A historiografia é composta apenas por obras escritas ou o não-escrito também pode ser visto como uma obra de história?

Atenção, pessoal: não estou me referindo a fontes históricas. Estou me referindo às obras produzidas pelos historiadores.

 

Por exemplo: ninguém duvida que o livro "O Trato dos Viventes", de Luiz Felipe Alencastro, é uma obra (importante) da historiografia brasileira. Mas e se Alencastro tivesse produzido um filme sobre o mesmo tema do livro: escravidão. Isso seria uma obra historiográfica?

 

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Tags: teoria

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no meu modo de entender, não. Por uma questão semântica, creio eu, pois historioGRAFIA deve se referir apenas a escrita da história.

Creio que o uso de filmes, imagens, etc. está em fase de expansão na história hoje em dia, mas não sei se seria correto dizer que existe uma "historiografia dos filmes sobre escravidão", por exemplo, a não ser que fosse referente ao "conjunto dos livros publicados a respeito de filmes sobre a escravidão".

Filmes, imagens e outros recursos audio-visuais serão sempre apoio para a história, que deve ser, essencialmente, escrita.

Grande abraço;
Oi, Almir! Obrigado pela colaboração. Ultimamente, tenho me defrontado bastante com esta questão. E confesso que ainda não tenho uma opinião totalmente fechada a respeito dela. Por isso, queria muito ouvir o que os todos pensam e conversar a respeito.

Você começou a sua discussão no ponto certo: a partir da etimologia da palavra. De fato, historiografia significa escrita da história. Por outro lado, acho que o sentido de "escrita" deva ser entendido mais do ponto de vista simbólico. Por exemplo: geografia = escrita da terra ou ainda descrição da terra. Nesse caso, não estamos falando necessariamente de uma escrita no sentido de palavras, nem de símbolos gráficos.

E mais: não seria a escrita da história encontrável em outros espaços como os museus, nos monumentos urbanos? Não sei ao certo. Só lanço esse questionamento. Eu tive um professor de história que defendia que o historiador deveria estar sempre atento às várias formas de escrita da história. Hoje, penso mais do que nunca nesta frase.

De qualquer forma, apesar de ainda ter muitas dúvidas, acho cada vez mais que é possível fazer obras historográficas em outras mídias. O que talvez nos falte - e nos torne difícil a visualização de um filme como obra historiográfica - sejam os parâmetros acadêmicos para se organizar um filme digamos com rigor científico. Na história escrita, esta que fazemos em nossas dissertações e teses, já há um conjunto de regras, de normas, de procedimentos há alguma tempo definidos e que conferem legitimidade e autoridade ao produto do historiador. No caso de outras mídias, não. Então, acho que se nós historiadores conseguirmos estabelecer este rigo, poderemos sim produzir obras historiográficas em outros meios: visuais, orais, holográficos...enfim, o que a técnica puder nos oferecer.

Vamos ver o que os demais colegas cafeínos também pensam a respeito. Obrigado e um abração!

Mas o sufixo "grafia"
ACREDITO QUE SIM, AFINAL JÁ SE VÃO MUITAS OBRAS BASEADAS EM ELEMENTOS NÃO GRAFADOS COMO SUPORTE HISTORIOGRÁFICO (NÃO APENAS COMO FONTES). EXEMPLO DISSO SÃO AS FOTOGRAFIAS. NA VERDADE, ENTENDO QUE DESDE A ESCOLA DOS ANNALES ISSO JÁ SEJA POSSÍVEL, FALTA-NOS, COMO TU DIZES, DEFINIRMOS AS DIRETRIZES PARA CONDUZÍ-LA.

PELÍCULAS CINEMATOGRÁFICAS PRODUZIDAS POR CHAPLIN, NOS DÃO NÃO APENAS A VISÃO DO RPODUTO EM SI, MAS DE TODA UMA INTERPRETAÇÃO CONTEMPORÂNEA. O MESMO SE APLICA A OBRAS COMO GUERNICA, DE PICASSO ENTRE TANTAS OUTRAS...

ABRAÇO
Boa contribuição, Sérgio. Você citou ótimos exemplos para pensarmos a questão. Porém, essas exemplos envolvem pessoas que não historiadores de ofício (por ex. Picasso), embora tenham produzido peças importantes para a compreensão de um tempo. Minha pergunta vai mais nesse sentido: um filme (digamos, feito por historiador) pode ser considero uma obra historiográfica ou é apenas um filme, devendo ser lido como uma obra cinematográfica? abração!
Olá! Entendo que sim, ainda que contrariando o sentido literal do termo já que grafia vem de escrever. Isto porque se trata de registrar a memória do país. Se a historiografia pode ser considerada a arte de registrar a história, pouco importa a forma ou o estilo adotados pelo autor da obra.
Olá, Rodrigo! De fato, em muitos aspectos a história se aproxima mais da arte do que da ciência. Por outro lado, eu destacaria que história e memória são coisas diferentes. Assim, como história e passado também o são. A história é um produto intelectual do historiador, que trabalha com uma parte do passado, a partir de determinados procedimentos que legitimam essa fala sobre o passado. Uma legitimação diferente, por exemplo, da memória. Mas essas questões são relmente difíceis. Como diria José Carlos Reis, a historiografia é explicada pelo própria historiografia no tempo. E assim vou aprendendo com todos os colegas do fórum...abs!
Eu diria que os filmes possam nos dar uma outra visão da historiografia do perriodo(que é retratado pelo fime), Doctor Zhivago, apesar de ser um romance nos revela vidas de pessoas comuns, que fizeram parte da guerra civil Russa, um lado humano que os livros (antes) não se preocupavam em retratar, concordo com ALMIER FERREIRA, quando ele diz que podem nos servir de apoio para enriquecer a história.
É verdade, Morgana. Você está certíssima. Mas aí estaríamos falando de uma fonte histórica (primária e secundária) e não de obra historiográfica, não?
Bem , apesar de não ser Historiador, e quando muito um ex- Acadêmico frustrado de Licenciatura em História na UERJ tempos passados a que renunciei por motivos particulares e que tempos depois uma passagem no IFCS (UFRJ) da vida - respondo com alma de Advogado que sou , filho da Luz e da UFF... dizendo que essa questão do não escrito é uma discussão eterna na Ciência do Direito tb. a que ouso pincelar a nível pluridisciplinar - existe enfim um direito natural (jurisnatural) ? antes dele, DIREITO, está exposto em norma , no chamado direito objetivo? Mas, o assunto aqui é HISTORIOGRAFIA ... em primeiro momento , talvez pela não especificidade da Ciência em si voltada a indagação pro mundo da História... fez lembrar de Memória , história oral... tradições orais... que elencadas reduzem em fontes todas as chamadas Ciências Humanas. O escrito não é tudo mesmo... respondo com elementos da Biblioteca do CMU - Centro de Memória da Unicamp - e o elenco de obras do Historiador Lapa... Assim, a historiografia não deve ser mera enumeração de autores e obras, numa desambiciosa descrição do que se escreveu em História. Antes, ela “deve captar em profundidade o conteúdo das obras, da palavra, das idéias e da própria ação dos historiadores ao longo de sua vida, com todas as suas implicações, procurando interpretar o seu significado”. O Autor defende a idéia de que a historiografia precisa ser crítica, tendo assim, uma dimensão epistemológica. Historiografia pode ser a Filosofia do Conhecimento Histórico, a Crítica do Conhecimento Histórico ou a Epistemologia do Conhecimento Histórico. É estudo das obras em que se substancia esse conhecimento histórico. LAPA, José Roberto do Amaral. Historiografia Brasileira Contemporânea; a história em questão. Petrópolis: Vozes, 1981.
Boa contribuição, Tito. Você fez um paralelo interessante. Desde os romanos, sabemos que a lei que vale é a lei escrita. COm a historiografia, ocorre algo mais ou menos parecido. Cabe a nós, agora, pensar se isso continua valendo ou se é preciso revisar esse postulado. Lembrando, claro, que na historiografia não estamos tentando estabelecer códigos ou normas. abs!
Acredito que não. Um exemplo disto é o DVD sobre Siracusa produzido pelo Laboratório de Estudos sobre a Cidade Antiga do MAE-USP. Não se pode negar o caráter historiográfico do trabalho. Ou ainda alguns documentários (não necessariamente os de divulgação geral), como alguns que analisam elementos arquitetônicos - tenho um sobre o pártenon que traz tanta discussão historiográfica quanto qualquer manual escrito.

Também acredito que partir da etimologia (de grafein) é começar errado. Em primeiro lugar, os gregos não possuíam suportes muito diferentes além do escrito para colocar as suas discussões. Não tenho dúvidas de que se Heródoto dispusesse de vídeos, de que ele não relutaria em utilizá-los.
Em segundo lugar, tomar a etimologia grega para justificar a nossa prática esvazia o conteúdo da própria prática. Quando Diodoro da Sicília (Biblioteca Histórica, IV, 1) usa o termo historíografía ele não se refere às discussões sobre a prática de escrever história, mas somente ao próprio ato de escrever história - de contá-la. Se o seguirmos, contar história sobre qualquer suporte é historiografia.
Bacana, Danilo. Sua perspectiva é enriquecedora. O seu exemplo sobre o DVD é muito pertinente. Afinal de contas, o espaço simbólico de produção dessa obra é legítimo do ponto de vista acadêmico. Mas uma provocação: como devemos encarar essa peça, obra historiográfica, cinemetográfica ou uma mistura de ambos?

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