Além disso, para cada uma das expressões pode ser encontrado um paralelo aproximado no AT. O livro do Apocalipse não contém nenhuma citação formal, mas do começo ao fim se baseia em textos do AT, especialmente de Daniel, Ezequiel e Zacarias. Sem dúvida, às vezes eles usavam linguagem bíblica familiar porque era parte de seu vocabulário formal. Outras vezes citavam textos legais e éticos como guias contínuos para a vida do povo de Deus. Mas, muitas vezes, quando citavam ou faziam referência ao AT, tinham um propósito teológico mais específico. Eles acreditavam, como o próprio Jesus havia deixado claro, que ele viera cumprir o que havia acontecido no passado, e gostavam de fazer conexões e traçar paralelos. Frequentemente os escritores do NT mostram como as previsões dos profetas do AT se cumpriram nos fatos da vida, morte e ressurreição de Jesus, e continuavam a se cumprir no crescimento da Igreja de Jesus. Mateus inclui em seu Evangelho uma dezena de citações que começam assim: “Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta” (Mt 1.22-23; 2.5-6,15,17-18,23, etc.). As primeiras pregações cristãs registradas em Atos estão cheias de afirmações do cumprimento das Escrituras (p.ex. At 2.25-36; 3.22-26; 13.32-41). Algumas passagens aparentemente eram favoritas e são citadas repetidas vezes (p.ex. Sl 110.1; 118.22; Is 53; Dn 7:13-14) […] Às vezes, os escritores do NT apelavam a passagens que não eram propriamente previsões do futuro, mas que ainda assim consideravam ter sido “cumpridas” com a vinda de Cristo. Jesus havia feito várias reivindicações desse tipo (p.ex. Mt 12.3-6,40-42; 13.13-14; Mc 7.6-7), mas o uso mais amplo desse método se encontra em Hebreus. Ali, o autor analisa as pessoas e instituições mais importantes do Israel do AT, especialmente o culto do tabernáculo, e mostra como se cumpriram em Jesus […] Pessoas, instituições e acontecimentos do AT são considerados “tipos” (modelos prefigurações) da obra decisiva de Deus que aconteceria com a vinda de Cristo. O objetivo da tipologia é mostrar que Jesus cumpre, não só as previsões explícitas do AT, mas toda a sua estrutura, e deixar claro que sua vinda é a concretização completa e definitiva da obra de salvação realizada por Deus ao longo dos séculos […] A maioria das citações do NT reflete o texto da tradução grega da Septuaginta, que muitas vezes difere do hebraico. Ás vezes parece que eles citam outras formas do texto, tais como se encontram hoje nos targuns (paráfrases) aramaicos […] Depois que os primeiros cristãos se deram conta de que Jesus era o cumprimento do AT, eles começaram a lê-lo, não apenas pelo seu valor em si, mas à luz desse cumprimento. Assim, encontraram indicações ou profecias a respeito de Jesus em passagens nas quais outros judeus não as encontravam, e estavam dispostos a fazer uso de certa liberdade de interpretação [...]”


O fato de ter me alongado na citação acima é porque o texto trás informações bem pertinentes, revelando um profundo conhecimento dos escritores do NT pelo AT, principalmente no que diz respeito às tipologias, uma belíssima interpretação das Escrituras hebraicas feita pelos cristãos. Logo, não é estranha a afirmação de Irineu criticada na página 29 de seu e-book.


Acrescente-se que o fato do NT, mais precisamente no Apocalipse, apontar para a reconstrução do paraíso perdido pelo homem através da Nova Jerusalém, reforça mais ainda a dependência do AT. Assim, a Bíblia cristã começa com um casal vivendo em harmonia no Éden e termina com a humanidade redimida na nova criação de Deus. São os novos céus e as nova terra, com um rio e a árvore da vida.


Passando agora à questão do culto ao imperador, achei bem interessante ter relacionado tal prática com a cultura anatoliana, a qual, por sua vez, foi influenciada pelos persas e babilônicos, embora seu texto deixe transparecer uma ideia um tanto conspiracionista quando diz que se tratava de um plano de poder dos helenistas. Pois mesmo que as elites da Ásia Menor tivessem o interesse de manipular o movimento cristão, isto só pode ter ocorrido no momento em que a nova religião tornou-se representativa naquela região oriental do Império Romano.


O imperador representou uma espécie de anticristo para os cristãos. A palavra anticristo significa um substituto de Cristo e não propriamente um adversário de Cristo. Assim, Augusto com a sua “Paz Romana”, apresentou-se como um “messias” para o mundo de sua época, sendo que até as moedas eram cunhadas com títulos ou imagens dos imperadores.


Neste sentido, considero oportuno transcrever citações no artigo “O culto ao imperador e o Apocalipse” de J. Nelson Kraybill, publicado no Manual Bíblico da SBB, páginas 766 e 767:


“Durante a “Paz Romana”, a partir de 31 a.C., cessaram, em grande parte, as guerras civis, os piratas foram banidos do mar, e o comércio pôde florescer. Em 29 a.C., as elites da Ásia Menor, em sinal de gratidão, pediram permissão a Otaviano (o novo líder mundial, que viria a ser conhecido como César Augusto) para que pudessem cultuá-lo como se fora uma divindade, na cidade de Pérgamo. Otaviano autorizou esse novo culto em honra tanto a Roma (a deusa Roma) quanto a Augusto (o Imperador). João de Patmos, ao escrever o Apocalipse, se refere a Pérgamo como o lugar onde fica o “trono de Satanás” (Ap. 2.13). A partir desse pequeno precedente desenvolveu-se o costume de honrar o Imperador como deus, prática difundida em todo o Império. Após a morte de César Augusto, em 14 d.C., o senado de Roma declarou que ele era divino, permitindo a Tibério (14-37 d.C.), filho adotivo e sucessor de Augusto, denominar-se “filho de um deus”. Este e outros títulos, como “salvador do mundo”, atribuído a imperadores do primeiro século, são os mesmos que os cristãos deram a Jesus […] É possível que, ao escrever o Apocalipse, João de Patmos estivesse preocupado com esse culto ao Imperador. Muitos eruditos entendem que “a besta que emerge do mar” (Ap 13.1-10) é uma referência ao Império romano com as suas “sete cabeças” (sucessão de sete imperadores), cada qual trazendo “nomes de blasfêmia” (títulos de deificação). A segunda besta (Ap 13.11-18) pode representar a vasta corporação de sacerdotes a serviço do culto ao Imperador, muitos dos quais tinham posição de liderança na política e no comércio da parte Oriental do Império. Esse grupo de sacerdotes “faz com que a terra e os seus habitantes adorem a primeira besta” (Ap 13.12). A observação de que “ninguém podia comprar ou vender, a não ser que tivesse esse sinal (da besta)” (Ap 13.17) pode ser uma referência ao fato de que a participação nesse culto ao Imperador era quase que obrigatória para quem, no final do primeiro século, queria fazer negócios com associações comerciais e instituições financeiras.”


Outrossim, vejamos o que consta numa inscrição encontrada numa das cidades antigas da Ásia Menor que é datada do século 3 a.C.:


“No terceiro ano a partir do décimo segundo consulado do Imperador César Augusto, filho de um deus... o seguinte juramento foi feito pelos habitantes da Paflagônia e pelos comerciantes romanos que moram entre eles: Juro por Júpiter, Terra, Sol, por todos os deuses e deusas, e pelo próprio Augusto que serei leal a César Augusto e a seus filhos e descendentes durante toda a minha vida, em palavras, ações, pensamentos, considerando amigos os que eles consideram amigos... que na defesa dos interesses deles não pouparei corpo, nem alma, nem vida, nem filhos...”


Evidente que nem judeus e nem cristãos poderiam participar desse culto ao imperador romano, sendo que o Apocalipse surge como uma mensagem de encorajamento afim de que as igrejas enfrentassem as perseguições. É o que diz o artigo “Para entender o Apocalipse” de Richard Bauckham:


“O Apocalipse é uma carta circular enviada às sete igrejas da província romana da Ásia (1.4), no final do primeiro século da era cristã. As mensagens a essas igrejas (caps. 2-3) não são, em si mesmas, cartas, mas introduções (uma para cada igreja) ao restante do livro (…) Conclama esses leitores e ouvintes a participarem da vitória de Deus sobre as forças anticristãs daquele tempo e lugar, ou seja, o poder e a influência de Roma e da cultura pagã. Como revela uma leitura das sete mensagens, nem todos aqueles cristãos estavam sendo perseguidos. Muitos deles estavam se safando da perseguição, adaptando-se ao poder de Roma e aos costumes pagãos (…) O Apocalipse é, também, profecia apocalíptica. Os primeiros leitores desse livro estavam muito mais familiarizados com a literatura apocalíptica (encontrada também, na Bíblia, em Dn 7-12) do que nós. O propósito das visões repletas de imagens e figuras não era ocultar ou obscurecer, mas evocar uma compreensão imaginativa. O significado do simbolismo é transmitido, em muitos casos, através de alusões ao AT ou através de alusões a fatos do mundo em que viviam os primeiros leitores (…) mas esse mundo é visto sob uma perspectiva bem diferente daquela que caracterizava a ideologia dominante daquele tempo. Essa perspectiva bate de frente com a ideologia imperial romana, desmascarando o engano da idolatria e revelando, em seu lugar, a verdade última das coisas. Apesar das evidências em contrário, o poder supremo não pertence à “besta”, mas a Deus. E a vitória final será alcançada, não por meio da violência, mas através do testemunho da verdade em meio ao sofrimento. Ao dar aos leitores a possibilidade de entender isso de forma imaginativa, as visões os capacitaram a fazer frente às mentiras da besta e seguir a Cristo em sua fidelidade sacrificial, que se dispõe até mesmo a enfrentar a morte (…) O objetivo do Apocalipse não é o de simplesmente informar a respeito do futuro, mas de capacitar os cristãos a viverem do jeito que o propósito final de Deus para o mundo exige.”


Ora, tal livro que é o último do cânon do NT já demonstra um grande conflito na Península Anatólia entre cristãos e helenistas que prestavam o culto ao imperador na Ásia Menor, de modo que não poderiam os helenistas ter inventado o cristianismo, ainda que os gregos convertidos tenham trazido para dentro da Igreja o pensamento filosófico a partir do século II, ou quiçá no próprio século I.


Em seu texto, mais precisamente nas páginas 28 e 29, teria sido a partir do governo de Antonino Pio que os helenistas teriam começado a propagandear a cultura cristã em Roma. No entanto, desde Nero, já existiam perseguições aos cristãos. Além disto, há uma passagem interessante no Apocalipse quando fala da grande meretriz (caps. 17 e 18), em que Roma pode muito bem estar sendo comparada com a Babilônia. Tal metáfora da prostituição é usada frequentemente no AT para retratar a infidelidade espiritual de Israel (Is 1:21; Jr 2:20; 3:1; Ez 16:15; Os 2:5; 3:3; 4:15),sendo que a meretriz no Apocalipse parece representar uma capital do império da besta (Ap 17:18).


É possível que, com o fracasso do culto ao imperador, não só as elites anatolianas como os romanos resolveram aproveitar-se do cristianismo que alcançava as camadas mais humildes da população do Império. Assim, os helenistas passaram a ter cada vez mais interesse pelo cristianismo em ascensão, sendo possível que, num certo momento, houve uma deturpação do próprio cristianismo para justificar medidas anti-semitas e as autoridades se aproveitarem do universalismo do NT.


A respeito do idioma em que foi escrito o NT, sabe-se que o koiné era a língua comum na parte oriental do Império Romano. É provável que apenas Paulo e Lucas soubessem o grego, sendo certo que as epístolas são anteriores aos Evangelhos. Contudo, suponho que os apóstolos tenham deixado alguns registros em aramaico, ou passado à Igreja uma tradição oral sobre a vida de Jesus, e que vieram a ser escritos em grego passando por melhoramentos até o final do século II (até hoje a Bíblia ainda é aperfeiçoada através de pesquisas nos manuscritos) até ganharem um estilo mais adaptado a origem dos leitores.


Suponho eu que documentos em aramaico ou hebraico tenham sido escritos, mas que, devido à destruição de Jerusalém, em 70, tais provas históricas teriam sido eliminadas, bem como a respeito da existência de uma comunidade judaico-cristã em Jerusalém.


Quanto aos apologistas, as críticas de Edward Gibbom não invalidam os escritos de Justino como fontes históricas e o respeitável historiador não o descarta. Por sua vez, não se pode falar da ausência absoluta de historiadores verídicos nos séculos II, III e IV da era cristã. Fraudes podem ter ocorrido por corrupção do clero quanto aos princípios cristãos, mas não significa que tenham alterado tudo completamente. Eusébio de Cesareia, por ter sido um seguidor de Constantino, tornou-se uma fonte de informações que deve ser examinada com reservas, mas não impede um trabalho de investigação da verdade quanto aos seus documentos.


No século IV, embora o cristianismo tenha se tornado a religião oficial do Império Romano, também testemunhou o começo de sua queda. Nota-se também que Roma era mais um patriarcado dentre outros, sendo que, em meados do século V, com o Concílio de Calcedônia, é que houve um duro rompimento do universalismo católico.


Bem, sei que não devo ter conseguido comentar todos os aspectos de seu trabalho, mas resolvi focar no que ainda não havia comentado neste debate para não me tornar repetitivo e trazer novas informações que poderão ajudá-lo na sua pesquisa.


Apesar de discordar de muitas das suas conclusões, concordo com várias questões levantadas e sabemos que, a partir do século II o cristianismo de maioria grega passou a se utilizar da filosofia. Considerando que, na primeira metade do século II, a comunidade judaico-cristã possa ter sido extinta tivemos a partir de então o desenvolvimento de uma cultura cada vez mais próxima dos valores helenistas, distanciando-se do judaísmo.


A princípio o cristianismo não agradava às elites da Ásia Menor. Porém, no momento em que a cultura cristã foi crescendo entre as camadas mais humildes, pode ter surgido o interesse de manipulação do cristianismo.


Os Evangelhos até podem ter sido escritos no século II, mas, neste caso, foram baseados nas “memórias dos apóstolos” referidas por Justino, isto é, em possíveis documentos em aramaico e nas tradições orais. A geração que tinha conhecido os apóstolos e os pregadores do século I estava passando e, se os documentos do cristianismo não fossem preservados, haveria um grande prejuízo para a posteridade.


Seja como for, a fonte não estava no século II, mas no século I. E, se de fato foram os gregos quem transformaram as memórias dos apóstolos em romances redigidos em koiné, fizeram as mais belas obras literárias com a mesma inspiração dos escritores do AT, dignas de fazerem parte das Escrituras bíblicas. E, ainda que tenham ocorrido modificações acidentais ou intencionais, o conteúdo principal dos Evangelhos e dos demais documentos do NT permaneceram preservados até os nossos dias, exercendo uma forte influência sobre seus leitores em todo o mundo.


Afirmar que Jesus Cristo não tenha existido, carece de provas históricas, mas não se descarta a possibilidade de que, na época de Eusébio, por exemplo, os líderes da Igreja transmitissem uma ideia helenizada do Messias. A Bíblia, com o tempo, tornou-se fonte de consulta exclusiva dos padres, o que favorecia a manipulação religiosa, numa tentativa de encobrir a Verdade, visto que os Evangelhos são testemunhos vivos contra o poder institucional da religião, apto para desmascarar todas as mentiras dos que se aproveitam da fé cristã.
Creio que temos avançado e, mesmo que cada qual mantenha seus pontos de vista, vamos encontrando concordâncias e compatibilidades. Confesso que aprendi muito com esta discussão aqui no Café História.

Também terminei de ler o livro do Ivani, e quero cumprimentá-lo com toda franqueza pela magnífica pesquisa histórica que fez, pela idéia muito feliz de atribuir papel primordial à cultura grega no surgimento do cristianismo. Parabéns!

Não sei se algumas observações críticas cabem aqui, tenho evitado me alongar. Temo também que, reagindo imediatamente após a leitura, cometa a injustiça de me precipitar, de não aguardar a decantação do que foi lido, aliás com gula e grande satisfação.

Com essas ressalvas, minha primeira crítica é ao tamanho do trabalho. Creio que um assunto fascinante como esse mereceria maior desenvolvimento; os argumentos se sucedem em uma cadência elevada, não ficaria mal prolongar um pouco mais cada tópico para explicar e ilustrar mais em detalhe o pensamento do autor.

Um outro ponto, no qual o Rodrigo já tocou, é que, do modo como a tese foi lançada, o leitor desavisado pode ficar com a impressão de que se está falando de uma conspiração grega contra a cultura judaica. Embora as conspirações efetivamente existam, nada autoriza a suposição de que o apoio dado pelos helenistas ao cristianismo nos primeiros séculos tenha sido conscientemente tramado e urdido para liquidar premeditadamente o judaísmo. Que aconteceu, já não tenho dúvidas, mas não creio que tenha sido fruto do voluntarismo helênico.

De todos os argumentos que já ouvi para justificar a divindade de Cristo, o melhor até agora foi o de que as idéias lançadas por ele e constantes do Novo Testamento são tão mais avançadas do que as vigentes em seu tempo que não poderiam ser fruto do pensamento humano da época. Com efeito, a preocupação com o outro, com os que estão em situação de inferioridade econômica e social, até hoje não encontra respaldo na maior parte das pessoas, mesmo nas que se dizem cristãs. Como poderia um grupo de homens ignorantes, pescadores, pequenos comerciantes e artesãos ter imaginado algo tão grandioso e avançado há dois mil anos? Milagre?

Seu trabalho, Ivani, se dirige exatamente contra essa construção clerical, e é o primeiro que vejo atingi-la em cheio. No entanto, eu gostaria de ter lido ali um pouco mais sobre o ponto que para mim é capital, ou seja, que aquela doutrina tão avançada para os judeus da época não o era para o pensamento que para eles convergia das culturas helenística, babilônica, persa e até romana.

Talvez não seja inoportuno invocar Hegel aqui: o judaísmo seria a tese, o pensamento grego a antítese e o cristianismo a síntese. Tudo muito naturalmente.

Conto que você, Ivani, não se ofenderá se eu acrescentar que uma revisão ortográfica final não
seria demais em uma obra tão fascinante quanto a sua. Há umas coisinhas, minúcias, uns nadas, mas que custaria tão pouco eliminar...

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Somos tão jovens

Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.

Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.

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