A frase atribuída ao francês Luís XIV, mostra bem quem mandava na política na Idade Moderna: os reis. Como eles adquiriram e puseram em prática tal poder absoluto?

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Não foram só eles. A dominação se dá de diversas formas, mas a mais utilizada mesmo é o terror.
Você pode ter poder sobre outras pessoas fazendo com que elas dependam financeiramente de você - O Estado arrecada tudo, deixando o povo ser recursos. Tudo o que o povo necessitasse era preciso pedir ao Estado. Mas o medo, o terror era a melhor arma. Montava-se um exército e ele era o peso da balança. Um exército forte era sinonimo de dominação.
Esse negócio de "líder carismático" e etc, é um pouco de inocência. Poder era sinônimo de força. De total falta de compaixão.

Caro Reinaldo, permita-me discordar.

 

O Absolutismo Régio francês não se construiu apenas com base no medo. Recorde-se que, não muito antes, os monarcas franceses medievais não tinham qualquer poder, eram joguetes dos nobres poderosos como os Duques da Borgonha, os Duques da Aquitânia ou os Condes da Flandres. Se, nessa altura, um monarca tentasse essa via, era assassinado pelos nobres e colocava-se outro mais dócil no lugar, um irmão menor, de preferência.

 

O poder dos reis esteve sempre dependente de em quem eles se suportavam para governar. Uns suportavam-se no apoio firme da nobreza. Ela tinha dinheiro, tinha capacidade de mobilizar exércitos privados. Os monarcas fizeram-no, até que a nobreza se apercebeu do próprio poder, e do quanto o rei era dependente de si. Começou então a falar mais alto e a anular a figura do Rei. Veja os últimos reis merovíngios e compreenderá isso. Quem era Carlos Magno quando nasceu? Não tinha uma pinga de sangue real! Era apenas o Prefeito do Palácio. E quem era Hugo Capeto? Um nobre com pouco sangue real, mas mais poderoso que o rei. Houve até um rei que subiu ao trono porque perguntou ao Papa "quem deve ser o rei? quem tem o título, ou quem exerce o poder de facto?" O papa decidiu por esse nobre ousado, cujo nome me esquece agora.

 

Como vê, o medo não leva a nada nestas situações. Não é com fel que se apanham moscas. O que os reis franceses fizeram foi ir casando, estrategicamente, de modo que as grandes casas aristocráticas voltassem, gradualmente, à posse do rei francês. Claro, a Guerra dos Cem anos ajudou. Apesar de ter perdido quase todas as batalhas, a França venceu essa guerra ao conseguir o seu objectivo: tomar o controlo das posses inglesas no território francês: a Normandia, a Bretanha e a instável Aquitânia, que muitas vezes mudou de mãos consoante os casamentos.

 

Já no período do Absolutismo, encontramos uma nobreza domesticada, leal ao seu rei porque depende dele financeiramente. Luís XIV foi um hábil jogador político. Ao forçar nobres e prelados a viver em Versalhes forçou-os a abandonar os seus castelos, que deixaram de ter a rentabilidade que tinham e passaram a dar prejuízo, o que arruinou muito os nobres e prelados, assim como a competição pelo luxo, que fazia os nobres esbanjarem para "parecer bem". Uma nobreza empobrecida dependeria de quem lhe desse dinheiro... que era o Rei, através de tenças. O Alto Clero também seguiu o mesmo caminho.

 

Quanto ao Povo... o Povo em França pouco contava. Em Portugal ainda existiam as Cortes, mas em França o Povo limitava-se a viver o seu dia-a-dia. O maior medo que poderiam ter era das fomes, pestes e guerras, por motivos óbvios, dado que morriam, perdiam as colheitas, eram roubados por salteadores, não conseguiam pagar os impostos e, em caso de guerra, eram alvos fáceis a pilhagens de exércitos que passassem, bem como eram imediatamente recrutados (o recrutamento era terrível para a economia quotidiana de uma família desta época). Não havia mais que pedir ao Estado ou ao Rei, por parte do Povo. Quanto à existência de exércitos fortes, diga-se que nesta altura não havia disso. Os exércitos profissionais limitavam-se às guardas privadas do rei e escoltas de senhores, nunca muito grandes. Existiam ainda milícias em alguns sítios, comparáveis à Polícia actual. Mas os exércitos em si não existiam a tempo inteiro. Eram recrutados quando havia guerra e depois eram dispensados.

 

Quanto ao carisma do Rei... para o Povo pouco contava, só o viam nas moedas. Para os de Paris, esses, ainda podiam vê-lo muito ocasionalmente em paradas e desfiles. O carisma é argumento válido apenas para quem o rei se mostrava: o Alto Clero e a Nobreza frequentadora da Corte. E para esses, o Rei tinha carisma simplesmente por ser rei, por ter o poder, que por vezes podia ser usado com compaixão.

 

Filipe Neto

Filipe: muito bem detalhada a sua explanação e por isso só queria fazer um complemento. Todos os fatores foram bem comentados e explicados. Não sei se lerá essa resposta minha, mas sempre prezo pelas boas colaborações que só nos inspiram a fazer o mesmo. Nisso só queria complementar com a ideia da teoria do direito divino que foi uma teoria criada durante a Idade Média, no auge do absolutismo para justificá-lo.


Sobre ela os principais argumentadores da teoria foram Jean Bodin e Jacques Bossuet, franeses que justificaram a monarquia absolutista na França, sobretudo do reinado do "Rei Sol", Luis XIV. De acordo com essa teoria o rei era o representante de Deus na terra, o enviado d'Ele para governar seu povo, o que dava ao monarca o poder absoluto. Numa escala de poder, o rei estava abaixo de Deus, e abaixo do rei, a lei e o clero. Logo em seguida, mandavam os nobre e por último o povo.

Um abraço a você e a Thays

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