Estados Unidos - Como explicar a hegemônica dicotomia entre partido Republicano e Democrata?

Por que a política nos Estados Unidos da América está polarizada entre esses dois partidos?

Exibições: 611

Responder esta

Respostas a este tópico

Olha... é necessária uma análise bem mais profunda e complexa do contexto sócio-histórico dos EUA para responder essa questão com um mínimo de propriedade. Mas, assim de sopetão, posso arriscar que a polarização entre republicanos e democratas tem raízes históricas que remontam ao processo de colonização (com a diferenciação entre “modelos” de colônias) e a formação do país depois da independência e da guerra civil que se seguiu. Pessoalmente, acredito que a polarização trata-se muito mais de discordâncias entre frações da classe dominante do que alguma diferenciação ideológica mais profunda. Se os democratas apresentam, por vezes, propostas e posturas, digamos, “mais abertas”, no fundo são liberais e defensores do modelo capitalista tanto quanto seus “adversários” republicanos. Na prática, também endossaram uma política externa intervencionista que marca historicamente o país do “Big Stick”. Basta uma rápida pesquisa sobre as ações dos diversos presidentes para comprovar essa “tese”. Bom... é o que penso. Espero outras opiniões.
Olá JH! Bom contar com sua participação.

Realmente é um debate que exige aprofundamento.

Pelo que entendo da História dos Estados Unidos (não é tanto), essa polarização remonta a meados do século XIX, como um espelho político-partidário do que acontecia no país. O Partido Republicano opunha-se a escravidão e o Partido Democrata era a favor da escravidão. O que é bastante curioso hoje em dia, já que Obama, primeiro presidente negro dos Eua, pertence ao Partido Democrata, famoso por defender os direitos dos negros. Trata-se de mudanças na própria linha dos dois partidos, especialmente ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Quem quiser ler mais a respeito, existe um texto interessante:

http://www.embaixada-americana.org.br/HTML/electionsinbrief/partido...

Sobre a diferença entre ambos, de fato, não é tão profunda. Mas acho que são significativas, especialmente no tocante a Política Externa.

Outra curiosidade: também existe um Partido Verde nos Estados Unidos, mas que é tecnicamente inexpressivo. Mas, no fundo, torna tudo muito intrigante, haja vista que o discurso da oposição nos países ricos geralmente é o discurso ambiental. Como explicar tão poucos votos no Partido Verde?
Do link indicado acima, destaco um trecho interessante:

As pesquisas de opinião pública desde a década de 1990 têm mostrado de forma sistemática um alto grau de apoio popular à idéia de um terceiro partido. No período preparatório para as eleições de 2000, uma pesquisa do Instituto Gallup constatou que 67% dos americanos eram favoráveis a um terceiro partido forte que apresentasse candidatos a presidente, ao Congresso e a cargos eletivos estaduais em contraposição aos republicanos e democratas indicados. São exatamente esses sentimentos, mais os excessivos gastos de campanha, que permitiram ao bilionário texano Ross Perot obter 19% do voto popular para presidente em 1992, o mais alto percentual obtido por um candidato de terceiro partido desde que Teodore Roosevelt (Partido Progressista ) obteve 27% dos votos em 1912.
O Partido Verde seria uma terceira via ao revezamento histórico dos Democratas/Republicanos no governo dos EUA.
A hegemonia tem características conservadoras e nacionalistas que depedem do ponto de vista de cada um e do contexto político/economico de cada época.
No século XIX a idéia de uma democracia bipartidária não era exatamente cara aos americanos. Na década de 1890, por exemplo, o Partido Populista angariou muitos votos de fazendeiros e pequenos arrendatários com um discurso voltado contra a especulação imobiliária e contra a transformação da "América Industrial", defendendo valores mais conservadores e "românticos", se é que poderia se dizer isso.

Na década de 1910, o Partido Socialista americano era um dos partidos mais fortes entre o operariado urbano. A Industrial Workers of the World era uma forte organização política e que tal como em países europeus, mostrava as relações entre o movimento operário e sindical com partidos políticos.

O que muda então, no século XX? Do lado dos setores rurais, o Partido Populista perde espaço e os republicanos gradualmente conseguem espaço no sul exatamente com esses setores. Voltados para uma política de fortalecimento dos fazendeiros e menos afeitos à formação de trustes que caracterizou a política de Teddy Roosevelt, os republicanos conseguiram se fortalecer e ganhar espaço inclusive sobre seus rivais Democratas.

Entre os setores do operariado, o Red Scare dos anos 20 e o dos anos 50 fustigaram qualquer tentativa da esquerda se fortalecer na política partidária. Além disso, depois da Segunda Guerra o crime organizado passou a se expandir pelo controle sindical como forma de conter grupos esquerdistas, no que teve relativo sucesso. Por sua vez, republicanos e democratas conseguiram acumular "capital político" com a derrocada de vários partidos, algo que possivelmente pode ser atribuído pela própria flexibilidade ideológica de muitas de suas principais figuras até os anos 60. É somente com a intensificação das lutas sociais dos anos 60 que boa parte do Partido Democrata se mostra simpatizante dos movimentos por direitos civis, enquanto os Republicanos se colocam com setores mais conservadores politicamente.

Acho que é a partir apenas dos anos 90 é que começam a surgir alternativas mais fortes entre o bipartidarismo. O Green Party americano, por exemplo, é considerado um reduto da esquerda-liberal mais extremista, tendo inclusive decidido a eleição de Bush em 2000 (os Democratas lamentam até hoje que os 5% de votos em Ralph Nader permitiram a vitória de Bush sobre Al Gore, mas isso é outra história). Há também o Libertarian Party, um partido liberal (no sentido liberal econômico) bastante radical, onde um dos principais nomes, Ross Perot, foi o terceiro candidato mais votado nas eleições presidenciais de 1996.

@Fernando: só uma correção, Ross Perot  nunca  foi candidato do "Libertarian Party".

 

Em 1992, Perot concorreu como "independente", i.e. sem filiação partidária, e obteve 18,9 % do voto popular (vs. 43,01 % do democrata Bill Clinton e 37,45 % do republicano George H. W. Bush). O candidato do "Libertarian Party" em 1992 foi Andre Marrou, que recebeu 0,28 % do voto popular.

 

Na eleição seguinte (1996), Perot concorreu pelo "Reform Party", que ele mesmo tinha fundado em 1995, e conseguiu apenas 8,4 % do voto popular (vs. 49,2 % para Clinton e 40,7 % para o republicano Bob Dole). Em 1996, o candidato "libertarian" foi Harry Browne com 0,5 % dos votos, enquanto o candidato "verde", Ralph Nader, teve 0,71 %.

Porque interessa aos grandes grupos econômicos, os dois partidos não são muito diferentes hoje. Os ministérios de GWBush e de BHObama estão tripulados por muitos quadros de Wall Street, Obama tentando tomar medidas como o seguro saúde é atacado por conservadores, como "socialista", exagero e surreal.
O Império segue a linha de sempre: a Guerra do Afeganistão, invasão de um país com Obama continua, vai mandar mais 40.000 soldados e anuncia a retirada, paulatina, a partir de uma ano e meio, levou um prêmio Nobel da Paz(dizem os que concordam pelas suas futuras atitudes).
Obama faz o "bail-out" do sistema financeiro, salva grandes bancos, salva a GM e a Chrysler da falência, interfere na economia, um pouco como fez FDR nos anos 30, está tentando controlar os bancos, tem apoio de Paul Volcker, assessor de Economia, mas não deoutros auxiliares oriundos de Wall Street.
O Capital manda e não pede nos EUA, não existe hoje a menor possibilidade de um governo no estilo FDR, hoje a grande maioria dos quadros está ligado a grandes grupos econômicos, a Mídia é muito pouco crítica, para saber mais sobre os EUA é necessário ler a imprensa francesa ou inglesa. Estão encalacrados e não conseguem criar uma alternativa.
Ralph Nader, Ross Perot tentaram mas não conseguiram, não há espaço para um terceiro partido, para o Sistema está ótimo: Republicano e Democrata. O grande capital é Republicano, mas tem forte influência no Democrata.
O desmonte dos controles da economia da era FDR foi iniciado no governo de Ronald Reagan, e prosseguiu nos dois governos de Bill Clinton, o avanço de mando do grande capital não parou, é da dinamica do modelo.
A imprensa desinforma a massa, que está interessada em "junk food", e "soap opera", a mediocridade, e a superficialidade e o consumismo são a marca da "civilização" Americana, e nisso os dois partidos, em regra, estão iguais.
Os EUA não podem aceitar nada diferente do que eles fazem, querem convencer o mundo de que estão certos mesmo falindo, como agora. Não vejo no médio prazo espaço para uma mudança do modelo americano, o modelo está blindado.
Abraço,
Roberto Puccia Bianchi
Olá, Bruno! Eu não diria que a política norte-americana como um todo esteja polarizada entre esses dois grandes partidos. As eleições sim. Pois quando penso na política norte-americana, identifico facções conservadoras, liberais, ecológicas e defensoras dos direitos das minorias mesmo nos dois maiores partidos. Além disso, há uma forte influência decorrente do papel desempenhado pelas ONGs, sendo considerável a atuação dentro da política não partidária.

Tenho dúvidas, Rodrigo. 

Como indico na pergunta do fórum, refiro-me mesmo a partidos. Sem dúvida que são coisas diferentes.

Ainda assim, mesmo dentro dessas organização mais fracionadas (ex. direitos das minorias) a politização me parece orientado pelo clichê republicano ou democrata. Não te parece? Ou esses grupos possuem outra orientação política?

Realmente é polarizada, mas existem centenas de pequenos partidos nos EUA.Os gigantes Burro e Elefante representam diferentes elites dominantes claramente definidas no quadro social americano.Os Democratas tem raízes rurais (Jimmy Carter-plantador de amendoin na Geórgia) enquanto que os Republicanos detem muito do poder industrial e de exploração de recursos naturais (Os Bush- petroleiros sócios da familia Bin Laden).Como são muito poderosos,o voto nao é obrigatorio e os americanos não dao a minima para politica (Não sabem localziar no mapa a propria Washington) esses partidos dominam o cenário politico americanocom propaganda pesadíssima em cima da massa votante.Diferentementedo México onde o bipartidarismo é imposto por lei desde a Revolução.Uma especie de ditadura legalista como tantas que atormentam nosso mundo atualmente.

Um fator importante é o mecanismo eleitoral americano, em que se aplica o voto distrital, ou seja, só quem se elege em uma determinada região é o candidato mais votado. Isso tende a reduzir o número de partidos à medida em que grupos menores preferem apoiar um candidato com maiores chances ao invés de lançar um próprio sem grandes chances.

E acredito que o terceiro maior partido nos Estados Unidos neste momento não é o Verde, e sim o Libertário. Entenda-se a palavra não no sentido de anarquista como o resto do mundo usa, mas no de "capitalista a favor do menor governo possível".

É uma boa explicação, Emannuel. Obrigado!

RSS

LINKS PATROCINADOS

Conteúdo da Semana

O historiador Fábio Koifman (UFRRJ) conta ao Café História como transformou mais de sete mil documentos em uma pesquisa histórica bem sucedida e conversa sobre outros assuntos, como a sua relação com os arquivos no Brasil

Links Patrocinados

Cine História

Somos tão jovens

Está em cartaz nos cinemas brasileiras o tão aguardado filme sobre Renato Russo e o começo da Legião Urbana. "Somos tão jovens" é dirigido por Antonio Carlos Fontoura.

Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.

Enquete História

Você acredita que João Goulart foi assassinado por agentes da ditadura militar?

Sim
Não
Talvez


Resultado Parcial
Comentar esta Enquete
Recomendar esta Enquete

Em nossa enquete anterior, perguntamos: de 0 a 5, que nota você daria para a edição da ANPU regional (2012)? 638 pessoas votaram na enquete. O resultado foi o seguinte: 0 (27,90%), 5 (22,24%), 3 (16,14%), 4 (15,05%), 2 (7,99%) e 1 (7,68%).

Parceiros


NOSSOS OUTROS PROJETOS

Política de Privacidade

Para ler nossa "Política de Privacidade", clique aqui.

© 2013   Criado por Bruno Leal.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço

body, .xg_reset .xg_module_body { line-height: 1.3; }