A história revisionista da Primeira Guerra Mundial de Niall Ferguson tem base factual ou não ?

O historiador escocês radicado nos Estados Unidos, Niall Ferguson, hoje professor da Universidade de Harvard, é conhecido por suas posições políticas (ultra)conservadoras, seu suposto saudosismo do imperialismo britânico, e, acima de tudo, por suas opiniões polêmicas que questionam o consenso histórico estabelecido. Em uma de seus livros mais controversos, The Pity of War, vendido no Brasil se eu não me engano com o título mal traduzido em português O Horror da Guerra, Ferguson apresenta uma história revisionista da Primeira Guerra Mundial cujas teses centrais são que a Alemanha  teria sido  na verdade forçada a entrar em uma guerra preventiva em 1914, que se converteu em uma guerra mundial de longa duração como consequência de decisões equivocadas e irresponsáveis do governo britânico da época, e que a não entrada do Reino Unido e dos Estados Unidos na guerra, com uma possível vitória da Alemanha, teria produzido um efeito comparativamente positivo no longo prazo na história europeia e mundial.

No livro, Ferguson desenvolve essas duas teses centrais procurando negar o que ele chama de "mitos" a respeito da história da Primeira Guerra, por exemplo:

1) Que o Império Alemão era um Estado altamente militarista antes de 1914:  ao contrário, Ferguson alega que a Alemanha era, em termos relativos, muito menos militarista do que seus adversários potenciais como a França e a Rússia.

2) Que o desafio representado pela expansão da Marinha Alemã levou o Reino Unido a buscar alianças com a França e a Rússia antes de 1914: ao contrário, Ferguson alega, de forma bem controversa, que a aproximação do Reino Unido com a França e a Rússia foi  na verdade uma forma de apaziguamento desses dois países e que, inversamente, uma aliança anglo-alemã não se materializou como alternativa justamente devido à fraqueza relativa da Alemanha.

3) Que a diplomacia britânica da época era guiado por receios legítimos em relação à Alemanha: ao contrário, Ferguson novamente alega que a Alemanha não representava nenhuma ameaça significativa aos interesses britânicos antes de 1914 e que a apreensão britânica em relação à Alemanha era motivada principalmente por medo e preconceitos essencialmente irracionais.

4) Que a corrida armamentista pré-1914 na Europa estava consumindo parcelas crescentes dos orçamentos nacionais a uma taxa de crescimento insustentável: ao contrário, Ferguson afirma que as  limitações a um aumento dos gastos militares antes de 1914 eram principalmente de natureza política e não econômica.

5) Que a Primeira Guerra foi uma "guerra de agressão" provocada pela Alemanha, que exigiu a intervenção britânica para evitar que a Alemanha conquistasse a Europa reeditando o projeto napoleônico contra qual o Reino Unido já lutara 100 anos antes: de novo, Ferguson alega que as consequências de uma hipotética vitória alemã numa guerra regional mais curta e limitada, por exemplo  uma redução do poder da Rússia no Leste Europeu, uma possível anexação alemã de colônias belgas e francesas na África, e o estabelecimento de uma união aduaneira dominada economicamente pela Alemanha incluindo também os países do Benelux, os países escandinavos e, possivelmente a França, como uma percursora da atual União Europeia, não contrariavam os interesses britânicos em 1914 e , pelo contrário, teriam sido mais favoráveis no longo prazo para o  Reino Unido do que as consequências produzidas pela Primeira Guerra ao longo do século XX.

Em relação ao ponto 5, Fergunson vai ainda mais além e, em um exercício de "história alternativa", imagina no epílogo do livro um futuro hipotético após a vitória do Império Alemão na Primeira Guerra onde a Europa seria um continente próspero e pacífico, onde o comunismo e o fascismo não teriam se materializado (ou, no caso do fascismo, teria se materializado não na Alemanha, mas provavelmente na França sob outra forma), onde a Segunda Guerra Mundial não teria acontecido, e o Reino Unido teria mantido seu império e preservado sua posição de potência financeira dominante do mundo ao invés  de perder essa posição para os Estados Unidos.

Pessoalmente, a exemplo de muitas outras resenhas do livro, vejo problemas graves com essas suposições e com as interpretações de Ferguson, muitas das quais podem ser inclusive consideradas contraditórias entre si, mas gostaria de ouvir também as opiniões dos participantes do Café.

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Respostas a este tópico

Tenho a ideia de que os grandes historiadores necessitam de apresentar novas interpretações dos factos como forma de se afirmarem como alternativa aos que os precederam e também porque, efetivamente, lhes ocorrem ideias novas. Daí eu questionar a sua pergunta "A história revisionista... tem base factual ou não". Julgo que haverá praticamente sempre uma "base factual", o problema coloca-se não aí mas na qualidade e verosimilhança das interpretações e valorização relativa dos factos que configuram a "base factual". Factos que justificam, ou aparentam justificar, determinada interpretação sempre se encontram..., mesmo que seja obrigatório "esquecer" ou minimizar abusivamente outros factos que para não enfraquecer as teses apresentadas. Lembro sempre a sentença de Paul Valéry "A História justifica tudo aquilo que se quiser..." .

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