O conceito tradicional de "colônia de povoamento" nos livros didáticos de História deve ser revisto ?

Na visão tradicional dos livros didáticos de História, "colônias de povoamento", cujo exemplo típico seriam as colônias inglesas no atual nordeste dos Estados Unidos, eram regiões, normalmente na zona temperada do planeta,  que se caracterizariam por imigração em larga escala, muitas vezes por motivos de perseguição política ou religiosa, de um grande número de colonos europeus brancos que se fixam permanente à nova terra, geralmente como pequenos proprietários agrícolas ou dedicando-se a atividades de comércio ou manufaturas, e substituem a população nativa local. "Colônias de exploração" por sua vez seriam áreas dependentes, normalmente  em regiões de clima quente, cuja economia era baseada na  extração de minérios  e/ou  na agricultura comercial de produtos tropicais, normalmente em grandes propriedades (latifúndios), empregando mão de obra nativa ou, quando essa não estivesse disponível, mão de obra escrava importada, tipicamente da África.

As definições clássicas acima, ainda comuns na escola brasileira, levantam entretanto uma série de inconsistências que são problemáticas. Por exemplo, áreas de forte povoamento europeu com população majoritariamente branca localizadas em zonas subtropicais ou tropicais, p.ex. as colônias inglesas do sudeste dos EUA e do nordeste da Austrália (Queensland), possuíam algumas características econômicas semelhantes ao perfil clássico de "colônia de exploração" nos livros, por exemplo agricultura comercial de produtos tropicais para exportação  (algodão e tabaco no sul dos EUA; cana-de-açúcar em Queensland)  e, no caso específico do sul dos EUA, inclusive com o emprego  de mão de obra escrava africana. Na verdade, mesmo colônias de povoamento clássicas em zonas de clima temperado ou frio, por exemplo as colônias do sul e sudeste da Austrália (New South Wales e Victoria), a Nova Zelândia e o Canadá, ao invés do modelo padrão do norte dos EUA de pequena propriedade voltada para consumo doméstico e economia baseada em comércio e manufaturas,  tinham na verdade uma economia basicamente agrícola voltada preferencialmente para o abastecimento do mercado europeu , só que, pelas restrições do clima, baseada obviamente não em produtos tropicais, mas na agricultura comercial de cereais (principalmente trigo) e/ou na produção de lã, carne e laticínios. A Austrália e o Canadá posteriormente também se tornariam grandes produtores de minérios (ferro, ouro, alumínio, níquel, etc.) e combustíveis fósseis (carvão, gás natural, etc.) para o mercado externo.

Por outro lado, parece incoerente afirmar que o Brasil português, normalmente classificado nos livros didáticos como um "colônia de exploração",  não fosse  de certa forma também uma "colônia de povoamento" considerando-se que, por volta de 1822, quando o Brasil se tornou independente, ele tinha uma população talvez da ordem de 3 milhões de habitantes dos quais quase um terço (i.e 1 milhão) eram brancos europeus ou descendentes de europeus. Na verdade, excetuando-se notoriamente os Estados Unidos, que tinham na época cerca de 9 milhões de habitantes dos quais 80 % eram brancos, o Brasil tinha já nos anos 1830 uma população branca de origem europeia que, em números absolutos, era provavelmente maior do que em todas as  demais colônias de povoamento europeias clássicas no "Novo Mundo", incluindo Canadá, Austrália e África do Sul. O mesmo argumento usado para o Brasil naturalmente se aplica também a diferentes regiões da América Espanhola não-platina  (México, Colômbia, Venezuela, Cuba, Costa Rica, etc.), onde, ao lado de indígenas e/ou negros transplantados, havia também populações brancas significativas de origem europeia e uma cultura que, ainda que miscigenada como no Brasil, era predominantemente europeia meridional (religião católica romana e uso da língua espanhola ou, no caso do Brasil, do português).

Em face dessas inconsistências teóricas, vocês acreditam que o conceito de "colônia de povoamento" como encontrado nos livros didáticos deve ser revisto ?  Eu pessoalmente defendo uma definição alternativa de "povoamento"  baseada em critérios culturais (p.ex. linguísticos e religiosos) e perfil demográfico (composição da população) ao invés de estrutura econômica da produção (p. ex. latifúndio vs. pequena propriedade, exportação vs mercado interno, ou agricultura/mineração vs comércio/manufaturas). Mais adiante, posso detalhar melhor a minha posição, mas gostaria de ouvir outras opiniões primeiro.

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Respostas a este tópico

Eu concordo, mas penso q essa outra denomição deve ser muito bem estuda e analisada levando em conta os criterios sitados no texto!!

@Gessica:  Acho que é uma proposta polêmica ainda em aberto, mas, a grosso modo, nessa "nova" classificação, "colônias de povoamento", ou, mais amplamente hoje, no período pós-colonial, zonas de povoamento ultramarino europeu, seriam todas as regiões fora da Europa onde:

1) A população nativa que existia no período pré-colonial tornou-se percentualmente minoritária, sendo substituída por uma maioria formada por outros (e, alguns casos, novos) grupos étnicos.

2)  A região colonizada foi, pelo menos em parte, culturalmente assimilada à civilização europeia ocidental. Essa assimilação é medida principalmente por:

    i) Presença de uma língua europeia (em geral latina ou germânica) como língua nativa (i.e. primeira língua) majoritária da população no periodo pós-colonial

 
    ii) Predominância do cristianismo (católico romano ou protestante/reformado) como religião dominante no período pós-colonial.


Dentro dessa definição, entre as zonas ultramarinas de povoamento europeu, distinguem-se duas subcategorias separadas:

a)  Zonas "brancas": são aquelas regiões onde, no período pós-colonial, brancos de descendência europeia são a maioria esmagadora (> 70 %) da população total do país e que são tradicionalmente vistas culturalmente como extensões/parte do chamado "mundo ocidental". Tipicamente incluem os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia, a Argentina, o Uruguai e, como sub-região, o sul do Brasil. Normalmente nessas áreas a população indígena nativa foi praticamente exterminada e quase completamente substituída, sendo hoje apenas entre 1 e 5 % da população total (exceção importante: Nova Zelândia, onde os Maoris representam cerca de 15 % da população).  Ao lado da maioria branca, pode haver entretanto minorias importantes de outros grupos étnicos não nativos transplantados (p.ex. negros africanos nos EUA, que são aproximadamente 12 % da população) ou mestiços (por exemplo, na Argentina, onde mestiços de índios e europeus representam pouco menos de 10 % da população).

b) Zonas "pardas": são tipicamente regiões como a costa nordeste e centro-leste do Brasil, Colômbia e Venezuela onde a população indígena nativa foi praticamente substituída (hoje é menos de 2 % da população total), mas a maioria da população (de 50 a 70%)  é formada por mestiços de brancos europeus, negros africanos transplantados e indígenas, com minorias significativas principalmente de brancos (20 a 35 %) e, em algumas regiões, negros não miscigenados. Culturalmente, são sociedades híbridas com elementos europeus ocidentais, africanos e nativos, mas onde a cultura dominante em termos de língua e religião é europeia. No caso dos países latino-americanos citados por exemplo, predominam a religião católica romana e a língua espanhola ou, no caso do Brasil, portuguesa. Apesar de ser um pouco controverso, eu pessoalmente gosto também de incluir nessa categoria o Cabo Ocidental na África do Sul onde a religião dominante é o cristianismo protestante (com minorias islâmicas e judaicas), a língua nativa majoritária (> 50 %) é o africâner ("Holandês do Cabo") com uma minoria significativa  (aproximadamente 20 %) de falantes de inglês, e os nativos Khoisan do período pré-colonial praticamente desapareceram como grupo étnico sendo substituídos por uma maioria (pouco mais de 50 %) de mestiços ("Cape Coloured") de origem mista europeia, nativa e austronésia transplantada (malagaxe, malaia, javanesa) junto com minorias de negros bantos recentemente transplantados por migração (cerca de 30 %) e brancos europeus não miscigenados (pouco menos de 20 %).

Algumas áreas como o sudeste do Brasil (p.ex. regiões litorâneas do Rio de Janeiro ou São Paulo) e Cuba ficam numa zona intermediária entre os grupos (a) e (b) por terem populações majoritariamente autodeclaradas brancas (> 50 %) e populações indígenas desprezíveis, mas minorias mestiças e negras geralmente muito maiores numericamente do que o grupo (a). Culturalmente, aproximam-se mais do grupo (b) ("sociedades pardas") do que do grupo (a) ("sociedades brancas").

Considerando-se língua nativa como o melhor marcador direto de assimilação cultural e padrões de povoamento, o mapa de distribuição mundial de línguas por família que pode ser aberto clicando-se <a href=" http://en.wikipedia.org/wiki/File:Human_Language_Families_Map.PNG">  nesse link </a> é a melhor ilustração gráfica das zonas ultramarinas de povoamento europeu que eu descrevi anteriormente.

Notem que, fora da Europa, as Américas, a Austrália e a Nova Zelândia, e o extremo sudoeste da África aparecem agora dominadas no mapa por línguas europeias (germânicas como inglês e africâner em vermelho, ou latinas como português, espanhol e francês em azul escuro). As famílias de línguas nativas originais dessas regiões por sua vez tiveram sua área geográfica pré-colonial reduzida agora apenas a bolsões onde fatores geográficos em geral limitavam ou desencorajavam o povoamento europeu. Por exemplo, nas Américas, a línguas ameríndias nativas são encontradas ainda na Amazônia ocidental (área de florestas) fora das margens dos principais rios; nas regiões andinas (altas montanhas), no norte subpolar e polar do Canadá, e em áreas isoladas do sul do México, América Central, sudoeste dos EUA e Paraguai onde há populações nativas residuais numericamente significativas. Na Austrália, a área de línguas aborígenes australianas está confinada agora às regiões áridas (desérticas) e semiáridas do oeste e norte do país, enquanto, no sudoeste da África, a família de línguas Khoisan aparece agora apenas nas regiões também áridas e semiáridas da Namíbia e oeste de Botswana.

No resto do mapa, podemos ver também, aí assim, as chamadas  zonas de exploração europeia que foram áreas na maioria de colonização tardia (séculos XIX e XX) onde um pequeno punhado de europeus (menos de 1 % da população total, em geral funcionários públicos, militares e homens de negócios)  governava direta ou indiretamente uma população nativa muito maior sem criar ou introduzir uma "nova" cultura em substituição àquela que existia antes da ocupação europeia. Depois da independência, os poucos europeus e seus descendentes que viviam nesses territórios foram repatriados e, fora alguma possível herança residual, os vestígios da cultura ocidental  nessas ex-colônias praticamente desapareceram enquanto as culturas nativas originais (língua, religião, etc.) se mantiveram. É o caso por exemplo do subcontinente indiano, do mundo austronésio (Indonésia, Malásia, Madagascar), da Indochina (grupo austro-asiático), de parte do mundo árabe (em especial, o norte da África), e da maior parte da África subsaariana ocupada pelas línguas africanas dos  grupos Nilo-Saariano e Níger-Congo. Por extensão, esse grupo inclui também zonas de influência europeia que nunca chegaram a ser colônias propriamente da Europa, mas que foram submetidas a relações econômicas desiguais com o ocidente, como a China, Tailândia, Pérsia, etc.

Curiosamente, no sul da área Níger-Congo, especificamente na metade leste da África do Sul, veem-se no mapa alguns focos europeus isolados em vermelho escuro, especificamente na província de Gauteng (eixo Pretoria-Johannesburg-Midvaal) e em torno das cidades fundadas pelos ingleses no Oceano Índio (como Port Elizabeth e Durban). Essas são áreas, dentro da zona de exploração europeia, podem ser cahmadas de  zonas de povoamento europeu contestado, i.e. onde houve uma tentativa (especificamente no século XIX) de povoamento europeu permanente (bôer/africâner e britânico) ao estilo das Américas ou da Austrália, mas ele não conseguiu se impor a ou assimilar a maioria negra (bantus), restando apenas uma minoria branca (entre 10 a 20 % em certas áreas isoladas) que se manteve até recentemente segregada. Casos semelhantes aconteceram na Rodésia do Sul (atual Zimbabwe) e, talvez, na Argélia francesa onde, entretanto, ao contrário da África do Sul, a minoria  nativa foi expulsa/repatriada após a descolonização e hoje é menos de 1 % da população.

Gostaria de ler um pouco mais sobre esse assunto pois faz parte dos conteúdos que trabalho com o Segundo Ano do Ensino Médio, e nas minhas reflexões nos questionamos quais critérios foram usados para que alguns países se desenvolvessem economicamente mais que outros. Pelos meus estudos tem autores que trabalham com essa possibilidade da qual você está questionando, tem outros que alegam a situação religiosa, como as Treze Colonias Norte-Americana sendo na maioria protestantes e por assim dizer teriam que aprender a ler a Bíblia, consequentemente seria letrados,e nas colonias espanholas e portuguesas não havia a obrigação da leitura pois os padres católicos proferiam a leitura da bíblia oralmente. quem sabe as informações aqui tragam melhores esclarecimentos. 

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O Homem mais procurado

Acaba de chegar aos cinemas o filme "O Homem mais procurado", dirigido por Anton Corbjin ("Um Homem Misterioso" e "Controle - A História de Ian Curtis"). O filme traz Philip Seymour Hoffman ( em seu último papel), Rachel McAdams e William Defoe.  

Sinopse: Depois de ser brutalmente torturado, um imigrante de origem chechena e russa faz uma viagem à comunidade islâmica de Hamburgo, tentando resgatar a grande herança que seu pai teria lhe deixado. A chegada deste homem desperta a curiosidade das polícias secretas alemã e americana, que passam a acompanhar seus passos. Enquanto a investigação avança, todos fazem a mesma pergunta sobre o imigrante: seria ele apenas uma vítima ou um extremista com um plano muito bem elaborado?

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Líbano e Egito: Leia na íntegra a dissertação "Alguns aspectos sobre o processo da democratização dos sistemas políticos no mundo árabe: Egito e Líbano como modelos de estudo", do pesquisador Younus Khalifa Haddood. O trabalho foi desenvolvido no Programa de Pòs-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Dissertação defendida em 2007. Clique aqui.

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