Lingua Materna - Por que ainda chamamos nosso idioma de "português" e não "brasileiro?

Mesmo com a reforma ortográfica,a língua falada neste país nunca será a portuguesa, devido as influências do Tupi, nossa verdadeira língua materna e de alguns dialetos africanos. Nesse caso, por que não alterar o nome do idioma e assumir nossa real identidade? Não já perdemos demais para os europeus?

Exibições: 259

Responder esta

Respostas a este tópico

1. Porque não temos "real identidade" - toda identidade é histórica e construída.

2. Porque, pá, nossa língua "materna" (oh, metáforas!) é portuguesa, ora pois! O que ocorre com o português falado e escrito no Brasil é a mesma coisa que ocorre com o inglês falado nos EUA, ele é recriado em outro contexto, ganha nova dinâmica - mas é entendido em outros países da comunidade de língua inglesa. Nós mudamos este português, o recriamos, como também aconteceu na África. Mas as línguas não chegam a ter uma diferença de estrutura e pragmática tão grandes que fundem uma nova língua.

3. Não, não perdemos o suficiente para os europeus. Ganhamos e perdemos - como toda cultura. A língua com que conversamos agora, por exemplo.

Excelente resposta. Fechar os olhos para esta realidade seria condenar-se ao isolamento. A este fenômeno Waly Salomão denominava de antropofagia cultural, ou seja, a capacidade de reiventar=se a partir da influeência de outras culturas.

Um contraponto interesse para comparação é o caso do afrikaans, ou africâner em português, que é a primeira língua de aproximadamente 13 % da população da África do Sul, incluindo 60 % dos brancos e mais de 80 % dos chamados "mestiços do Cabo " (Cape coloured).

O africâner é uma língua derivada do dialeto holandês do Cabo que se modificou pelo isolamento político e geográfico dos colonos neerlandeses na África do Sul em relação aos Países Baixos europeus e pela sua interação com os nativos Khoi e San e com os escravos, principalmente malaios, trazidos para o Cabo durante o período de domínio holandês (1652-1806). Em linhas gerais, as diferenças entre o africâner e o holandês padrão europeu são comparáveis às diferenças entre o português europeu clássico e as variantes mais populares do vernáculo brasileiro, por exemplo, o dialeto "caipira". No Brasil entretanto, a língua popular permanece apenas uma língua oral  enquanto o português padrão é a língua oficial escrita gerando  uma situação de diglossia para a maioria da população. Na África do Sul, por outro lado,  o africâner foi padronizado no início do séulo XX  com gramática normativa, ortografia e dicionário próprios e, desde então, tem sido usado como  uma língua escrita de cultura em escolas, universidades, jornais e em publicações científicas e literárias. 

Em 1925, o africâner substituiu de facto o holandês padrão como uma das duas línguas oficiais da então União Sul-Africana juntamente com o inglês. Na época, alguma vozes discordantes  alertavam que abandonar o holandês abraçando o africâner como uma língua padrão separada traria um risco de isolamento cultural ainda maior da minoria de substrato linguistico holandês na África do Sul que seria prejudicial no longo prazo. Hoje, com o fim do apartheid e a política do governo do Congresso Nacional Africano (CNA) de favorecer o inglês como língua preferencial na administração pública, nos negócios, na mídia e nas escolas, esse prognóstico parece ter se confirmado. Embora o africâner permaneça uma língua viva rica e vibrante, não há dúvida de que, em retrospecto, teria sido muito mais fácil para os seus quase 6,5 milhões de falantes nativos na África do Sul  resistir à política deliberada de anglicização do CNA caso a sua língua e cultura estivessem integradas a uma comunidade internacional "neerlandófona" maior incluindo os Países Baixos, a Bélgica, o Suriname e as Antilhas Holandesas.

Por que ainda chamamos nosso idioma de português?

Primeiro, porque continua sendo o mesmo idioma. Um brasileiro e um português conversando se entendem perfeitamente bem, apesar dos sotaques diferentes e vocabulário não totalmente idêntico.

Segundo, se é para "separar" o idioma brasileiro, por que parar aí? Por que não dizer que cada região fala um idioma próprio? Posso começar a dizer que falo gauchês porque fora do RS as pessoas não acendem focos, não ligam mangas, não pecham o carro perto da sinaleira, não compram cacetinhos e chimia, não tratam os jovens por guri e guria...?

Bom, eu assinei um manifesto contra a padronização do idioma portugues no mundo.

Alguem pela absoluta falta do que fazer pretende homogenizar quase toda a gramática e boa parte do vocabulário dos países que usam a língua portuguesa.

Concordo. Brasileiro é um idioma, portugues é outro, angolano idem, timorense tambem.

PS  Mas a brasileiração de nosso idioma não tem nada de rebeldia, independencia, revanchismo ou outra questão tão romântica e ingênua. É uma questão de objetividade e prática, só isso.

Brancaleone: como eu disse, é uma questão ao meu ver de opção histórica. 

A língua popular falada no Brasil diverge em graus diferentes do português padrão da Europa dependendo do falante (classe social, nível de instrução, origem geográfica, etc.), mas não existe em nenhum caso uma "língua popular brasileira" escrita porque a língua popular nunca foi padronizada ou codificada. Ao contrário, a opção no Brasil foi adotar como norma escrita nos jornais, livros, escolas e administração pública uma versão muito parecida com o português de Portugal incorporando apenas, a partir do século XX,  algumas diferenças limitadas de vocabulário, sintaxe e ortografia (essa última reaproximada agora da norma europeia com a reforma de 2009). Uma escolha parecida, embora nunca formalizada legalmente, foi feita nos EUA em relação à norma americana do inglês em comparação com o inglês britânico.

Em comparação, o exemplo do africâner a que eu me referi anteriormente é um caso em que um povo, especificamente a minoria neo-holandesa na África do Sul (formada tanto por brancos quanto mestiços) optou ao contrário por abandonar o holandês europeu e padronizar a língua popular que eles falavam como uma língua escrita de cultura. O preço que os africâneres pagaram por essa decisão foi sua separação cultural do mundo mais amplo de língua neerlandesa o que, hoje, é visto por muitos como um erro histórico.

No caso do Brasil, a pergunta que devemos nos fazer é se faria sentido romper, como fizeram os africâneres em relação à Holanda, os nosso laços culturais e históricos com Portugal e outros países lusófonos e ignorar a nossa própria herança literária e científica brasileira, escrita em português padrão, para adotar uma norma popular brasileira radicalmente distinta que pudesse atingir o status de um idioma separado.

Olá Sunamita

Vc tem toda Razão nossa lingua geral ou Brasílica era falada no Brasil, quando na metade do século 18 acho que foi a Maria I), foi proibida e substituída pelo Português. Mas já era tarde concordo que esse português que passaríamos a falar é a Lingua Brasileira ou Brasílica como deveria ser chamada

é um fato que nossa lingua tem um enorme predomínio Tupi visto como disse anteriormente falamos lingua geral até, relativamente, recentemente metade do seculo 18.Por isso cncordo com a colocação de Sunamita

Pois é, meu querido Telmo. Vejo um sério problema de identidade do nosso país. Não se trata de deixar de aprender ou de absorver elementos de outras culturas mas, de valorizar aspectos culturais que são unicamente nossos, especialmente o que você destacou, a forte influência e presença dos nossos nativos. Há um abismo entre a os EUA e o Brasil nesse sentido. O Paraguai adotou a língua Guaraní como segundo idioma. Isso é identidade!Nos entendemos, conversando com portugueses e angolanos, mas partindo da premissa de que é a língua responsável pela identidade de um povo, continuamos sem essa definição.

Abçs.

l pela

@Sunamita: no Paraguai, o guarani é a língua nativa da maioria da população, i.e. a língua que eles falam em casa. No Brasil, ao contrário, ninguém mais fala línguas indígenas com exceção de algumas tribos isoladas. Impor o tupi ou a "língua geral" como idiomas oficiais seria impor uma língua estrangeira que não é parte da identidade dos brasileiros modernos,  exceto em topônimos geográficos ou em algumas poucas palavras emprestadas ao português.

Como já foi discutido em outros fóruns sobre história da colonização,  independentemente de qualquer juízo de valor, é um fato histórico que os europeus, usando sua superioridade tecnológica e militar, se espalharam pelas Américas, Austrália, Nova Zelândia e, em menor escala, África do Sul, criando uma nova civilização em substituição às culturas nativas que lá encontraram. Em alguns casos como o da Austrália, a cultura nativa foi virtualmente exterminada e totalmente substituída por uma nova civilização branca transplantada. Idem nos EUA, apenas com um elemento minoritário adicional que foram os negros trazidos da África como escravos. No Brasil, houve uma miscigenação maior de brancos, negros escravos e índios, formando uma civilização "parda" diferente da americana, australiana ou canadense, mas mesmo assim com uma matriz cultural dominante europeia (língua, religião, costumes, etc.) e totalmente diversa da antiga cultura nativa pré-descobrimento.

Marcelo, não sugeri impor a língua tupi, apenas, valorizar uma língua indígena falada de acordo com a região onde há os falantes dessa língua. Você comete um grande equívoco quando diz que apenas algumas povos isolados são falantes de sua língua. Aqui em Pernambuco, o Povo Fulni-ô fala o Yathê com fluência e só usa a língua brasileira para se comunicar com os não indígenas, a exemplo de outros 180 povos, com 180 língua diferentes. Ao nos abrirmos para aprender uma língua nativa, reaprendemos e absorvemos valores ancestrais que há muito perdemos. Já parou para considerar esta possibilidade?

Abraços.

RSS

LINKS PATROCINADOS

Conteúdo da Semana

O historiador Fábio Koifman (UFRRJ) conta ao Café História como transformou mais de sete mil documentos em uma pesquisa histórica bem sucedida e conversa sobre outros assuntos, como a sua relação com os arquivos no Brasil

Links Patrocinados

Cine História

Somos tão jovens

Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.

Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.

Enquete História

Você acredita que João Goulart foi assassinado por agentes da ditadura militar?

Sim
Não
Talvez


Resultado Parcial
Comentar esta Enquete
Recomendar esta Enquete

Em nossa enquete anterior, perguntamos: de 0 a 5, que nota você daria para a edição da ANPU regional (2012)? 638 pessoas votaram na enquete. O resultado foi o seguinte: 0 (27,90%), 5 (22,24%), 3 (16,14%), 4 (15,05%), 2 (7,99%) e 1 (7,68%).

Parceiros


NOSSOS OUTROS PROJETOS

Política de Privacidade

Para ler nossa "Política de Privacidade", clique aqui.

© 2013   Criado por Bruno Leal.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço

body, .xg_reset .xg_module_body { line-height: 1.3; }