Como os historiadores podem encontrar em fotografias e imagens indícios de relações sociais, de mentalidades, de formas de consciência social, de maneiras de ver o mundo, de nele viver?

Segundo José de Souza Martins, na sua obra "Sociologia da fotografia e da imagem", o fascínio da fotografia sobre todos nós está naquilo que por meio dela nossos olhos visitam em nosso passado, no de nossos antepassados e de nossos contemporâneos. Está também na nossa estranha relação com os álbuns de família ou as caixas de sapato em que guardamos esses ícones da nossa memória afetiva. Como os historiadores podem encontrar em fotografias e imagens indícios de relações sociais, de mentalidades, de formas de consciência social, de maneiras de ver o mundo, de nele viver e de compreendê-lo?

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As imagens formam uma representação do real. Suas relações com a memória são intrínsecas. Dessa forma, por meio de uma análise minuciosa e por vezes mesmo uma exegese, atrelada ao contexto de sua produção, o Historiador pode evidenciar indícios de relações sociais nelas contidas. Tais indícios tornam-se parte dessa mentalidade ou até do imaginário, possibilitando uma visão do passado com fortes relações ao tempo presente, permitindo assim uma maior compreensão da ordem dos acontecimentos.

Caro João,

obrigada por participar desta discussão. Acho que o historiador ao trabalhar com as imagens é indispensável ter em conta que o próprio fotografado, em muitas circunstâncias, é um poderoso coadjuvante do ato fotográfico e que, portanto, o real é a forma mais objetiva de como a ficção subjetiva do fotografado interfere na composição e no dar-se a ver para a concretização do ato fotográfico.

Além do que, a imagem possibilita registrar as transformações de certos momentos da vida e de certos acontecimentos históricos.

Abraços.

A análise de imagens aliada ao contexto me faz lembrar da tradução dos hieróglifos (Egito), por Jean-François Champolion. Seus concorrentes não levavam em conta o contexto do que era abordado nas paredes dos templos ou nos antigos papiros, ao passo que Champolion, profundo conhecedor da história e da cultura egípcia, tinha uma potente ferramenta que o auxiliou no entendimento desta linguagem, quase matemática. A chave dos hieróglifos, segundo Champolion, era de que cada imagem tinha, também, aspectos ideográficos (a imagem usada era um referencial ao assunto abordado - um "falo" tinha conotação meramente sexual, mas poderia significar, também, virilidade ou vida). Lembrando que nossa primeira forma de linguagem foram pinturas rupestres que carecem de detalhes, mas ainda assim são competentes no que se propõe a informar.

A fotografia torna-se ainda mais valiosa se observarmos a época ou a cultura do fotografado. Se há, ali, uma sociedade com uma hierarquia fixa, cercada de estereótipos, praticamente podemos dizer que a fotografia faz todo o trabalho. Basta apenas o historiador manter sua bagagem cultural atualizada.

ISTO FICA FELIZ EM SER ÚTIL.

Acredito que fotografias e imagens são um prato cheio para um historiador atencioso, claro, junto com uma pesquisa cabal em torno da imagem, informando qual foi o objetivo da fotografia e a mensagem que ela passa.
 Acredito que as imagens fotográficas permitem , sim,ver relações   sociais  , hierarquias  sociais,maneiras de interpretar  grupos sociais, relações de cumplicidades , modos de ver o mundo.... Tudo depende de intencionalidade de quem produziu  o documento fotográico, como, também, da intencionalidade de  quem dele se aproxima , do que se"pergunta" à imagem congelada da fotografia
A fotografia, tal qual uma obra de arte, e às vezes a fotografia o é, deve ser vista e entendida subjetivamente. Depende dos olhos de quem a vê. Obviamente, dependendo da intenção do autor da imagem, podemos perceber indícios de relações sociais, mentalidades, etc., mas o fascinante da fotografia é a possibilidade que ela nos dá de, diante dela, remexermos nosso baú de memórias, motivando os mais diversos sentimentos e emoções, nos fazendo continuar a ter fortes relações com o passado, seja ele relativo a nossa vida familiar e social ou relativo à acontecimentos históricos.  Um historiador atento saberá fazer as pesquisas necessárias em torno da imagem e compreender o que deve ser compreendido, sendo ele, nesse momento, mais um observador diante de um registro fotográfico, fazendo suas considerações a respeito do que vê, certamente com certa dose de subjetivismo

 A fotografia é a representação da intenção do real, e não o real em si. O que é preciso que faça o historiador como certa vez disse Walter Benjamin é "escovar a história a contrapelo", o que significa que é preciso ler nas entrelinhas.

 Não se pode adotar uma retrato como representação do real, e sim buscar interpretar a fotografia segundo interesses nela contidos. Por que foi tirada? onde? era uma campanha publicitária? era uma foto familiar? enfim...

 Se imaginarmos um exemplo simples podemos citar as fotografias tiradas por familias de grandes proprietários rurais durante o império brasileiro onde vestiam os escravos com roupas finas apenas para as fotos, mas as expressões do rosto do escravo transparecia outra coisa. Se eu acreditar na foto como um todo, como representação do real, eu vou estar cometendo um erro perigoso de interpretação que pode comprometer e muito o meu trabalho.

Valeu pela contribuição, Carlos!

Há muitos elementos fotográficos que o historiador pode mapear: a maneira como as pessoas posam para as fotos, os trajes, o semblante, o cenário, a disposição dos fotografados, a direção do fotógrafo, a ordem dos fotografados (quem está do lado de quem? Mais alto ou mais baixo?), enfim, muitos outros. Eu começaria por aí.

Prezado Bruno,

creio que os caminhos para uma observação da memória fotográfica seja por ai mesmo. Através de tais observações, podemos perceber várias situações, por exemplo, em uma foto familiar, quem é a matriarca? Ou, se a mulher na foto está atrás do homem, isso sugere alguma submissão? E o olhar dos filhos para baixo, quer dizer respeito e submissão ao pai? Enfim, deixo ai várias sugestões para pensarmos o que a fotografia nos sugere ou o que gostaríamos que ela sugerisse ao pesquisador, seja ele, historiador ou sociólogo.

Rúbia.

Prezada Rúbia,

Pinturas egípcias sugerem tudo o que você comentou e, podemos entender assim (creio), fotografias são pinturas tecnologicamente ousadas. A postura de quem está representado nas pinturas expõe claramente sua posição na sociedade. Por exemplo, pinturas que retratam a Batalha de Kadesh (Ramsés II contra seus rivais Hititas), o faraó aparece enorme e seus inimigos pequeninos.

Uma clara demonstração de que ele era superior e de determinação infalível (apesar de não ter obtido uma vitória, está mais para um empate técnico). Escrevi sobre esta guerra, caso alguém tenha interesse visite O Ideal e o Possível. O link está ai, mas a questão das fotos é realmente interessante.

Prezado Carlos,

realmente as imagens fazem parte do nosso cotidiano desde a época das cavernas, os registros arqueológicos dos homens pré-históricos que ai estão em diversas cavernas não nos deixam mentir, assim como essa necessidade de se registrar a vida cotidiana fica bem presente em todas as culturas. Vejo esse registro no caso da fotografia, como parte do nosso imaginário que passa a cumprir funções de revelação e ocultação na vida cotidiana. Por exemplo, ao se deixar fotografar o indivíduo pode se deixar revelar sua alegria ou tristeza, ao mesmo tempo que pode ocultar as mesmas. Portanto, as pessoas são fotografadas representando-se na sociedade e representando-se para a sociedade. Acredito que a partir dai a fotografia tece uma história que pode estar vinculada à nossa memória, seja ela social, coletiva, afetiva e individual.

Bom, é uma temática que nos rende muito. Agradeço pela sua contribuição e aguardo a resposta.

Rúbia.

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