Pode-se-ia escrever a História do Séc. XX exclusivamente através de sua música. Para muitos foi um século inconvenientemente barulhento, onde a urbanização crescente somada ao avanço tecnológico povoou o cotidiano humano de uma ilimitada e caótica quantidade de sons e ruídos a ponto de transformar ou “transtornar” a sensibilidade coletiva de modo realmente sem procedentes.
Abordando um ponto especifico da cacofonia moderna, diria que a reprodutividade técnica ilimitada de execuções musicais desmistificou e desritualizou a experiência musical ao tornar possível, em qualquer lugar e hora do dia, preencher nossas vidas e momentos com música. Sem isso seria impossível pensá-la como como um elemento produtor de sociabilidade, de exercício de vida interior em êxtase participatório ou comunitário que em alguma medida realiza o não verbal da vida e de nossa condição humana.
Foi através da difusão do radio e depois do long play que a sonoridade converteu-se em suporte de uma cultura, em um habito social identificado principalmente com os jovens e seus acervos musicais cultivados com tanto gosto e carinho como antes se mantinha uma biblioteca. Mas foi nos Estados Unidos e na Europa do pós guerra que essa nova cultura consolidou-se definitivamente com o advento do Rock in Roll iniciando um dos fenômenos mais curiosos do século

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Caso tivesse de definir em termos musicais o século XX, daria certamente uma dupla resposta: Em sua primeira metade o Jazz seria seu estilo ou configuração musical mais rica e fecunda. Na segunda metade, indiscutivelmente o Rock and Roll mereceria a mesma adjetivização. Como apaixonado ouvinte de ambos os estilos, diria ainda que cada um a sua maneira e de modo contraditoriamente complementar construíram e estabeleceram a original e múltipla linguagem musical do último século.
O Jazz estabeleceu os padrões básicos da dança moderna, inventou a “musica popular” da civilização industrial urbana, definindo um modo novo de fazer e “sentir” música, uma música mais para o corpo e os sentidos, para a excitação, do que para alma e o leve enterterimento social. A própria palavra jazz deriva de jass, um termo obsceno.
O Rock and Roll aprofundou essa nova sensibilidade com a eletrificação dos instrumentos insistindo, tal como o jazz, em uma ritmilidade frenética baseada na combinação tumultuada de vários instrumentos, como se reinventando a caoticidade e agressividade de sons e ruídos que decoram as paisagens urbanas.
Na medida em que esse novo modo de sentir e viver música estabelecido pelo Jazz e perpetuado e transformado pelo Rock destinava-se ao corpo e aos sentidos, engendrou formas comportamentais e padrões culturais específicos e ant-convencionais que foram naturalmente associados a um abstrato ideário de liberdade, contribuindo para a instabilidade das formas tradicionais de cultura e sociabilidade e a verdadeira revolução dos costumes que “deu o tom” dos anos sessenta e setenta em todo o mundo ocidental
A música no século XX tornou-se um fenômeno social e psicológico sem precedentes. Basta para ilustrar tal conclusão citar o papel desempenhado pelo Rock’ n’ Roll no Pós II Grande Guerra e ao longo dos anos sessenta e setenta, a verdadeira revolução de valores que sacudiu parte da Europa e os Estados Unidos e que podemos considerar mais do que um fenômeno de juventude, uma verdadeira ruptura com o ethos moderno que balizava até então a cultura ocidental. A transformação da musica e do hábito de ouvi-la, sua conversão em uma gigantesca indústria e referencial identidário coletivo, ancorada nas inovações tecnológicas que permitiam sua reprodutividade em qualquer hora ou lugar através de um aparelho doméstico, representam uma inovação psico-historica das mais relevantes. Se a musica foi, ao lado do cinema, uma das principais linguagens definidoras do espírito do último século, o Jazz pode ser considerado, no contexto norte americano de Pós- recessão de 29, o inicio de tudo aquilo que o Rock posteriormente representaria como linguagem.
François Billard, em uma passagem de seu divertido livro NO MUNDO DO JAZZ, da Coleção A VIDA COTIDIANA, entre nós publicada pela Companhia das Letras, nos ajuda a pensar o lugar do Jazz no século XX enquanto fenômeno psico- histórico e juvenil:

“ A juventude podia viver no presente, tinha, enfim, sua música. Basta imaginar as apresentações de Benny Goodman no Paramount Theatre de Nova York, em março de 1937. O preço do ingresso era apenas 35 cents. Na estréia havia mais de 20.000 pessoas numa sala onde cabiam 3.650 sentadas. Todo mundo dançava e pulava.Era a musica deles, e ninguém iria economizar energia. Nunca, talvez, os Estados Unidos, viram tal fenômeno, e o jazz era o grande vencedor. Aquela “cultura” própria do jazz tornava-se a cultura de toda a juventude, e todo mundo aproveitou-a. A partir de então, todos os movimentos que animariam a juventude americana se traduziriam com uma força impar na música, primando a forma sobre o conteúdo, retomando a velha distinção filosófica; o meio de comunicação era a mensagem.
A música adquirira uma força com a qual nenhuma outra forma de expressão podia lutar. Em relação a essa forma, o jazz ocupava uma posição particular, na medida em que ressaltava muito mais o novo, o inédito. Ainda que continuasse a utilizar um repertório conhecido, tomado de empréstimo ( acaso não seria o repertório das melodias populares?), ele o manipulava em seu benefício. O que contava não era tanto o que dizia, mas a maneira como o fazia, o que excluía a repetição servil: “De minha parte”, disse a cantora Billie Holiday, “ não consigo cantar duas vezes do mesmo modo a mesma canção, menos ainda durante dois ou dez anos. Se alguém é capaz de fazê-lo, trata-se então de torneio, de exercício, de tirolesa, qualquer coisa, menos de música.”.
Entre esses jovens nasceu uma minoria particularmente ativa, os hipsters, os caras “para frente”. Eles viviam a música e praticavam uma linguagem de iniciados, o jive talk. Não era uma criação totalmente nova na sociedade americana, e o livro de “ Mezz” Mezzrow e Bernard Wolfe, Really the Blues, descreve comportamentos semelhantes no correr dos anos 30, em Chicago. Os músicos eram seus heróis e exemplos, adotando em público atitudes destinadas a chocar, “por exemplo, a recusa de se conformar com a antiga convenção que obriga o músico, no momento de terminar o solo, a indicar com um sinal de cabeça que o que toca em seguida deve emendar; a expressão de tédio que lhes parece obrigatória, para executar inovações musicais mais ousadas; o costume de tocar de costas para o público, de movimentar-se no palco e sair dele, arrastando os pés, após terminar seu solo, sem olhar para sala.”

(François Billard. No Mundo do Jazz/ tradução de Eduardo Brandão. SP: Companhia das Letras/ Circulo do Livro, 1990 ( Coleção A Vida Cotidiana, p. 245 et seq.)
Os Estados Unidos da América do Norte do Pós-Guerra vivia a reafirmação do "American Way of Life", em meio a uma reorganização de forças em nível mundial. A emergência dos Estados Unidos e da União Soviética como superpotências nucleares estabelecia uma nova ordem mundial bipolar que convencionou-se chamar de "Guerra Fria".
As benesses do capitalismo e do avanço tecnológico invadiam vitrines e povoavam sonhos. Negros, brancos e imigrantes, cruzavam a América de costa à costa. Pessoas comuns em busca de trabalho, diversão, aventura ou de si mesmo, como bem descreveu Jack Kerouac em seu clássico livro, "On the Road". Em meio a idas e vindas, uma série de encontros foram possíveis, em especial, no campo da música. As várias sonoridades representativas daqueles grupos sociais - Blues,Bluegrass, Country, folk, gospel, Boogie Woogie,etc. - se fundiam promovendo uma reordenação do ethos.
Um novo ritmo musical estava nascendo ali,traduzindo todo o imaginário de uma juventude em atitudes, sonoridades e contestação.E alguém então o batizou como 'Rock 'n' Roll. Frenético, traduzia os novos tempos, firmava-se como trilha sonora de uma juventude branca, confiante na supremacia de seu país. Os conservadorismos latentes da América daqueles dias tentariam resistir aos acordes das guitarras elétricas, às letras que manifestavam uma rebeldia ingênua e aos movimentos lascivos manifestados nos quadris de jovens, até então, bem comportados
Ola Licinio,
Concordo inteiramente com vc. Mas se me permite um adendo, gostaria de considerar que, em fins dos anos 60, quando eram esboçadas as primeiras tentativas de conceituação de uma ficção pós moderna, o crítico literário George Steiner, inspirado pelas “Notas para Redefinição de Cultura” de Eliot ( 1948), formulava o conceito de Pós cultura, buscando dar conta de um conjunto de fenômenos que apontavam para uma profunda transformação no imaginário ocidental.
Parafraseando o autor, o constructo clássico do discurso e a centralidade da palavra, inspiradores de um sistema hierárquico de valores que definiam a própria essência da sociedade ocidental, viu-se abalado ao longo do séc. XX, não apenas pelas vanguardas dos anos 20, mas também pela “contra-cultura” dos beatnik, Graffiti, Stoned ( chapados), etc. que delimitavam uma nova linguagem e padrão de experiência que não mais tinham como centro a palavra. Acho que isso nos permite de algum modo interpretar a redefinição do lugar e papel da musica, a “cultura do som” que marcou profundamente o séc. XX, principalmente no pós guerra. Steiner. Na verdade em NO Castelo do Barba Azul, Steiner nos apresenta a hipótese de uma “Pós Cultura” iniciada a partir do pós guerra...
Como esclarece o próprio autor:

“Essas mudanças, de uma cultura dominante a uma pós ou subcultura, expressa-se em um “afastamento da palavra” generalizado. Vista a partir de alguma futura perspectiva histórica, a civilização ocidental, desde suas origens greco-hebraicas até mais ou menos o presente, pode assemelhar-se a uma fase de “verbalismo” concentrado. O que nos parecem ser distinções relevantes podem dar a impressão de ter sido parte de uma era geral em que o discurso falado, evocado e escrito era a coluna vertebral da consciência. Um lugar-comum da atual sociologia e do “estudo da mídia” diz que essa primazia da “lógica”- daquilo que organiza as articulações de tempo e de significado em torno ao logos- está chegando ao final. Cada vez mais a palavra é uma legenda para a imagem. Crescentes áreas da realidade e da sensibilidade , de modo especial nas ciências exatas e nas artes não- figurativas, estão fora do alcance do relato verbal e da paráfrase. As notações da lógica simbólica, a linguagem da matemática e da computação deixaram de ser metadialetos, submetidos e reduzíveis à percepção verbal. Elas são modos comunicacionais autônomos, que reivindicam e expressam por si mesmos crescente área de buscas ativas e contemplativas. As palavras estão corroídas pelas falsas esperanças e pelas mentiras que elas, as palavras, veiculam. O alfabeto eletrônico da comunicação e da “proximidade” [ “togetherness”] imediatas e globais não é o antigo e cismático legado de Babel, mas a imagem em ação.”

( Georg Steiner. No Castelo do Barba Azul: Algumas notas para a redefinição da cultura./ Tradução : Tomas Rosa Bueno; SP: Companhia das Letras, 1991, p. 122 )

Compartilho aqui apenas algumas especulações e hipóteses. Fique a vontade para critica-las.
Um abraço.
Continuando...

Uma outra questão que seu comentário me despertou, e que remete as origens do rock nos anos 50 no espaço geográfico dos Estados Unidos, é a sua aproximação entre o “universo branco” e “negro” em um contexto de emergência do movimento pelos direitos civis. Isso é muito curioso e nos remete ao então “escandaloso” jeito “negro” de dançar de Elvis, por exemplo, como um símbolo de sincretismo, de superação do discurso racial . Isso vincula o Rock a emergência de tensões e embates culturais interessantes na américa angro saxã daquele período... que remetem a construção de uma cultura de juventude contraposta as convenções e ao mundo dito "adulto", mas que engendrava dinâmicas e valores novos que expressavam tensões e transformações latentes de um modo universal.
Caro Carlos,
tentei, de modo geral,mostrar em que contexto surge o rock 'n' roll, sem me aprofundar em seus desdobramentos e conecções com as manifestações sociais,políticas e culturais daquele momento, o que deveremos explorar mais adiante.
Concordo com suas colocações no que diz respeito à ideia de redefinição do conceito de cultura a partir do Pós-Guerra. A década de 1960 nos apresentará novas possibilidades sonoras a partir de experiências extra-sensoriais com o LSD25 e os Happenings de Timothy Leary e tudo aquilo que se convencinou chamar de "Contra-Cultura".
Na verdade, apresento pequenos flashs.
Meu caro Licinio,
Deixo aqui outro pequeno flashs que espero que seja dialogável... Mas pensarei sobre sua postagem e prometo em breve uma resposta mais cuidadosa. A questão da contra cultura me interessa muito, principalmente por que ela se tornou uma linguagem "universal", presente no cinema, nos anuncios de tv, moda, etc. durante, principalmente os anos 70. Parece ser algo que transcendeu o rock como movimento e linguagem social... É isso que não consigo reponder direito. Mas é interessante conversar e pensar em lampejos de pensamento, de modo fragmentário e sem pretenções.
forte abraço.

ROCK E POS MODERNIDADE

Para afirmação da relevância do rock and roll como objeto de pesquisas historiográficas, creio ser muito apropriado reproduzir aqui como elemento de discussão um fragmento de Cultura Pós Moderna: Introdução às teorias do contemporâneo de Steven Connor sobre cultura popular:
“Os últimos anos viram uma explosão de interesse por toda uma gama de textos e práticas culturais antes desdenhados pela critica acadêmica ou invisíveis a ela. Os críticos culturais contemporâneos, seguindo o inspirador caminho aberto por Richard Hoggart, Raymond Willians, Roland Barthes e Stuard Hall, tomam como tópico o esporte, a moda, os estilos de cabelo, as compras, os jogos e os rituais sociais, e passam a empregar nessas áreas, sem nenhum pudor, o mesmo grau de sofisticação teórica que empregariam com um artefato da alta cultura. De certo modo, isso constitui em si um fenômeno pós moderno, por ser a marca do nivelamento de hierarquias e do apagamento de fronteiras, efeito da explosão do campo da cultura descrita por Jamenson, na qual a cultura, o social e o econômico deixam de ser facilmente distinguíveis um dos outros.
Muitas dessas formas e práticas culturais contribuem-se a qualidade de elementos representativamente pós modernos em si, embora possam ser formas e práticas que nunca passaram por alguma fase modernista reconhecível. Essas formas, ao que parecem, não necessitam de legitimação da teoria pós moderna para gozarem da sua condição pós moderna. Mas isso não quer dizer que não haja formas significativas de transferência e de paralelo entre outros tipos de teoria cultural pós moderna. Na cultura popular, como em, outros campos, a condição pós moderna não é um conjunto de sintomas simplesmente presentes num corpo de evidência sociológica e textual, mas um complexo efeito do relacionamento entre prática social e a teoria que organiza, interpreta e legitima as suas manifestações.

ROCK

De certo modo, para falar a verdade, o rock como forma cultural especifica só pode ser chamado de pós moderno por analogia. Pode-se alegar que o rock passou por uma acelerada genealogia interna que imita, ou pode ser entendida como imitando, narrativas de emergência da sensibilidade pós moderna em outras áreas culturais. Frederic Jamenson chega perto disso ao apresentar os Beatles e os Rolling Stones como o “grande momento modernista” do rock. A espécie de narrativa que isso implica poderia ser: depois de sua rebelde ressurreição nos anos 60, o rock foi canonizado e assimilado pela industria cultural nos anos 70, embora os seus mais avançados representantes parecessem estar explorando estilos experimentais ou paródias desses estilos associados com a estética de vanguarda contemporânea; isso produziu um amálgama contraditório mas, discutivelmente “modernista” do experimental, e do institucionalmente incorporado. A isso se seguiu, no final dos anos 70, a musica punk e new have, associada com grupos como The Clash, The Sex Pistols e outros, que pretendiam purificar o “o rock de estádio” aristocrata que se desenvolvera através do retorno às energias e à origem primais do rock nas experiências de jovens descontentes da classe trabalhadora.”

Steven Connor. Cultura Pos Moderna: Introdução às teorias do contemporâneo.lSP: Edições Loyola, 4? Ed, 2000, p.149-150
Lançado originalmente em 1973 e atualmente esgotada, a obra Rock: O grito e o Mito de Renato Muggiati, apesar de datada em alguns aspectos, permanece sendo uma referência importante para aqueles que se interessam pela história do rock. Cronologicamente ele cobre um período que vai dos primórdios nos anos 50 a inicio dos anos 80 do último século, o que lhe circunscreve a evolução do chamado rock clássico.
A analogia entre Rock e grito feita pelo autor, uma das chaves de leitura de sua pesquisa, é particularmente interessante. Remete, antes de tudo ao significado do rock, enquanto fenômeno cultural surgido em determinado contexto de crise de valores dos EUA no pós II Grande Guerra. Pensando esse momento vinculado ao progresso das mídias eletrônicas, não é surpreendente a possibilidade de paralelos com a relação contemporânea dos jovens e as mídias e linguagens digitais.
Nas palavras do autor:

“... Se a canção popular americana já por volta de 1950 havia perdido sua função social, é preciso lembrar que o blues, concreto e vital, tinha sobrevivido a todas essas mudanças.Ganhando corpo depois da Primeira Guerra Mundial quando a canção popular ou era marcadamente triste, ou alegre e buliçosa, a mistura doce amarga do blues abria uma nova frente musical, que seria trazida até nossos dias pelo rock e pelas modernas formas de blues e soul. O blues olhava o mundo sem ilusões como a coisa complexa que é. Cultivava, por exemplo, uma certa ironia ( “Eu antes te amava,mas,ora, vá para o raio que te parta!”). Segundo LeRoi Jones ( Blues People), o grito e o blues eram acima de tudo afirmações da individualidade do negro. Manifestavam sua consciência de separação do restop da sociedade americana. Também como os negros arrancados bruscamente do seu solo natal, os jovens de metade do século XX se viram de repente sem raízes, jogados numa terra incógnita, cenário novo e ameaçador. Até o começo do século, a tradicional família praticava impunimente a lavagem cerebral dos filhos: o mesmo repertório de informações e valores era transmitido quase intacto de geração a geração. Com o dilúvio de dados provocado pelos novos media- sobretudo os eletrônicos- esses compartimentos estanques de classes e hierarquias foram invadidos e todo mundo se viu bruscamente na situação de naufrago: nadar para sobreviver. Nadar, no caso, equivalia a digerir e manipular convenientemente a massa de informação despejada diariamente pela industria das comunicações. Foi dentro dessas condições que os jovens, para se defender, criaram um campo de informação próprio. Na realidade, o movimento que uns definem como “contracultura”, outros como “revolução cultural”, é formado por muitas dessa nova ideologia e sua colocação em prática será a luta das próximas décadas.”

(Roberto Muggiati. Rock, o Grito e oi Mito: A musica pop como forma de comunicação e contracultura. Petrópolis: Vozes,3° edição, 1981, p.11-12)
DO YOU REMEMBER WOODSTOCK? PEACE TRIBUTE

Embora o movimento hippie, uma das mais expressivas versões da contra cultura dos anos 60, cultive como referência espacial e tenha surgido na cidade norte americana de San Francisco, foi em uma fazenda próxima a cidade de Woodstock, estado de New York, onde ocorreu sua maior consagração. Refiro-me, evidentemente, ao WOODSTOCK FESTIVAL, que ocorreu entre os dias 15 e 17 de agosto de 1969 e reuniu grandes e pequenos nomes do cenário musical da época sintetizando a sensibilidade e cultura musical da geração rock and roll 60 e do flok. Entre eles cabe citar Jefferson Airplane, Rolling Stones, Jannis Joplin, Jimi Hindrix, The Who, Joe Cockei e Creedence Clearwater Revival.
Do ponto de vista da história da cultura no século XX, este festival foi o coroamento e a máxima expressão do imaginário de uma década de século marcada pela aceleração dos ritmos cognitivos do sentimento de mutação do real e pela contestação severa dos valores e cultura tradicional, das representações convencionais de mundo...
A mítica de Woodstock uma linguagem e um campo novo na indústria cultural e nos protocolos e vivências do rock and roll enquanto fenômeno social. Em outras palavras, depois de então, os grandes festivais tornaram-se o lócus privilegiado da celebração de valores, ideologias, causas ou, simplesmente, da própria música como orgiástico símbolo da cultura de massa...
A guerra do Vietnã havia terminado a pouco, o que faz de Woodstock, por razões óbvias, uma celebração de paz como nenhuma outra...
Uma coisa inedita introduzida pela cultura do rock na redefinição que impôs a configuração inicial de industria cultural no pós guerra,assentada nas novas possibilidades tecnicas simbolizadas pelo vinil, foi a invenção da imagem do cantor/ compositor, da qual Bob Dylan pode ser considerado um pioneiro, ao lado de bandas clássicas como os Beatles e The Who...
Através do rock, a relação entre a voz e o dono da voz modificou-se profundamente, até chega e continua se modificando. Basta pensar nos anos 70, e sua construção do mito dos deuses da guitarra.
Indo alem disso, lançados na internet gratuitamente ou a preços sugeridos, bandas como o Radiohead e artic monkeys, mais recentemente, introduziram novas representações da cultura do rock, no que diz respeito a sua realação com a industria cultural. A repercussão disso, em termos de mercado musical e referencia cultural, não é pouco significativa e esboça uma redefinição da cultura social da musica em tempos de mp3 e internet que introduzem novos elementos na vivencia da musicalidade e identidade das bandas que fornecem indícios para as transformações mais profundas da cultura contempoânea...
O ALBUM SEM PREÇO do Radio Head, IN RAINBOWS, lançado em outubro de 2007, pode ser considerado um dos mais inovadores acontecimentos da cultura pop rock das últimas décadas. Não bastasse sua qualidade musical e simbólica, chama atenção a iniciativa da banda contra as lógicas da industria cultural, sua afirmação da arte acima dos cifrões...
Mas também se trata de um álbum diferenciado na carreira da mais singular de todas as bandas britânicas contemporâneas.
Afinal, é impossível não considerá-lo “meta conceitual”, tecnicamente perfeito, indefinível em sua linguagem paradoxalmente homogênea e diversa...
De certo modo ele reflete as oscilações cotidianas de nosso humor e virtuais identidades egoicas...
AQUI ENTRAMOS NAS SENSIBILIDADES CONTEMPORANEAS COMO UM TERRITÓRIO INCERTO DE HIBRIDISMOS E NOVAS REPRESENTAÇÕES E DIMENSÕES DA EXPERIENCIA ARTISTICA... EM POUCAS PALAVRAS, TARATA-SE DE UMA RICA FONTE PARA CONSTRUÇÃO DE UMA "HISTÓRIA DO PRESENTE" NO QUE DIZ RESPEITO AS ESTETICAS CONTEMPORÂNEAS...
Em fins dos anos 60, quando eram esboçadas as primeiras tentativas de conceituação de uma ficção pós moderna, o crítico literário George Steiner, inspirado pelas “Notas para Redefinição de Cultura” de Eliot ( 1948), formulava o conceito de Pós cultura, buscando dar conta de um conjunto de fenômenos que apontavam para uma profunda transformação no imaginário ocidental.
Parafraseando o autor, o constructo clássico do discurso e a centralidade da palavra, inspiradores de um sistema hierárquico de valores que definiam a própria essência da sociedade ocidental, viu-se abalado ao longo do séc. XX, não apenas pelas vanguardas dos anos 20, mas também pela “contra-cultura” dos beatnik, Graffiti, Stoned ( chapados), etc. que delimitavam uma nova linguagem e padrão de experiência que não mais tinham como centro a palavra.
Como esclarece o próprio autor:

“Essas mudanças, de uma cultura dominante a uma pós ou subcultura, expressa-se em um “afastamento da palavra” generalizado. Vista a partir de alguma futura perspectiva histórica, a civilização ocidental, desde suas origens greco-hebraicas até mais ou menos o presente, pode assemelhar-se a uma fase de “verbalismo” concentrado. O que nos parecem ser distinções relevantes podem dar a impressão de ter sido parte de uma era geral em que o discurso falado, evocado e escrito era a coluna vertebral da consciência. Um lugar-comum da atual sociologia e do “estudo da mídia” diz que essa primazia da “lógica”- daquilo que organiza as articulações de tempo e de significado em torno ao logos- está chegando ao final. Cada vez mais a palavra é uma legenda para a imagem. Crescentes áreas da realidade e da sensibilidade , de modo especial nas ciências exatas e nas artes não- figurativas, estão fora do alcance do relato verbal e da paráfrase. As notações da lógica simbólica, a linguagem da matemática e da computação deixaram de ser metadialetos, submetidos e reduzíveis à percepção verbal. Elas são modos comunicacionais autônomos, que reivindicam e expressam por si mesmos crescente área de buscas ativas e contemplativas. As palavras estão corroídas pelas falsas esperanças e pelas mentiras que elas, as palavras, veiculam. O alfabeto eletrônico da comunicação e da “proximidade” [ “togetherness”] imediatas e globais não é o antigo e cismático legado de Babel, mas a imagem em ação.”

( Georg Steiner. No Castelo do Barba Azul: Algumas notas para a redefinição da cultura./ Tradução : Tomas Rosa Bueno; SP: Companhia das Letras, 1991, p. 122 )

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