Na sua opinião, a mestiçagem é um tema bem discutido pela historiografia brasileira?

Florestan Fernandes, Gilberto Freire, Darcy Ribeiro foram alguns dos pensadores que refletiram sobre a questão da mestiçagem (e seus contrários) no Brasil. Na sua opinião, o tema foi bem discutido pela historiografia brasileira? Quais os principais "problemas" e "questões" deste tema para os historiadores?  

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Respostas a este tópico

Silvana, dizer que Gilberto Freyre romantizou a mestiçagem é um outro mito que os historiadores lançaram sobre a sua obra. Quem leu Casa Grande e Senzala percebe que em nenhum momento ele pretendeu essa romancização. Porém, não há como negar que houve "senhores" e "senhores". Como também não há como negar que existiam relações afetivas entre amos e aias. A sociedade precisa ser vista tal qual ela é e não como queremos que seja. Qual historiador pode afirmar que todos os senhores eram cruéis e que era impossível haver entre eles qualquer laço de afetividade ou de lealdade recíproca? Devo lembrar que o outro lado da história, aquela que presume que todos os livros sobre esse período deveriam retratar somente os conflitos de classe também mascarariam as relações sociais desse período.

Silvaniza,

A História pode ser contestada em todos os períodos. É o ofício do historiador, agir como um tecelão dos fatos.

O tema escravidão é complexo, porém a história que prevalece sobre tal assunto não deixa dúvidas sobre a relação entre senhor e escravo. O número de senhores que reconhecia a condição de homem e não de mercadoria para com o negro torna-se um tanto insignificante na medida em que é sabido qual era o lugar do negro durante o período colonial. Se um senhor, uma sinhazinha em especial fugiu desse contexto de sofrimento de maus tratos sofridos pelo escravo, não entra na estatística histórica.

Em contrapartida, acredito também que alguns senhores mantinham uma relação de amizade com o seu escravo. Agora contradizer os fatos é perigoso. Freyre destaca nessa obra que devido a escassez de mulheres brancas aqui por estas bandas, houve uma necessidade da mestiçagem. E quanto aos estupros que as mulheres negras sofriam? E as índias? Para Freyre," o Brasil era a única nação do mundo em que a democracia racial havia se realizado. Tratava-se de um país culturalmente miscigenado, democrático, livre, sem ódios raciais ou sociais, que vivia em um tempo tranquilo sem presa, feliz".

Agora eu lhe pergunto: existe democracia racial no Brasil? Onde estão os negros na nossa sociedade? Eu respondo. Nos presídios, nas favelas etc. Assim, o tema mistiçagem não se esgota neste universo de discussões. A quebra de paradígmas é o caminho para a compreensão .

 

 

Silvaniza, você tocou em um aspecto muito importante: Gilberto Freyre nunca romantizou a escravidão. Esse tipo de análise é muito boba e baseia-se mais na obra de críticos do que na obra de Freyre. Bom falarmos disso abertamente.

Com certeza Silvana e aqui não quero que as minhas postagens sejam interpretadas como defensoras de um regime de segregação racial nem que fosse mais brando. Porém, a história tem desvios dependendo de onde venha e do círculo social de quem escreve. E Gilberto Freyre mostrou um outro lado que também não podia ser ignorado sobre pena de tornar os fatos incompletos. Se voce comparar a relação senhor escravo entre o Brasil e os Estados Unidos você vai entender o que estou tentando dizer. Quanto aos problemas vividos hoje pelos negros, eles não são consequência da Casa Grande e Senzala. São consequências da forma como culturalmente, a sociedade prosseguiu o seu caminho e isso foi demonstrado por Casa Grande e Senzala. A aversão ao trabalho mecânico pelo branco, o "bacharelismo" em que o importante é o título e não a profissão, até pasmem, a forma de falar com autoridade das mulheres brancas com as negras, uma forma de se vingarem destas uma vez que seus maridos preferiam aquelas e muitos outros costumes, são apenas alguns dos traços culturais e foram bem explicitados ao lado da democracia racial da qual ele defendia. Acho que o que falta é uma leitura apurada e desrraigada de qualquer pré-julgamento. Eu estudei o conjunto da obra de Gilberto Freyre no Mestrado (tivemos uma disciplina para entender sua metodologia) e posso lhe garantir que há muito o que aprender. De resto, é só apurar o senso crítico e separar o joio do trigo. Mas, se alguém quiser entender a mestiçagem no Brasil deve ler Casa Grande e Senzala, Sobrados e Mocambos e Ordem e Progresso.

Mestiçagem? isso agora é palavrão!!!

Agora a diferença racial é coisa de lei!!!

A palavra mestiçagem significa a mistura, a miscigenação de pessoas diferentes.Os senhores de escravos eram os donos destes e estes meras mercadorias, por isso era comum que tivessem com suas escravas contatos íntimos,que resultaram em muitos filhos,criando assim várias gerações de mestiços.Havia como se sabe senhores terríveis, causadores de maus tratos a seus escravos, mas havia também pessoas que os tratavam bem, embora escravos no sentido da liberdade de ir e vir.O pior problema foi que os escravos foram libertos sem que tivessem meios para melhor sobreviver e ascender a melhores condições sociais, por isso ficaram livres e ainda escravos.E aí foram misturando-se aos brancos como operários em diversas áreas, o que continuou permitindo a expansão da mestiçagem, que no momento nos deu esse povo maravilhoso que temos no Brasil.Mestiçagem não  é palavrão, ser racista é proibido, afinal de contas, a maioria de nós tem o pé na África, ou talvez todos nós o tenhamos.

 

Pois é, mas num país onde por lei determinadas raças obtem mais direitos ou vantagens que outras, o que é então? A mestiçagem seria um fator de igualdade ( eu por ex . Parte polaco, parte portugues, e por conta duma bisavó "bugra", parte índio e negro...).

Ninguem quer ser "mestiço". Para muitos a palavra soa como "vira-lata". Eu não considero assim. Mestiço é o ápice do não-racismo e portanto, sou Mestiço.

É o mesmo que dizer que toda a humanidade tem o pé na África.A África é o berço da humanidade, por razões que a ciência pode explicar, ocorreram mudanças diversas e hoje somos o que somos.A mistura de raças é muito importante,tem como resultados belas pessoas.

Na verdade mestiçagem foi um disfarce para a ideologia de branqueamento a longo prazo da população brasileira, que graças a "sabedoria" dos intelectuais e políticos da época falhou e deu no que nós vivemos hoje.

Não entendi, Carlos.

Mas a mestiçagem começa séculos antes desta "ideologia do branqueamento". Ela começa com a chegada dos portugueses, não?

A palavra mais "feia" que surgiu aqui nesta discussão, foi "branqueamento".Terrível.

Amigos :

A palavra mestiçagem , na perspectiva historigrafica , não está somente ligada a questão etnica ( aqui nem me refiro a racial, que já está totalmente fora do objeto de estudo da pesquisa atual ) . Acredito que deveriamos abrir o debate para outras possibilidades. A aproriação e a reapropriação de objetos culturais é um traço tipico das culturas mestiças ou hibridas. A latino america é um campo vasto . Esta discussão  ( ao meu ver com pouca utilidade para o momento ) de cor de pele ou bases étnicas não enriquece o debate . A problemática e o paradoxo são : O que nos torna unicos na mestiçagem ?  Acho que precisamos nos desprender um pouco  deste discurso de vitimas e algozes. Não que ele deva ser esquecido , mas rememorado com algo a ser desafiado .   

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