Tags: 1964, Golpe, Jango, Resistência
Permalink Responder até Brancaleone em 28 agosto 2011 at 19:21
A alguns anos conversei com minha mãe, tios e tias que foram testemunhas oculares dos fatos de 64. O tio Neco inclusive fazia parte de uma associação de agricultores com viés de esquerda mas não muito e minha mãe era uma espécie de jornalista informal...
Todos foram unânimes em dizer que Goulart entregou os pontos rapidinho por ter a certeza que resistir seria impossível e sobretudo ele não tinha como resistir pois afinal mal e mal lhe sobraram para lutar uma espécie de Guarda Pretoriana constituida de uns seguranças.
Mas segundo minhas testemunhas oculares o golpe era inevitável porque boa parte da sociedade temia a instauração no Brasil de regimes comunistas similares aos que existiam em lugares como a URSS, Cuba, China e similares e convenhamos que eram PÉSSIMOS EXEMPLOS de democracia de esquerda. Coletivizações forçadas, gulags, censura, desapropriações, muro de Berlim, etc. etc. etc. faziam do comunismo uma ameaça muito, mas muito pior que todas as desgraças atribuidas ao capitalismo e neste caso a opção foi pelo menor dos males.
Meus ancestrais vieram da Polônia em duas etapas. Os primeiros por volta de 1890 e os últimos fugidos em 1956 e estes últimos tinham sentido na carne o que era a ideologia comunista e foram sim a favor do golpe.
Caros Senhores (as),
Para as pessoas que não têm princípios, esta discussão se resume a uma verificação de quem dispunha de maiores meios. Se o lado A tem dez mil homens e 100t de armamento e o lado B tem cinco mil homens e 50t de armamento, decreta-se que o lado A, por antecipação, é o vitorioso e que ao seu oponente só cabe a fuga. Se esta lógica brasileira predominasse no mundo, praticamente não teríamos assistido guerras. Ninguém ousaria desafiar os poderosos.
Ocorre que, nos conflitos sociais não pesa apenas o fator "meios materiais". Pesam inúmeros outros fatores, como a "vontade", a "honra nacional", "a convicção de ter a razão ao seu lado", "o nacionalismo", "a repulsa ao estrangeiro dilapidador das riquezas nacionais" mas, sobretudo, a certeza de que "o poder não se entrega ao inimigo sem luta".
Jango, no fundo, como originário das elites, comportou-se segundo as regras vigentes entre elas, ou seja, caso um conflito intraelites extravase aos seus controles, desencadeando uma mobilização das massas trabalhadoras, elas imediatamente se recompõem entre si, unindo -se contra o perigo que aquela mobilização representa para os seus interesses. Este, para mim, o sentido da fuga de Jango.
Os fatos de 64, cinquenta anos depois, já são História, fartamente documentados. Causa estupor que, tanto tempo depois, alguém não se vexe de repetir os mesmos argumentos golpistas que a Grande Imprensa da época não se cansava de brandir, cumprindo o seu papel na conspiração, que era o de criar as condições psicológicas para que o golpe se efetivasse.
Jango não era comunista e nem as reformas que propôs tinham caráter socializante. Reforma Agrária e alfabetização em larga escala já tinham sido feitas no século anterior nos Estados Unidos e na Europa. O problema é que, segundo a ótica míope da época, tudo que favorecesse o trabalhador era visto como comunismo e prejudicial aos interesses burgueses, o que não deixa de ser um grande elogio à ideologia libertária.
Permalink Responder até Brancaleone em 30 agosto 2011 at 17:09
O meu texto retratou o que as pessoas comuns entendiam na época e não o que a elite intelectual pensava.
Aliás, em história falta muito isso : Saber o que os Zés da Silva pensavam. A verborragfia de esquerda ou de direita da época pouco chegava ao cidadão mais comum - eram tempos literalmente préhistóricos em termos de comunicação e os fatos circulavam mais no boca a boca do que via imprensa -
Muitas pessoas viam em Jango um reformador exagerado, um libertário alem do necessário.
Na minha família conta-se o epísódio de meu Avô Estefano ( polaco de 2mts de altura que fez fortuna no Brasil) juntando amigos e dinheiro para contratar gente para matar Getúlio quando este promulgou as leis trabalhistas... Ou seja, cada um ve as coisas do seu ponto de vista e interesse.
Sr. Brancaleone,
É uma lástima que Gregório Fortunato não tenha sabido da existência do seu avô.
Permalink Responder até Brancaleone em 4 setembro 2011 at 19:23
Permalink Responder até Emannuel Reichert em 30 julho 2012 at 17:35
Brancaleone,
Muito bom ter lembrado que precisamos distinguir o que os intelectuais pensavam (ou o que nós pensamos hoje) do que a população em geral achava. Só porque nós achamos que o Jango era um reformador e não revolucionário, e gente como o Brizola achava ele moderado até demais, não quer dizer que muita gente não pudesse acreditar de todo o coração que ele era um comunista ou coisa parecida. É muito fácil acusar as pessoas que vivenciaram uma época de não ter a percepção que temos hoje!
Permalink Responder até Bruno Leal em 30 julho 2012 at 13:53
Interessante o seu relato. Mas vale lembrar que URSS, Cuba e China não eram e nunca foram democracias.
Permalink Responder até Amanda Schmidt em 20 junho 2012 at 15:17
sem condições. Se o golfe falhasse o Brasil teria sido invadido pelo Estados Unidos. Os Estados Unidos não deixariam o Brasil se tornar uma nova Cuba, ou seja, um governo pró-URSS (comunista) como também não deixou o Chile em 1973. A América Latina era vital para o bloco capitalista na Guerra Fria. A Igreja Católica também foi a favor do Golpe.
Permalink Responder até Bruno Leal em 25 junho 2012 at 10:59
Não acho que o Brasil tivesse qualquer condição de se tornar uma "nova Cuba". Eram (e são) duas realidades nacionais bem diferentes. Mas essa comparação pegava e bem naquela época. A metáfora tinha a sua função política. Mas concordo com você, Amanha, quando diz que os Estados Unidos não apoiariam algum tipo de intervenção. Vários trabalhos historiográficos deixam isso claro, sobretudo aqueles do professor Carlos Fico.
Permalink Responder até Jose Luiz Beheregaray Jr em 25 junho 2012 at 16:42
Jango poderia ter planejado uma resistência, mesmo que pequena. Porem... qual seria o preço pago?
Derramamento de sangue e guerra civil.
Se Jango tivesse ordenado a mobilização do 32º B I Mtz, localizado em Petrópolis, poderia ter interceptado a coluna do Gen. Mourão Filho que vinha de Juiz de Fora (MG) pela BR-040 e eventualmente passaria por Petrópolis em direção ao Rio de Janeiro.
Porém, caso isso acontecesse, o negócio ficaria feio pois Gen. Mourão estava preparado para combate e esperava uma
resistência da parte de Jango; resistência essa que nunca aconteceu. Gen. Mourão tinha apoio dos EUA e em um mundo bipolar (capitalista vs comunista / azul vs vermelho) os EUA nunca aceitariam que o Brasil "ficasse vermelho", como já foi dito acima.
Tem um documentário bem interessante sobre o assunto, chamado "O Dia que durou 21 anos".
Permalink Responder até Bruno Leal em 30 junho 2012 at 10:45
Bem lembrado, José.
Acho que em algum lugar do CH temos esse documentário.
Permalink Responder até Emannuel Reichert em 25 junho 2012 at 21:12
Alguém sabe dizer até que ponto os EUA estavam dispostos a intervir? Quero dizer, o governo americano era pró-golpe, certo, e existia a operação Brother Sam, mas era um apoio mais pro forma a fim de incentivar os golpistas a seguirem em frente ou havia a intenção de realmente desembarcar tropas e colocar as metralhadoras em ação se começasse uma guerra civil?
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