Duas falas sobre o passado. Duas maneiras de lidar com aquilo que se foi. Qual a diferença entre Memória e História? Os que aproxima e distancia uma área da outra?

Tags: história, memória, passado, teoria

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Respostas a este tópico

Bom, para responder essa pergunta seria bom termos lido o mega-livro do Le Goff. Mas arrisco aqui meu palpite. Acho que a história conta as sincronias e diacronias do tempo, mantendo uma narrativa com certa logica e sentido. Já a memoria permite uma ligação com o passado que não passa pela relação causa-efeito, é uma ligação direta. Exemplo: Quando lembramos de um fato somos transportados para o momento em que ele ocorreu. Isso é memória. Já quando contamos o mesmo fato a outros, desenvolvemos uma narrativa em que o fato está inserido em um contexto, com outros fatos e relações entre eles. Deu para entender, ou está muito confuso?
abraços

Gostei muito de suas considerações.

Rs... interessante este tópico. Me fez lembrar do meu último ano quando minha professora repetia continuamente "o historiador não pode fazer o papel de ingênuo". Na verdade a frase é do Le Goff, mas o importante é ter esta consciência na formação da cada profissional. História NÃO É memória. E embora a história se utilize deste recurso devemos lembrar que a memória é falha, por vezes corrompida.

Já discutimos muitas vezes sobre a questão da história em estabelecer os fatos como realmente ocorreram. É uma pretensão nobre mas quase impossível. Nesse sentido, quando se usa a memória (para a interpretação da história) temos várias e várias leituras possíveis (às vezes coexistindo ao mesmo tempo para nosso desespero), rs...

Mas bem... a verdade é que história sem memória também não existe. E o que vamos fazer? :)

Abraços.
É uma questão muito interessante essa que foi levantada pelo Bruno. De fato as concepções de Memória trazem consigo uma reflexão. Quais as diferenças que se podem ser detectadas entre lembrança do passado e memória do passado ? acho um tema relevante pois muito se discute e também muito se confunde sobre esse tema. Pierre Nora, como sabemos, afirma que os "lugares de memória" como ele chama, é o lugar ou espaço em que a memória pode ser (re)vivida ou (re)criada". Então, e o cruzamento desse conceito com o de História ?. Por isso, acredito eu, vale muito a pena a discussão, por ela faz com que abramos nossa percepção sobre os temas e nos localizemos frente à percepção teórica.
São muitos pontos que precisam ser identificados quando se pondera sobre as aproximações entre memória e história, como os colegas vem apontando. O processo de entendimento da memória como elemento de formação de identidades, portanto de construção histórica, passa pelo individualismo de Berguisson e o coletivismo de Halbwachs. Se concordarmos que a memória, como a história, está associada a uma aceitação coletiva, o espaço da memória pode ser visto como um processo de manutenção de determinadas tradições. Uma forma de conservar o passado, que se pretende rememorar, dentro do presente. O que pode trazer a discussões sobre as formas de manutenção de poder... outro papo...
Há braços
Bom... A grande questão entre Memória e História que eu observo é que, apensar de tratarem do mesmo "objeto", o fato passado, o fazem de forma diferente.
A memória não obedece a regras, se transforma ao longo do tempo, se reconstitui cada vez que se rememora o fato.
A história, por sua vez, se faz sobre um método (e aí entra outra questão polêmica, mas tb já discutida exaustivamente na Academia), devendo questionar a "integridade" de suas fontes, sejam elas escritas ou orais.
Neste último caso, embora caminhem juntas, história e memória não devem ser confundidas, considerando-se extamente essas particularidades.
Essa é uma questão bastante discutida, principalmente por historiadores franceses.Segundo Henry Rousso, a memória se faz a partir do esquecimento, isto é, de uma valorização do presente. Ela é sempre coletiva, ou seja, construída pelo momento histórico em que se vive. Significa dizer que mesmo que o indivíduo tenha uma memória própria, essa memória está situada num universo mais amplo, onde há valores intrisecos da sociedade em que se vive. Por esse motivo, as lembranças se modificam, pois são influenciadas pelo meio e época em que se vive. A memória, para esse historiador, é uma construção e reconstrução do passado em função de interesses do presente. Determinados grupos buscam legitimação no presente recorrendo a memória. Nessa reconstrução para determinados interesses, fatos são esquecidos. A História ao contrário, parte em busca do que está escondido. Enquanto a memória recupera o passado para legitimação do presente, a História recupera o passado para compreensão do presente e melhor percepção do futuro. Neste ponto, a memória tende a ser estática à medida que se prende ao passado por simples legitimação do presente, não acrescentando nada de novo, nenhum conhecimento. Já a História, é sempre dinâmica à medida que está sempre se modificando, sendo revista , gerando conhecimento. Claro que isso não quer dizer que a memória não tem valor. Segundo o historiador francês Pierre Laborie a memória deve ser usada pelo historiador como objeto de estudo, mas não deve ser confundida com a História. A memória é uma instrumentalização do passado, que pode ser usada tanto para o bem ( entende-se aqui como objeto de estudo da história) como para o mal ( para legitimação de grupos , promoção de antigos rancores...)
Sobre os comentários anteriores, acho importante destacar que o que um professor de história/historiador diz não corresponde ao que "realmente aconteceu", pois, segundo Michel de Certeau, o historiador fala a partir de um lugar social, portador de intencionalidades. Assim, embora embasado no método, o conhecimento histórico também é passível de análise e de críticas quanto a sua veracidade.
Sobre a memória, não a vejo como estática. Pelo menos não sempre. Os processos de rememoração reconstroem a memória a cada momento.
Sempre que se recorda, se faz a partir do presente, das experiencias e intencioalidades do momento...
Mas é claro que existem memórias "estáticas", se assim podemos chamar. Principalmente quando são resultado de uma produção coletiva que intencione legitimar um grupo. Quando isso ocorre, é comum encontrarmos narrativas semelhantes dos diferentes membros desses grupos/comunidades.
No entanto, isso não é um fato absoluto...
Quando pensamos a memória individual, mesmo construída de forma coletiva, pois segundo Halbwach, toda memória se constrói com intermédio de outrem, através de trocas de experiências coletivas, ela pode sofrer alterações. As narrativas podem variar de acordo com o momento em que o sujeito narra, a partir de sua intenção.
Acho ótima essa discussão pois defenderei minha monografia de graduação na próxima semana (21/05) e trabalho com a relação história e memória. O título do trabalho é "Os Caboclos de Guarany: História e Memória das disputas pela terra (1908-1922)".
Abraços!!
Quando disse que a memória era estática, não me referi a reconstrução, mas sim no fato dela se reter a um passado em função de um presente. A memória muda, mas sempre será de acordo com o presente, o presente no passado. Exemplo: holocausto ou Shoah. Há todo um trabalho de memória que mexe com um passado, mas não há um grande aprofundamento quando ficamos só nesse campo. Sempre se dirá sobre as torturas, sobre as penúrias passadas pelos judeus, homenagens de hoje a quem morreu nos campos, relatos de vítimas porém, nada dessas coisas geram o conhecimento por si só. Mesmo porque descarta as outras pessoas que não eram judias e morreram nos campos e todo processo que veio antes. Pois para entender tal fato, devemos ir além e não criar vitimas nem vilões. Enquanto a memória perpetua a imagem de vítima (ou heróis), a história ao contrario, busca uma melhor análise desse passado, afim de compreendermos como aconteceu levando-se em conta a complexidade que é o ser humano . Não se trata de buscar a verdade, mas a compreensão de todo um processo que acarretou o genocídeo, por exemplo. A memória perpetua sentimentos, enquanto a história está em constante transformação, ela liberta. Nesse sentido que entendo, baseado nos historiadores franceses que li, que a memória é estática. O historiador deve trabalhar com a memória, mas não se deixar levar por ela. O historiador não pode ser um memorialista. Deve sempre ter uma postura crítica. Iclusive, há um texto do crítico literário Tzvetan Todorov (os abusos da memória), em que ele faz uma comparação interessante entre memória e história partindo da psicanállise. Os medos ou bloqueios que temos são derivados muitas vezes de memórias reprimidas. Ao resgatarmos as memórias reprimidas, compreendemos melhor porque agimos de certa forma, deixamos nossa postura de vítima e acabamos por aniquilar nossos medos ou bloqueios. Através de um resgate de um passado , conseguimos assim melhorar e compreender nosso presente (história). No entanto, se ao invés de utilizarmos o passado para melhorar o presente, ficarmos presos a ele, vivendo aquilo repetidas vezes, aumentaremos então nosso sentimento de medo, nossa postura de vítima. Prenderemos o presente ao passado (memória).
Pretendo aqui colocar minha visão sobre o assunto de forma coloquial, ou seja, sem a utilização de algum teórico sobre o assunto. Penso na memória como um relato histórico ou uma produção intelectual, acadêmica ou não, que trás em si códigos culturais possíveis de serem analisados pelos historiadores ou as disciplinas auxiliares da história, como: antropologia, sociologia, dentre outras( tenho a impressão que atrairei a ira de muitos com essa afirmação). Já a História baseia-se na utilização da memória, da arquitetura, da música, e de outras produções humanas, no presente, objetivando a contrução de um futuro que é almejado baseado na experiência dos homens do passado de mesma cultura ou não. Ou seja, os conceitos se fundem, a memória está intrínseca, inerente à mesma. Não sei se contribuo.
Memória e história são, a priori, percepções do passado claramente diferenciadas. A memória é uma vivência em evolução constante, visto que depende do grupo em que se constitui, é plural, é um fenômeno sempre atual. A história é definida tradicionalmente como uma reconstrução científica; tende a delimitar um saber constitutivo e durável, é uma representação do passado que demanda análise e um discurso critico.
A dificuldade para estabelecermos os graus de aproximação entre história e memória é que não possuíamos um conceito exato e objetivo nem de história e tampouco da memória. De fato, não há uma lógica objetiva que possa dar conta do imenso emaranhado de fios que cortam a memória e a história.
Quando falamos de história, creio que é o caso aqui, estamos a pensar numa dimensão academica do saber sobre o passado. Não é, então, apenas sobre os eventos que ocorreram, mas sobre o modo como lidamos com eles, os meios de acesso ao passado e as técnicas e métodos utilizados neste trabalho.
E quando falamos de memória estamos a nos referir a experiencias emotivas que são profundamentamente subjetivas. Mesmo quando falamos da memória coletiva, precisamos referir ao sujeito que percebe uma dada coletividade por que obviamente os eventos que marcam as diversas coletividades dependem de quem conta e relembra o passado.
Em resumo, não vejo nenhuma saída para o problema das relações entre memória e história num campo especificamente conceitual. Não é possível privilegiar este ou aquele campo reflexivo sobre os termos em detrimento dos muitos outros que se disponibilizam à medida em que os pesquisadores, os atores sociais e as instituições oficiais ou não, estão atuando e produzindo seus olhares.
Logo, entendo que é muito mais produtivo apreender as articulações entre história e memória no momento de suas efeitvações concretas. Ou seja, quando se trabalha determinados temas do passado ou mesmo do presente visando uma investigação ou mesmo uma justificativa para se defender determinados bens históricos, grupos sociais ou étnicos ou mesmo certos artefatos culturais ou ainda as praticas simbólicas que desejamos preservar.
Abração a todos

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Líbano e Egito: Leia na íntegra a dissertação "Alguns aspectos sobre o processo da democratização dos sistemas políticos no mundo árabe: Egito e Líbano como modelos de estudo", do pesquisador Younus Khalifa Haddood. O trabalho foi desenvolvido no Programa de Pòs-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Dissertação defendida em 2007. Clique aqui.

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