Até que ponto a África do Sul avançou desde a libertação de Mandela?

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Acredito que tá melhor do que estava...tenho certeza, preconceito não leva a nada e nem a lugar algum.

Cancela,

Como no Brasil, um dos maiores problemas ao meu ver na África do Sul continua sendo o acesso desigual a educação de qualidade. Os números do Censo são conhecidos: 76 % dos brancos adultos  e 62 % dos indianos têm pelo menos o ensino médio completo versus apenas 35 % dos negros e 33 % dos pardos (Coloureds). Para entender melhor o problema, entretanto,  é preciso examinar com maior detalhe algumas características atuais da rede de ensino básico na África do Sul.


No tempo do Apartheid, todas as escolas sul-africanas eram estritamente segregadas por "raça". Havia escolas separadas para "brancos", "negros", "pardos" (Coloureds) e "indianos", com currículos diferentes e sob responsabilidade de diferentes departamentos governamentais. As possibilidades de acesso ao ensino superior ou mesmo ao ensino médio eram limitadas para "não brancos", especialmente negros e pardos. Com o fim do Apartheid, existe agora um sistema único (integrado) de ensino fundamental e médio sob a responsabilidade de um único departamento (ministério) nacional da educação básica (DBE). Esse sistema único divide-se, porém,  como no Brasil, em escolas ditas independentes (i.e. particulares), que representam menos de 5 % das matrículas no país como um todo, e escolas públicas, que atendem a grande maioria dos alunos domésticos.


As escolas independentes, em geral, são totalmente autofinanciadas por pagamento de anuidades (school fees) e têm uma flexibilidade maior em termos de currículo e métodos de ensino, seguindo algumas vezes inclusive currículos internacionais, p.ex. Cambridge A-Levels.  Já as escolas públicas seguem um currículo nacional padronizado definido pelo DBE do ano zero (Reception Year) ao fim do ensino médio, culminando no ano 12 em exames externos padronizados que levam a um certificado nacional (o National Senior Certificate) que permite, dependendo das notas obtidas pelo aluno, o acesso à universidade. Uma diferença significativa, entretanto, em relação ao Brasil é que as escolas públicas sul-africanas, mesmo no ensino básico,  podem  cobrar anuidades dos seus alunos e, na verdade,  frequentemente são pagas.


Em pincípio, as escola públicas são financiadas por grants do governo nacional (DBE)  que são administrados localmente em cada província por departamentos provinciais de educação  responsáveis pela manutenção dos prédios, pagamento de professores, distribuição de livros-texto, etc.  A quantia por aluno que cada escola recebe do governo depende, entretanto, do nível de "pobreza"  da região onde a escola se encontra, medido através de indicadores como renda média, taxa de desemprego e escolaridade média da  comunidade local.  Escolas em zonas "pobres", por exemplo áreas rurais ou townships (favelas), recebem proporcionalmente mais dinheiro por aluno e, ou são totalmente gratuitas até o nono ano ("No Fee schools") , ou cobram anuidades bastante baixas. A qualidade desses escolas "pobres", que geralmente correspondem àquelas que historicamente eram reservadas para os "negros" na época do Apartheid, é porém baixa e seus  indicadores associados (evasão, porcentagem dos alunos que ingressam no ensino superior,  notas nos exames externos padronizados etc.) são muito ruins (como no Brasil).  


Por outro lado, as escolas públicas localizadas em zonas urbanas "ricas",  que em geral correspondem às escolas historicamente "brancas" , chamadas antigamente de Model C  schools , recebem proporcionalmente menos dinheiro por aluno do governo, o que é compensado pela cobrança de  anuidades bem mais altas do que nas outras escolas públicas  e por doações (contribuições voluntárias) de fontes privadas (por exemplo, ex-alunos). Como as Model C schools mais tradicionais,  estabelecidas no século XIX e início do século XX,  tipicamente arrecadam muito mais em anuidades e outras fontes  do que recebem do governo , grande  parte das suas despesas, incluindo pagamento de parte dos  professores e  manutenção de  arenas e equipamentos esportivos , são autofinanciadas . O respectivo School  Governing Body  (formado pelo diretor e representantes de pais, alunos, ex-alunos e professores) tem  assim muito mais liberdade, inclusive na gestão de recursos, em relação ao governo, adquirindo uma caráter às vezes descrito como semiprivado.  As  Model C schools  históricas e de maior prestígio chegam na verdade a rivalizar em qualidade as melhores escolas particulares sul-africanas  (a um custo, porém, mais baixo) e compartilham com as particulares uma cultura característica herdada das escolas inglesas  (código de honra; segregação por sexo. i.e. escolas só para meninos ou só para meninas;  internato no caso de alguns alunos; ênfase em esportes como rugbyfield hockeycricket; e  orientação religiosa, tipicamente cristã protestante).

Pela lei sul-africana, um aluno não pode ser expulso ou impedido de frequentar uma escola pública pela incapacidade de pagar anuidades, mas a escola pode acionar judicialmente os pais (ou guardiães legais) do aluno para recuperar anuidades não pagas.  A lei diz também que, se a renda anual combinada dos pais for inferior a dez vezes o valor da anuidade escolar, o aluno se habilita a obter isenção completa de pagamento (fee exemption); se a renda dos pais ficar entre dez e trinta vezes o valor da anuidade, o aluno pode obter uma isenção parcial. Em tese, esses mecanismos legais permitem a um aluno de baixa renda frequentar, por exemplo, uma Model C public school tradicional independentemente da sua capacidade de pagar as taxas escolares, Na prática, entretanto, o acesso às escolas públicas "ricas", especialmente para negros e pardos pobres é limitado por outros fatores.


Primeiro, apesar de serem escolas públicas, as Model C schools, principalmente as tradicionais escolas históricas, adotam uma política de admissão seletiva, que. embora não inclua exames de ingresso como nas escolas particulares,  envolve entretanto entrevistas presenciais, análise do histórico escolar e avaliação não só da capacidade acadêmica do aluno, mas também do seu potencial de contribuição, dentro do modelo educacional inglês, para as atividades sociais, culturais e esportivas  da escola.  Adicionalmente, independentemente desses critérios acadêmicos e extracurriculares de seleção,  dá-se preferência na admissão para alunos residentes na área geográfica onde se localiza a escola, o que automaticamente penaliza os alunos pobres cujas famílias não têm renda suficiente para viver nos "bairros nobres". Da mesma forma, as chamadas legacy preferences, i.e preferências para filhos por exemplo de ex-alunos, favorece os candidatos brancos.

Segundo,  outro obstáculo (secundário) ao acesso, não propriamente de alunos de baixa renda, mas mais especificamente de alunos "negros" em geral, é a existência de um segmento de escolas historicamente "brancas" onde o africâner ("holandês do Cabo")  é a língua principal de instrução no lugar do inglês.  O segmento de escolas de língua africâner, entretanto, é bastante reduzido comparado ao de língua inglesa e muitas das escolas africâneres na verdade hoje oferecem instrução bilíngue (em africâner e inglês), embora em turmas separadas por língua, o que pode indiretamente  reintroduzir uma forma de segregação racial.


Em geral, indianos e a "nova classe média alta" negra surgida após o Apartheid têm acesso hoje, junto com os brancos,  às escolas particulares de elite ou às Model C schools públicas mais tradicionais. As famílias negras e pardas da classe média baixa ou da classe trabalhadora, porém, em geral têm acesso apenas à rede pública convencional, historicamente subfinanciada e, na prática, ainda segregada de facto (já que lá se encontram pouquíssimos brancos ou indianos).

Cancela,

 Só para ilustrar, já que, como diz o clichê, "uma imagem vale mais do que mil palavras", seguem abaixo  alguns vídeos sobre escolas secundárias na província do Cabo Ocidental.

O primeiro vídeo é um filme promocional em inglês da Paarl Boys' High School (também conhecida em africâner como Hoër Jongenskool Paarl),  uma escola bilíngue (em inglês e africâner)  apenas para meninos localizada na idílica cidade de Paarl , fundada pelos holandeses na atual região vinícola do Cabo por volta de 1690. Trata-se de uma das antigas Model C Schools, i.e. como explicado na mensagem anterior, escolas públicas que, entretanto, são pagas (i.e cobram anuidades) e são em grande parte autofinanciadas, recebendo correspondentemente menos recursos do governo. No tempo do Apartheid, essas escolas eram reservadas exclusivamente para "brancos", mas hoje são teoricamente integradas.
Paarl Boys' High School, Paarl, Cape Winelands
O segundo vídeo, feito por duas voluntárias europeias, mostra brevemente uma escola pública secundária em  Khayelitsha ("Novo Lar" em xhosa), que é uma grande favela nos arredores da Cidade do Cabo onde 98,6 % da população é formada por negros africanos segundo o censo de 2011.
Esangweni Senior Secondary School, Khayelitsha, Cape Town
Ainda ficando em Khayelistha, os clips  abaixo são reportagens de um canal de notícias na África do Sul sobre vandalismo e violência em escolas locais.
Finalmente, para ilustrar novamente o contraste, mais um vídeo sobre uma Model C public school de língua inglesa só para meninos no afluente subúrbio de Rondebosch  na Cidade do Cabo, onde, segundo o Censo, 62,7 % da população são brancos. O perfil da escola se assemelha ao da escola anterior em Paarl, como é característica de todas as escolas particulares ou públicas pagas históricas na África do Sul (modeladas nas Escolas Independentes inglesas).
Rondebosch Boys' High School, Rondebosch, Cape Town
Note que todos esses vídeos mostram a realidade da África do Sul pós-Apartheid e ilustram, portanto, quanto o país ainda precisa avançar em inclusão social e oportunidades iguais para todos.

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