O então presidente da República na época do golpe militar (1964) poderia ter liderado ou planejado uma resistência aos militares? Existiam condições para isso? O que os colegas do Café História pensam ou sabem a respeito?

Tags: 1964, Golpe, Jango, Resistência

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Existem várias posições conflitantes a respeito disto. Com a descoberta dos documentos sobre a Operação Brother Sam, em que era certo o apoio dos EU ao movimento golpista, e que Jango teria ciência desta operação, além de outros documentos que apontam para a possível interferência norte-americana no país, ao lado das forças conservadoras, aliado ao fato de que, em depoimentos, que eu mesma obtive, sobre a reunião em que Brizola conclamava à resistência falarem que o próprio General Ladário não tinha a firmeza na vitória do movimento, o que levou Goulart a ficar reticente em provocar uma guerra civil, com certeza com um grande número de mortos, fica difícil afirmar que seria esta a melhor alternativa. Costumam colocar Jango como o "rei fraco", o que não é verdade. É só olhar a sua trajetória política para isto. Não é uma apologia de ninguém, mas como historiadores temos que não nos deixar levar, também, pelas paixões e procurar, pela distância que tem e pela descoberta de novos documentos, entender as forças poderosas que ali atuavam.
Tenho pouquíssima informação sobre o governo Jango. Quando estava na graduação lembro-me de uma professora que dizia ter o Brasil relegado João Goulart ao esquecimento por causa da enorme duração da ditadura militar no país. Com isso, continuava ela, quase nada foi produzido - em termos de pesquisa - a respeito do nosso então presidente. Isto posto, quero dizer que, com base naquilo que li, que ouvi de professores e pesquisei, Jango fez de tudo para se manter no poder e implantar as reformas sociais de que o Brasil tanto necessitava, mas foi traído, perdeu forças paulatinamente, não conseguiu aglutinar alguns setores da sociedade e, pior, lutava contra uma imprensa que disseminou o vírus do golpe entre a classe média e preparou o terreno para os militares tomarem o poder. Tudo, claro, sob o manto cavernoso de uma possível virada brasileira para o comunismo. Jango era tão comunista quanto Lula. Mas interessava ao poder econômico vender essa imagem de Jango. Aliás, a imprensa em nosso país, está sempre envolvida em episódios como esse, sempre defendendo os grandes interesses. João Goulart, ao fim e ao cabo, era refém de um país que já vinha conturbado desde Getúlio. Ele apenas pagou um preço alto demais, talvez por ter acreditado que conseguiria reverter a situação que se apresentava, talvez por vaidade pessoal de ser Presidente da Répública, talvez por pressões impublicáveis, talvez...
Respondendo a vc, Marcelo, sobre a imagem de comunista imputada ao Jango, vou mostrar apenas um pequeno trecho da carta que ele enviou ao Presidente Kennedy, isto em 1962, em que ele se coloca como democrata e não comunista, mas que isto não significava submissão aos interesses intervencionistas daquele país, que ocorria naqueles anos em toda América Latina e que levou à disseminação de golpes de estado levando ao poder regimes autoritários, totalmente anti-democráticos.. Ao mesmo tempo, em documentos do próprio Departamento de Estado norte-americano, que vêm sendo liberados por lá, aparecem diálogos em que eles mesmos falam que Jango não era comunista.

"(...)Estou certo de que Vossa Excelência compreenderá as razões de minha apreensão. O Brasil é um país democrático, em que povo e governo condenam e repelem o comunismo internacional, mas onde se fazem sentir ainda perigosas pressões reacionárias, que procuram, sob o disfarce do anticomunismo, defender posições sociais e privilégios econômicos, contrariando desse modo o próprio processo democrático de nossa evolução. Acredito que o mesmo se passa em outros países latino-americanos. E nada seria mais perigoso do que se ver a OEA ser transformada em sua índole e no papel que até aqui desempenhou, para passar a servir a fins ao mesmo tempo anticomunistas e antidemocráticos, divorciando-se da opinião pública latino-americana.(...)"
Obrigado Jacqueline por me dar conhecimento deste texto que, como disse em minha resposta, pouco conheço a respeito de Jango, apesar de ser um tema que me proponho a estudar em breve porque o julgo muito interessante e rico. E esse fórum aqui, tem me sido muito útil e revelador. Estamos, afinal, recuperando a imagem de um ex-presidente da república e fazendo jus à sua imagem, trazendo, ao meu ver, a verdade à tona. Obrigado.

sabe onde é possível encontrar o conteúdo desta carta na íntegra, Jacqueline?

Bruno, vou passar dois links onde poderá ter a carta. Como estou um pouco afastada desta pesquisa específica, passei o arquivo para um backup e não tenho de imediato aqui comigo. Mas, pode ver por aqui: http://seer.cgee.org.br/index.php/parcerias_estrategicas/article/vi...

e  você pode procurar nos documentos da FUNAG - Fundação Alexandre de Gusmão, que tem vários trabalhos e documentos sobre as questões da política externa brasileira. (estou anexando o arquivo com a carta)

http://www.funag.gov.br/biblioteca/index.php

Abs

Anexos
Penso que Jango tinha conhecimento da realidade e soube avaliar bem com quantas forças podia contar à época. Fez uma retirada estratégica e poupou vidas e recursos.
Gostei das observações que li e gostaria de acrescentar, para apreciação dos colegas, o contexto internacional da época em que se deu o golpe: estavamos em plena guerra fria. Havia um clima, uma histeria que era muito maior do que a época em que Lula foi, na sua primeira eleição presidencial taxado de comunista. Acho que isso tem um peso muito grande e, não vejo outra saída para Jango naquele momento.
A exemplo do colega Marcelo, eu também não tenho muita propriedade para falar sobre o assunto, no entanto, assisti um documentário na TV Câmara e queria compartilhar com os amigos do Café História. No documentário em questão, alguns dos entrevistados, e especifico aqui o Brizola, afirma que o golpe não se configurou, uma vez que não houve a efetiva deposição do presidente, democraticamente eleito, pelas forças armadas . Na visão dele, pelo que eu entendi, o que aconteceu, na verdade, foi uma renúncia não oficial do presidente Jango, uma vez que ele se retirou, sem resistir, e viajou para o estado do RS. E mais, segundo um dos entrevistados, não me recordo o nome, ele poderia ter resistido, tendo em vista que detinha o apoio de alguns generais, principalmente, os ligados a Força Aérea, que só esperavam uma ordem para agir. Esta ordem nunca foi dada, tendo em vista, segundo o documentário, o temor de Jangon em iniciar uma guerra civil no pais, o que poderia dividir o pais em dois.
Sebastião, existem, como já disse, posições conflitantes sobre este tema. Incluo aí a do próprio Brizola. Já no documentário Jango, do Silvio Tendler, ele fala da proposta de resistência, onde ele seria nomeado ministro da Fazenda por Goulart e iria liderar as ações contra os golpistas. No entanto, é importante ressaltar, também, que o tão falado dispositivo militar de João Goulart não se sustentou como se esperava. Da mesma forma, era possível sim um ataque aéreo às forças que vinham de Minas, porém, também era possível uma resposta violenta por parte dos golpistas, principalmente pelo apoio bélico norte-americano ao governo de Minas Gerais. A posição de um presidente da República em uma situação crítica como era aquela, é uma tênue linha entre o certo e o errado, onde aquilo que se trata como uma fraqueza de caráter, pode também significar uma personalidade destituída de ambições desenfreadas para se manter no poder e preocupação com seu povo. É notório o golpe. Jango não havia saído do país, ao contrário, o próprio Darcy Ribeiro, o então Chefe da Casa Civil, reafirmava a presença do presidente em território nacional, e o o presidente do Senado Auro de Moura Andrade decretava vaga a presidência da República sob um manto de vaias e protestos. Como não houve a deposição? Precisaria Jango matar-se com um tiro, acastelado no Planalto, como fez Salvador Allende no Chile de 1973, para se caracterizar uma deposição pelos militares? Realmente, Jango optou por não haver uma guerra civil no país e a perder o poder, acreditando que seria possível uma retomada da democracia em tempo curto. Não aconteceu! Ele morreu 12 anos depois, sem ter voltado ao Brasil, ainda uma figura incômoda para a ditadura que aqui se instalou. Aquilo que muitos desconfiavam (eu mesma, inclusive), veio a tona com o depoimento do agente uruguaio sobre o seu assassinato pelo Operação Escorpião (um braço da Operação Condor). Você irá ver opiniões dos dois lados, ou melhor, dos três: os dos partidários da inviabilidade de reação, os partidários da visão de Brizola que era possível evitar o golpe, e os daqueles que o efetivaram. Cada um, com a verdade para si.
Jacqueline, muito obrigado pelos esclarecimentos!!
O Brasil é mesmo um país impar! Se analizarmos tecnicamente, na verdade o golpe foi efetivado pelo presidente do senado Auro de Moura Andrade quando este decretou vaga a presidência da República, mesmo sabendo que o presidente estava, ainda, em solo nacional!!! Inédito na História?!?!?!
Sobre a atuação do Sen. Moura Andrade, aliás, rico produtor de carne bovina, vejam no CH o video daquela sessão legislativa:

http://cafehistoria.ning.com/video/auro-de-moura-andrade-declara

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