Questionamento corriqueiro em sala de aula, pouco enfrentado e quase nunca respondido.
Toda hora milhões questionam (e a evasão escolar é uma forma surda de questionamento), buscam sentidos e significados para o ofício de estudar este ou aquele assunto.
Para que e para quem estamos transmitindo o conhecimento histórico? Como e com que mecanismos é possível "linkar" este conhecimento com a realidade, com a experiência de vida dos alunos e seus dilemas contemporâneos? Como "dar sentido" ao estudo de história para a "galera", notadamente a "da periferia"?
P.S.: desenvolvi mais sobre esse 'dilema' em: http://cafehistoria.ning.com/profile/WanderleyCAVALCANTE

Tags: Sentido e significado do estudo de história, história e problemas contemporâneos, repertório dos alunos

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Que saber é esse?

Como é possível julgar o que é bom ou que é mal sem uma comparação?
Como é que se pode entender a realidade que vivemos? Como sem entendermos o seu porquê? Sem entender o porquê dela ser como é. Sem entender que outras possibilidades haviam, se elas haviam e porque não vingaram. Igual se perguntar porque de onde tiramos ideias, inspiração quando por si não nos ocorrem elas. De onde pode se fornecer ideias que se mostrem novidades quando não temos inspiração por si só? Igual eu pergunto se podemos comparar e definir algo como grande ou pequeno sem algo como medida? Ou mesmo o agora se melhor ou pior que outros tempos? Que matéria escolar pode melhor nos responder essas dúvidas?
Talvez possa dizer a filosofia, mas e se eu lhe dizer que ela pode ser filha de um outro saber, onde a observação e a comparação também levam ao pensamento. Sem precisar de teóricos ou teorias. Então com isso, certamente não dirá que é a sociologia. Será a Geografia, estudo do meio que vivemos? Que nos mostra como é e como se formou o ambiente que ocupamos? Te digo que não tanto quanto esse saber que para fazer pensar, de inicio não precisa nem de livro, pois todos o têm e sempre vão ter.
Então porque ele é importante ser usado na escola? Porque passado todos têm, mas nem todos aprendem a vê-lo sozinho. Mas vejamos que é com o estudo do passado que se lembra erros que passaram, se compara situações e se tira conclusões. É vendo o passado que vemos experiências que podemos repetir se sabermos se vale a pena ser repetido. É com o passado que nasce boa parte da geografia humana. Mesmo passado que, muitas vezes, inspira a arte e as histórias que chamamos literatura, cinema e televisão. Mesmo passado desfaz mitos e ajuda a entender a sociedade aqui e fora de onde vivemos. E nos ensina a tolerância dos credos (religiões) ao vermos como surgem e a falta de lógica no seguimento cego. E como se forma a relação de mando e obediência, poder, política e instituições.
Justo o saber considerado só mera curiosidade, só mero passatempo. Saber que o senso comum acha que não ensina nada de prático. Saber que eu te pergunto se você sabe agora qual é. E se sente que ele serve para algo com o pouco que te perguntei?

Professor Luis Marcelo Santos
Marcelo...perfeito! Do ponto de vista de amantes da história, já convencidos, conscientes...
Meu dilema (deixe-me explicar melhor) é o COMO, o modus operandi, para despertar esse entendimento/convencimento no aluno.
Tomemos como exemplo os alunos noturnos, com suas conhecidas dificuldades impostas pela realidade,a falta de perspectivas animadoras, a precariedade da formação básica, o descrédito em um sistema de acesso à universidade pública e ao mercado de trabalho extremamente excludente...
Eles precisam ser conquistados, e infelizmente, pelo menos num primeiro momento, num sentido prático mesmo (é, a pergunta que eles fazem é essa mesmo: "prá que que eu quero saber das fases da Revolução Francesa?"...).
Para além do discurso que fazemos sobre a importância da história, o salto de qualidade que precisamos dar é aprofundar a discussão sobre o modo de operar o CONTEÚDO PROGRAMÁTICO de modo a facilitar o reconhecimento do aluno da importância da disciplina pelo vínculo real, prático que a mesma tem ou pode via a ter com sua vida.
A pergunta "prá que eu vou estudar história?" procura esperiências, repito, práticas, dessa conquista.
Grato pela contribuição.

Wanderley Cavalcante
Wanderley: entendo muito bem a sua preocupação e acho que mais historiadores deveriam ter a sua preocupação. Sendo que ao meu ver o problema da história em sala de aula hoje é que ela não é trabalhada de modo a fazer o aluno compreender a sua realidade. Hoje, ainda se faz de mero decorar pelo decorar, no máximo como uma curiosidade. Para isso ser mudado o primeiro passo é fazer se compreender o que é a História que no fundo nada mais é do que o estudo de todas as ações humanas coeltivas ou individuais. Ou seja, todos nós temos e fazemos história, conscientes ou não disso. A diferença que é consicentes podemos tentar direcioná-la para um rumo melhor para nós. O aluno precisa entender que ele também tem e faz história, tanto a sua (o que é mais fácil) como a de sua coletividade, o que é mais dificil de ser compreendido. O aluno em geral nao se percebe que mesmo quando ele não interage com os fatos que o cercam, ele está colaborando de um modo ou de outro para tal desdobramento. Talvez aí a história devendo começar por analisar a realidade onde dados alunos vivem, os fazendo analisar o porque de seu meio ser assim, a sua história. Depois a comparando com a história de outras coletividades, mas sempre de maneira coerente, sem nos deixarmos levar por paixões ideologicas que muitas vezes assustam nossos alunos para quererem se aprofundar numa analise histórica. Todos nós temos ideologias, não importa qual, mas não podemos impô-las. Sendo que há muito mais a ser discutido, mas creio que a artir do momento que o aluno começa a entender os mecanismos sociais de sua realidade local, se torna mais fácil querer entender estruturas maiores. Por exemplo: porque nessa comunidade as pessoas tem dada mentalidade. O que levou elas a pensarem assim. Como foi em outras localidades. quais os problemas maiores desse modo de ser de tal comunidade. que anseios essa comunidade espera, mas não se percebe depender dela também, etc. Em suma, tentarmos primeiro mostrar como a história desfaz os sensos comus que nos amaram, antes de partirmos para abstrações mais complexas. Sendo que tal entendimento não é tarefa fácil, visto que muitos professores também tem essa dificuldade se fazendo assim meros repetidores de um conteudo que sabem, mas muitas vezes não o compreendem realmente. Caso, ache que eu possa ser util, ficarei feliz em poder continuar mais adiante esta pauta. Um abraço.
Boa pergunta! Ainda não tenho nenhuma experiência em sala de aula, mas também penso que os alunos não tem noção da importância da História e muitos professores infelizmente não estão preocupados em desenvolver o tema. Bom, tenho pelos menos teorias formadas ou pelo menos em construção a respeito do assunto, por isso acho interessante abordar algo que faça parte da vida deles e lhes é indispensável, fazendo uma ponte entre presente e passado, e mostrando que se dado fato não tivesse ocorrido, hoje não teria a "coisa". Claro que isso é uma mera teoria, na prática "o burado é mais embaixo".
Postei o comentário abaixo no Grupo ENSINO DE HISTÓRIA-NÍVEL MÉDIO E DUNDAMENTAL, no FÓRUM "NA SALA DE AULA", (publicado por Cris Reis). A temática e o grupo lá já são um "locus" mais denso prá gente trocar idéias, ok?



Oi,
Esta questão está no centro de minhas preocupações (e aposto meu parco salário como é o dilema da grande maioria).
Tenhos umas teses (encontrei ressonância das mesmas em Cabrini, nos PCNs, no ENEM, etc.) que venho pondo em prática com alunos da periferia e me ressinto de uma troca de experiências concretas.
Infelizmente, o espaço deste comentário não permite o aprofundamento, mas aqui vão alguns norteadores:
1. TRABALHO COM CONCEITOS ("instrumentais de análise...que de fato serão a herança intelectual que a escola deixará para os educandos")
2. “REPERTÓRIO DOS ALUNOS”/ Atenção às questões do cotidiano (dar vida e sentido ao estudo de história “tomando como ponto de partida e referencial a própria experiência de vida dos alunos e a reflexão sobre ela”)
3. DIÁLOGO constante ENTRE PRESENTE E PASSADO

Como fazer isso sem fazer um rebaixamento do programa e de forma criativa, não mecânica, é o grande desafio.

No meu blog (http://cafehistoria.ning.com/profile/wanderleycavalcante) escrevi três pequenos artigos sobre o tema.
Estarei lançando em breve umas propostas práticas na linha do que lá descrevo: um BANCO DE IDÉIAS ("LINKANDO O ENSINO DE HISTÓRIA À VIDA REAL") onde desejo discutir idéia concretas de abordagem em sala de aula tendo aquele ponto de partida citado acima (item 2).

Um abraço,
Wanderley
Parabéns Wanderley. Aprecio sua iniciativa. Isso sim é valorizável. Não panacéias e proselitismos. Há muitos que se atêm ao linguajar rebuscado e nada produzem de concreto.
José Paulo,
Com todo respeito, talvez você e Paul Veyne não precisem se preocupar com a fome no mundo, com a destruição do planeta, e com a necessidade de formarmos jovens para serem cidadãos do mundo, agentes históricos conscientes e não meros "curiosos".
Não sei se as crianças famintas de África, o degelo da calota polar, as meninas prostituídas do norte do Brasil ou a juventude traficada terão a sorte de depender da Astrologia para resolver seus problemas (e não da história como instrumento para a compreensão e transformação dessa realidade).

A historiadora brasileira Emília Viotti da Costa retruca Veyne: "Para mim o presente sempre preocupou mais que o passado. Neste eu procuro as raízes daquele. Vejo a História como uma forma de compreender o presente. Nunca fui uma colecionadora de histórias".

É isso. "Colecionadores de histórias" e "curiosos" temos aos montes nas portas de cursinhos ou mesmo na Academia. Penso, humildemente, que não é justo para com aquelas crianças, cada um de nós, como cidadão ou professor, desperdiçarmos nosso conhecimento. Quem estuda história conhece o choro milenar dos desvalidos.

Parafraseando Gullar: "Porque ensinar história não pode ser uma traição à vida, e só é justo ensinar se o nosso ofício arrasta as pessoas e as coisas que não tem voz".

Um abraço.
Se é ultrapassado ou não dizer que a História serve para que a humanidade não repita erros do passado, eu não sei, mas concordo piamente com esta afirmação. Claro, sejamos sinceros, ou tu ama a coisa por si só, por ser um investigador/curioso por natureza ou tu não vai achar muita graça na coisa, a mesma coisa que a gente pensa de outras áreas do conhecimento por exemplo. Eu acho matemática bem inútil em determinados pontos.

Mas gente, na sala de aula a coisa tem que ser diferente. É o mesmo que fazer um estudante adolescente entender que trigonometria é legal e vai servir pra vida dele. Não é a questão de mentir para o aluno, ou continuar ensinando coisas sem sentido, mas todos sabemos que conhecimento é fundamental, em todas as áreas. Seja para amadurecer conscientemente, seja para passar em vestibulares ou concursos. Eu sou professora em uma escola muito carente da minha cidade, e vejo que os alunos sem informação, sem desenvolver conhecimentos científicos mínimos (seja pelo problema que for, desde falta de interesse particular ou problemas de aprendizado vindos por dificuldades com a família) não é um cidadão completo quanto os alunos que já tive e que se interessavam um pouco mais. Se a História serve para alguma coisa ou não, é decisão de cada um, mas que o conhecimento é fundamental para o nosso amadurecimento, isso é inegável.
para tentar refletir sobre as mudanças nas sociedades.
Eu não me formei (ou melhor, em formação) na academia só por curiosidade, e sim, pela importância da História em nosso cotidiano (nada contra os curiosos). Mas eu também tenho outras curiosidades em outras disciplinas, como economia, física e cibernética. Se eu apenas tivesse curiosidade sobre história, então eu estudaria em casa e leria livros sobre o assunto, e não me formaria academicamente na área (volto a dizer, nada contra os curiosos).
A História tem importância sim. Por quê? Porque ela esta em todo lugar, por toda parte que você vê, ouve e toca. Por incrível que pareça, está até no sabor da comida que você come. Como disse John Kennedy, "A história é um mestre implacável(...)".
Para terminar tenho três frases:
"O que é a História?": "É a ciência dos Homens no transcurso tempo." (Marc Bloch)
"A história é testemunha do passado, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, anunciadora dos tempos antigos." (Cícero)
"A história é êmula do tempo, repositório dos fatos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro." (Miguel de Cervantes)

Falo isso com todo o respeito possível a todos. Desculpem se fui rude.

Obrigado.
Pessoal, claro que não pagamos horrores de faculdade simplesmente por sermos "curiosos" em relação ao curso, mas creio que a curiosidade é o principal sentimento que nos levou à tomada da decisão na hora do vestibular. Sinceramente, quando entrei na faculdade não sabia nada, não lia muita coisa em casa, e na verdade prestei vestibular em História porque no terceiro ano do ensino médio tive um professor totalmente apaixonado pelo que fazia, o que me fez gostar também. Sempre tive facilidade na disciplina, mas no início o que me moveu a escolher a História foi a curiosidade dos temas, o leque que me abriu quando eu vi as disciplinas...

Claro que nós, enquanto estudantes, historiadores, professores vamos defender o nosso lado, obviamente! Mas se levarmos ao pé da letra a pergunta em questão, ou melhor, se perguntarmos à qualquer cidadão na rua... a resposta será bem diferente do que realmente gostaríamos de ouvir.
Quando Ruth e Tiago, alunos de uma escola pública da periferia de Fortaleza mexem-se ansiosos na cadeira, olhares brilhando com a descoberta de conexões, antes inimagináveis, entre suas vidas pessoais, suas trajetórias e experiências de vida, com outros momentos históricos distantes no tempo e no espaço...ah! Não tem sensação melhor para um professor!

Quando, só prá ficarmos em alguns exemplos, enxergam links entre programas assistencialistas (tipo bolsas-família) e uma tal de política do Pão e Circo, entre um tal de Renascimento e as mudanças de mentalidade e concepção artística de suas épocas, entre a marginalidade típica de suas periferias advindas do êxodo rural e a questão da propriedade da terra num tal de Feudalismo ou na Colônia, entre a questão agrária atual e dois irmãos na Roma Antiga... enfim, quando enxergam concretude, LINK DA DISCIPLINA COM A VIDA REAL, percebem-se como parte desse movimento... ah! Não tem sensação melhor para um professor!

Ruth e Tiago, alunos da noite, cansados de um trabalho estafante, miserável e mal pago, com pais desempregados e com perspectivas pouco animadoras no funil do vestibular, querem, assim mesmo, ir fundo: desejam entender as estruturas de funcionamento das sociedades, os mecanismos que levaram algumas delas à destruição, outras à superação, o que umas fizeram melhor que outras, comparam, percebem, enfim, que há uma lógica de intervenção humana e social ao longo do tempo.

Ruth e Tiago existem. Aos milhares. Seria um desserviço transformar história só em thauma (ou seria trauma?) para esses meninos.

Claro que alguns professores, felizmente poucos, escolhem o caminho mais fácil. É menos trabalhoso cumprir algumas horas-aula sem se dar ao trabalho de despertar consciências e conquistar/formar pensadores do tempo presente baseados no passado. É mais cômodo... o resto é resmungar com aqueles que querem trabalhar...

Apelo para a bela maioria de professores que, a despeito das vicissitudes e do desestímulo, confundem seu ofício com missão sim!

P.S.: Caro professor José Paulo: responderei aos adjetivos “canalhas”, “boçal”, “Mané” e outras diatribes de seu comentário em outro espaço (meu e-mail é rwander64@gmail.com), em respeito ao público deste fórum e desta rede social, bem como por entender que a diversidade de opiniões tem que ser construtiva e de nível.

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Chega aos cinemas o filme islandês "Sobrevivente", de Baltasar Kormákur. 

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